• Frederico Krepe

A esquerda brasileira e a excepcionalidade lulista

Frederico Krepe da Silva

Bacharel em filosofia pela UFJF

Mestrando do programa de pós-graduação em filosofia pela UFJF


Em filosofia, a “tese da excepcionalidade humana” ou “paradigma da excepcionalidade humana” é a posição que coloca o ser humano em um patamar especial dentre os outros animais, como um “ser excepcional” por ser dotado de liberdade, racionalidade e outras características próprias, garantindo uma certa natureza especial do ser humano. Essa tese é debatida por toda a história do pensamento humano, com destaque para a perspectiva aristotélica, que colocava o ser humano no topo da classificação dos animais, separado do resto. Ela volta a ser debatida com força na filosofia da biologia com o advento da seleção natural e da teoria evolucionista de Darwin, que acaba tendo como consequência o questionamento da posição especial do ser humano em relação aos outros animais. A partir do Darwinismo, o ser humano seria mais uma espécie dentre outras, mais fruto da seleção natural do que de qualquer outra coisa. Essa noção de excepcionalidade é debatida até hoje, e tem grande influência nas discussões acerca da natureza e da psicologia humana. Essa breve introdução serve para tratarmos do tema deste texto, a excepcionalidade lulista na esquerda brasileira.


Resgato esse raciocínio a partir de um “tweet” da economista Laura Carvalho comentando o pronunciamento do ex-Presidente Lula em São Bernardo do Campo. Considero a Laura uma das vozes mais racionais da economia na esquerda brasileira. Responsável por chefiar o programa econômico de Guilherme Boulos em 2018 e crítica das gestões do PT na economia, ela não tem medo de enfrentar o clima passional que toma conta das redes desde a posse de Jair Bolsonaro. Assim que a reforma da previdência foi aprovada em 2019, fez questão de fazer uma transmissão se contrapondo a toda a passionalidade do momento para garantir que o seu caráter público continuava e que isso era importante ser ressaltado em meio ao clima negativo na esquerda. Fez o mesmo com a aprovação da PEC 186 (PEC Emergencial) ao mostrar que ela não significava um congelamento nos reajustes dos servidores por 15 anos, como era propagado por amplos setores da esquerda na internet. Entretanto, algo me chamou a atenção em seu comentário sobre o pronunciamento do ex-Presidente. Em resumo, ela dizia que não se preocupava com o ex-presidente Lula voltando à presidência, mesmo sabendo ser provável que aplicaria uma agenda neoliberal. Ainda concluiu com a seguinte frase: “Volta Lula, que eu quero te criticar!”


Esse raciocínio não é muito exótico e tem certa racionalidade: o governo Bolsonaro é tão desastroso que a simples perspectiva de um governo Lula, ainda que neoliberal, é melhor do que o que temos. De certa forma, esse raciocínio é verdadeiro. O único questionamento que deve ser feito é: por que ele só é válido com Lula? Por que não podemos estender esse raciocínio a outras figuras políticas do Brasil, como, por exemplo, João Dória, Geraldo Alckmin, Ciro Gomes e outros? Por que não uma chapa articulada ao redor do ex-ministro Mandetta? Ele foi membro do governo Bolsonaro, mas rompeu e seria muito melhor uma pessoa como o Mandetta presidente do que Bolsonaro. Por que não uma presidência de Luciano Huck? São raciocínios semelhantes, mas não os vemos com tanta frequência. Por que isso acontece? Por conta da excepcionalidade lulista.


De alguma forma, parte da esquerda brasileira, consciente ou inconsciente, internalizou que os critérios para julgarem o lulismo e o PT são diferentes. A história que o partido tem, o agrupamento de movimentos sociais que constitui sua fundação e a proximidade com uma parcela da população pobre do Brasil parecem constituir uma aura ao redor do partido e de sua principal liderança que fazem com que eles sejam vistos como “diferenciados” no jogo político, especialmente na hora das críticas. A volta de Lula ao jogo nos diz bem sobre como isso funciona. Por exemplo, quando o ex-ministro Ciro Gomes acena para Rodrigo Maia, ele é criticado como direitista, mas quando Lula faz o mesmo aceno, ele é encarado como um estadista que estaria preocupado em unir o Brasil. O mesmo vale acerca do diálogo com o dito “mercado”. Lula está autorizado a fazer isso, mas os outros não, especialmente se estão disputando uma parcela do eleitorado progressista. Tal qual a tese da excepcionalidade humana, a excepcionalidade lulista coloca o ex-presidente e seu partido em uma categoria à parte na hora do julgamento político, uma certa blindagem de críticas que não são dispensadas em relação a outras figuras.


E quais são os problemas da excepcionalidade lulista? Esse é o elemento central dessa questão. Quando julgamos o lulismo e o PT fora dos padrões normais que julgamos os outros, passamos a mensagem que eles podem fazer o que os outros não podem e isso fica claro quando refletimos sobre a política de alianças do petismo e o excessivo conservadorismo econômico de seus governos. A mensagem que pode ser passada é a de que estão autorizados a cruzar limites que os outros não podem. Isso já acontece e eles se aproveitam.


Outro elemento a ser destacado é que essa rendição total ao lulismo impede qualquer mudança de rumos na gestão econômica que o partido praticou no governo. Esse argumento do “qualquer coisa é melhor que Bolsonaro” autoriza o PT e Lula a buscarem novamente, todas as alianças que fizeram com os bancos. Entretanto, dessa vez a margem para manobras é infinitamente menor. Ao pegar o país em 2003, Lula não tinha que lidar com um teto de gastos que coloca uma mordaça no gasto público. E agora? Mesmo que o Brasil pegue um novo ciclo de commodities, não será possível repetir o jogo do ganha-ganha que foi experienciado nos anos Lula (que se transformou em ganha-perde nos governos Dilma). Se nem na esquerda o PT pode ser cobrado por seus desvios por conta do “mal maior”, o caminho está livre para outro pacto e mais uma mudança feita para nada ser mudado. Pior, na hora que esse pacto naufragar, o monopólio da crítica ficará todo com a direita.


Por fim, ainda temos o principal problema acarretado, que é a total impossibilidade de responsabilizar os governos do PT pelos seus feitos. É fato que um governo Lula, mesmo aplicando uma agenda neoliberal, seria melhor que o desastre atual, mas não foi justamente essa agenda enlatada como política de esquerda que ajudou a fortalecer o bolsonarismo? Quando Dilma nomeia Joaquim Levy e assume um duro ajuste fiscal contra os trabalhadores, a economia cai mais de 3% no primeiro ano de seu segundo mandato, o desemprego sobe para 12%, a luz, o gás e os combustíveis também sobem. Como não perceber que isso influenciou no fortalecimento da direita e na derrocada da esquerda? A derrocada de 2015 e 2016 está na memória de boa parte da população e isso influencia (e muito!) a dinâmica eleitoral no Brasil. Como achar que isso não ajuda a reeleger Bolsonaro? O Brasil não está dominado por uma turba de fascistas irracionais como muita gente pensa. Existe racionalidade na rejeição ao PT e a não compreensão dela cobra caro.


Se a lógica é que um Lula neoliberal (de novo) é melhor e isso basta, então não podemos criticar parte da mídia e de setores da direita, que quer jogar fora Bolsonaro e preservar a agenda de Paulo Guedes. Se o próprio Lula quiser ser o responsável por manter a agenda do Guedes sem Bolsonaro, o melhor então é nos unirmos a eles, já que qualquer coisa vale frente ao desastre atual. A lógica, pelo menos, é a mesma e o desgaste, pelo menos dessa vez, não fica com a esquerda.

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