• Thiago Anastácio

171’s


 

Thiago Anastácio

Advogado criminalista (e nesse mundo jurídico, algumas outras coisas).

Comentarista Político na CNN Brasil

Articulista do WE Coletivo

Contista na Revista Bula.

 


“O brasileiro é um feriado”.

Nelson Rodrigues


Janeiro de 2022. Há dois anos estamos numa devastadora epidemia que apenas em nosso país ceifou mais de seiscentas mil vidas; ao redor do mundo, algo em torno de cinco milhões de vidas foram perdidas.


O curioso é que não temos nem de longe dez por cento da população mundial e somos das nações mais ricas (e desiguais) do mundo... Mas ainda assim conseguimos ser responsáveis por mais de dez por cento das mortes do globo. Em um contrassenso sem igual, somos o país mais adepto às vacinas dentre as grandes nações e ao mesmo tempo, o país mais adepto e louvador de tratamentos comprovadamente sem eficácia.


Como se explica isso? O brasileiro é um feriado cívico, se é que Nelson, do Olimpo dos nossos gênios, me permite complementar a sua frase lapidar. Acabo essa frase e lembro quando nas redes sociais publiquei uma frase do nosso grande dramaturgo e uma dessas pessoas perdidas entre o socialismo, a louvação de Trotsky (quem dera o tivesse lindo, né minha filha? Inclusive o recomendo, um estilista espetacular das palavras!) e louvando políticos que têm como projeto a deixar ignorante - enquanto se reúnem em delícias com banqueiros e empreiteiros em jantares regados a vinhos de 10 mil dólares - me escreveu: você louva um porco machista! Ao que respondi: leia-o e depois, lembre-se da frase dele sobre quem, para ele, tinha o seu amor incondicional.


Pois é, meus caros, o tempo do politicamente correto acabou ao menos por aqui no meu teclado. E não se avexem meus irmãos pretos, gays, brancos, ricos, pobres, socialistas, comunistas e liberais: aqui cada um pode ser e viver como bem entender, desde que não encha a paciência dos outros. E encher a paciência não significa não lutar pelas causas justas que carregam - principalmente as relacionadas às igualdades de direitos e sobremaneira, as da busca pela felicidade sem nenhuma interferência externa às suas vidas.


A questão que me coloco aqui a provocar é: até quando deixaremos de demonstrar a hipocrisia em nome dos limites impostos por falsos intelectuais e falsos pensadores brasileiros?


Então vamos aos três aforismos elementares antes de tocarmos esse papo:


1. SER CONTRA O DESGOVERNO DE BOLSONARO NÃO ME FAZ SER UM PETISTA.


2. SER CONTRA AS ILEGALIDADES COMETIDAS PELA LAVA-JATO NÃO ME FAZ SER A FAVOR DE LULA OU SER CONTRA O COMBATE A CORRUPÇÃO. No meu caso de advogado criminalista menos ainda, pois sem “combate” (o termo é escroque), não existe processos e sem processos, não sustento minha família, não é mesmo?


3. QUEM VOTOU EM QUEM LOUVOU O TORTURADOR DE UMA MULHER NO MOMENTO EM QUE A JULGAVA (sim, amiguinhos, o deputado Bolsonaro foi juiz constitucional do impeachment de Dilma) ou é mal informado, o que já é um problema político-eleitoral muito sério ou é mau-caráter por natureza. O TORTURADOR TEM CÂNCER NA ALMA. Quem o louva é o câncer.


Vamos parar de hipocrisia? Eu posso me deitar e amar quem eu quiser. Se um dia o fizer com um homem, ninguém terá nada com isso. E ponto. O Estado, muito menos ainda.


Eu fui um jogador de basquete. Isso é importante? Sim, pois foi esse esporte que me apresentou a periferia e todos os cantos da minha e de outras cidades, meus irmãos de time e que ficaram para a vida. E justamente esse esporte que me apresentou meus ídolos e a música. Todos os “sujeitos” das frases anteriores, pretos. Do rap ao samba, do jazz ao blues; de Julius a Michael, de Iverson a Kobe; de Robert Johnson a Tupac; de Cartola a Marcelo D2. A vida viria a me brindar com um irmão preto, extemporâneo (Meu primo criado conosco desde os poucos dias de vida. Primo na biologia, irmão de ser irmão mesmo!).


Eu posso me separar e recasar, brigar e ir à zona, voltar para casa e brigar novamente até ser expulso de casa e amar e ponto. Divórcio, desquite, casamento, união estável, tudo isso tanto faz.


Agora...


Quem diz família acima de tudo, invocando em Deus um conservadorismo que não é de Deus (mas da filosofia europeia):


- Não pode estar no terceiro casamento e não ser interpelado por isso como figura pública hipócrita;


- Não pode ter a sua terceira esposa - antiga funcionária da SANTA e Sagrada Câmara dos Deputados - recebido dinheiro de quem é investigado por praticar peculato no gabinete de um filho seu e por ter relações com o crime organizado carioca;


- Não pode vociferar contra homossexuais, dizendo-os dessa característica do afeto, enquanto todos sabem das relações de uma de suas crias! Todos sabem ao ponto de você, leitor, saber de quem eu estou falando! Particularmente tenho pena desse menino, criado no meio de tanta estupidez, hipocrisia e ignorância. Se irmãos-amigos criados em lares cultos, vanguardistas, já sofreram o que sofreram para terem suas vidas plenas saindo do armário, imaginem aquele rapaz;


- Quem afirma que homens pretos pesam arrobas, não pode desfilar com um deputado preto apenas para fingir que não é racista, enquanto...


- Recebe fora da agenda congressista alemã neonazista, neta de um Ministro de Adolph Hitler;


- Não pode ter um membro do seu gabinete (secretário) imitando Joseph Goebbels, mestre do mal e da propaganda do Reich. E NÃO É POSSÍVEL QUE A COMUNIDADE JUDAICA (multifacetada sim, mas que sofreu o MESMO HORROR!) não se una contra essa barbárie que já foi vista em todas as campanhas de antissemitismo na história e que culminaram em... Barbáries, sempre, contra os judeus;


- A outra cria ou, o de banana pequena, não pode frequentar clubes de tiro com ligações sabidas com supremacistas brancos; Quer dizer, ele pode, mas o Congresso Nacional não pode deixar de reagir com seu regulamento sancionador!


Desculpem meus leitores, mas quem está na vida pública por opção (e creio não haver políticos que entraram em eleições, pois que estavam com armas apontadas para a sua cabeça) não pode se dar ao luxo da hipocrisia não ser fiscalizada e apontada. Uma coisa é a ofensa deliberada, sem base em fatos. Sobre essa, o Judiciário e o Congresso devem deixar de frouxidão e passar a punir com rigor. A vida pública requer coragem e a coragem deve ser protegida sobremaneira pela lei; mas não a maledicência, a ofensa deliberada ou, como gosto de dizer para alunos e ouvintes em geral, a FALTA DE EDUCAÇÃO, a do berço e a formal, reais problemas brasileiros. Essa deve ser punida e celeremente.


Meus amigos, daqui a pouco estarão canonizando quengas, vendendo feijões contra doenças, os militares estarão prestando auxílio a garimpeiros e devastadores da Amazônia, o BNDS estará emprestando dinheiro para facilitar a compra de jatinhos por ricos... Sim, contêm ironia e vocês entenderam o recado!


Fiquem então com essas verdades que existem em meus olhos, que são minhas e logicamente, não são absolutas - muito pelo contrário!


1. Não existe comunismo no Brasil. O último que existiu foi Oscar Niemeyer (que recebia cigarrilhas de Fidel) e antes dele, Luís Carlos Prestes. Então, tio Silvério (o tio da minha esposa que é filho de fascista e saiu aos seus), não tenha medo de ter que dividir o que você não tem. “Não vai rolar” uma União Soviética cá por essas bandas, embora Bolsonaro adorasse ter o exército vermelho sob suas ordens – sim, o sonho de Bolsonaro é ser Putin e sim, Putin pratica judô e não é com o professor das Agulhas Negras;


2. Eu posso decidir NÃO votar em alguém duvidosamente honesto ou no certamente bandido. A primeira hipótese é política e não afeta a presunção de inocência, pois de foro íntimo, cidadã. Somos eu e a urna.


A segunda é uma imposição legal, com a impossibilidade de se ter direitos políticos passivos (ser votado) depois de condenação confirmada em segundo grau (o que em minha modesta opinião é um contrassenso com a presunção constitucional de inocência até a certeza do trânsito em julgado – embora tudo isso se resolvesse com julgamentos céleres e não com menos direitos).


3. Esperamos que um político criminoso viole a lei! Um juiz violar a lei sendo juiz... O que fará quando for político? Opa, e se ele já é político... “Exu ajuda a fazer, mas Exu não ajuda a esconder”, né Sergião?


Fiquem atentos amigos. Novos players públicos estão surgindo. Muitos carregam verdadeiro patriotismo em seus corações e querem mudar as coisas. Muitos outros são de lobistas querendo mais facilidades nos futuros Tribunais de Brasília e nos gabinetes de sempre. O Brasil continuará o mesmo ainda por um bom tempo.


Fecho esse texto com Nelson Rodrigues por uma simples razão: os políticos tratam os brasileiros como crianças de rua! Para a foto, comiseração e mão estendida. Já na realidade, janelas fechadas e “surdez fingida” diante dos pedidos pelo básico da cidadania. Chamar o povo para pensar e pensando, debater o país? Nunca.


E por quê?


A plateia só é respeitosa quando não está entendendo nada”.

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