• Uallace Moreira

A Guerra Tecnológica entre Samsung (Coreia do Sul) x TSMC (Taiwan): sinal da importância da CEITEC

Atualizado: Jul 24

A disputa tecnológica entre Samsung e TSMC (Taiwan Semiconductor Manufacturing Co.) pelo domínio tecnológico de semicondutores mostra como a CEITEC (Centro Nacional de Tecnologia Eletrônica Avançada) é uma empresa estratégica para a economia brasileira.


A Samsung está expandindo sua fábrica de semicondutores no Texas em uma intensa concorrência com a TSMC. O objetivo é abrir espaço para equipamentos de manufatura de próxima geração, para superar o título de maior fabricante de chips da TSMC.


A Samsung vê sua fábrica em Austin, Texas, desempenhando um papel vital na obtenção de pedidos de empresas de tecnologia americanas. Autoridades municipais dos EUA recentemente começaram a revisar o pedido da Samsung de zoneamento de um terreno de 440.000 metros quadrados recém-adquirido - cerca de 40% de seu campus existente - para uso industrial.


A Samsung anunciou planos de investir 133 trilhões de wones (US$ 121 bilhões) em direção à sua meta de se tornar a líder mundial em semicondutores de memória e chips lógicos até 2030.


A Samsung está aumentando a capacidade de produção em sua fábrica sul-coreana em Pyeongtaek e pode levar tecnologias avançadas de fabricação de chips desenvolvidas na Coreia para a fábrica de Austin, com a finalidade de fortalecer sua presença nos EUA e na região das Américas.


A Samsung já vem ampliando seus investimentos em inovação, com a finalidade de expandir seu domínio existente do mercado global de semicondutores de memória, principalmente diante do acirramento dos conflitos entre EUA e China, assim como a ascensão da Huawei como mais uma forte concorrente no mundo e na Ásia.


Como resultado dessa estratégia, por exemplo, a IBM anunciou que seu chip de processador de próxima geração – terá como principal fabricante a Samsung. A gigante americana de jogos Nvidia revelou também que a gigante coreana faria seus chips de unidade de processamento de jogos de próxima geração.


A Samsung vende 50% dos principais produtos de memória do mundo: DRAM, encontrada em computadores pessoais e servidores, e chips NAND Flash, usados ​​principalmente em discos rígidos e eletrônicos de consumo.


Com o universo de novos aplicativos aparecendo em áreas como inteligência artificial (AI), Internet das coisas (IoT), 5G e carros autônomos conectados, a Samsung vai aprofundar a diversificação de suas atividades, fato este que já é uma tradição das grandes chaebols da Coreia do Sul, isto é, diversificar suas atividades produtivas para atividades relacionadas e não relacionadas.


A Samsung também está tentando fechar acordos lucrativos de fornecimento de seus equipamentos de rede 5G nos Estados Unidos, no Reino Unido e em outros países avançados, como nos países da Europa, que está aderindo às sanções à Huawei. O objetivo é ocupar os mercados e espaços que a China está perdendo no mercado mundial.


A produção de smartphones 5G da Samsung para o ano é estimada em 29 milhões de unidades, colocando a empresa em terceiro lugar no mundo, de acordo com o pesquisador de mercado TrendForce.


Por outro lado, a TSMC já anunciou um plano para construir uma nova fábrica no estado do Arizona. A empresa taiwanesa anunciou que construiria uma nova instalação de chips no Arizona por US$ 12 bilhões, que será inaugurada no próximo ano e deverá entrar em operação em 2024.


Atualmente, a TSMC lidera o setor com uma participação de mercado de mais de 50%. De acordo com o pesquisador de mercado TrendForce, espera-se que a participação de mercado da TSMC seja de 53,9% este ano, enquanto a Samsung terá 17,4%.


Por outro lado, a Samsung vem diminuindo a diferença de participação de mercado em relação à TSMC. Isso é resultado da Samsung ter sua própria competência como fabricante de chips.


Algumas informações mostram como a TSMC e a Samsung são essenciais na economia mundial, principalmente com o aprofundamento dos conflitos entre EUA e China.


ATSMC ocupa a terceira posição na receita global de semicondutores. Em 2019, as sete empresas americanas representaram quase 55% da receita da TSMC. Com exceção da Texas Instruments, as empresas norte americanas são de design consideradas “fabless”, o que significa que não possuem instalações próprias de produção comercial (fabricação). Isso deixa claro como a TSMC e a Samsung são estratégicas para os EUA.


Além do mais, o negócio de fundição da Samsung, a 2º maior empresa do setor, tem menos de 40% do tamanho dos TSMC. A terceira do ranking, GlobalFoundries (EUA), é inferior a 20% da TSMC. A empresa UMC, 4º no ranking, também é taiwanês. A 5º no ranking é a empresa SMIC (China).


Atualmente, os EUA respondem por apenas 13% da capacidade global e menos de 10% do investimento em nova capacidade. Por outro lado, a Associação da Indústria de Semicondutores calcula que as empresas americanas representaram 47% das vendas globais de semicondutores em 2019.


Ou seja, no conflito geopolítico e produtivo entre EUA e China, que envolve o domínio tecnológico, Taiwan com a TSMC, e a Coreia com a Samsung, ganharam protagonismo nessa disputa, deixando em evidência que os países que estão na fronteira tecnológica mundial, são justamente aqueles que tem política industrial.


A decisão da TSMC (empresa Taiwanesa) de boicotar a Huawei, parando de receber novos pedidos da Huawei Technologies Co. Ltd. e de que deixará de enviar chips de computador, seguindo as orientações das sanções dos EUA, foi um indicativo ruim para a China, mas que abre “janelas de oportunidades” para outros mercados produtores de semicondutores, como é o caso do Brasil com a CEITEC.


A TSMC será atingida a curto prazo pelas sanções impostas à Huawei, já que a Huawei, maior fabricante de equipamentos de telecomunicações da China, correspondeu por 14% das vendas da TSMC em 2019 com pedidos de chips para telefones celulares, estações base, servidores e outros equipamentos.


Entretanto, o principal cliente da TSMC é a Apple, o que explica, em parte, a TSMC de Taiwan se submeter às ordens dos EUA.


Diante desse cenário, fica claro como a CEITEC é uma empresa estratégica para o desenvolvimento econômico brasileiro. Vender e fechar a CEITEC é condenar o Brasil à uma condição de economia periférica e subordinada, especializado em commodities.


Diante dos argumentos do governo pra fechar a CEITEC de que é uma empresa que dá prejuízo, é importante lembrar que qualquer país que adota estratégia de catch up e upgrading em suas estruturas produtivas, no curto prazo, é absolutamente normal uma empresa não apresentar lucros elevados, dado que é uma empresa nascente. Entretanto, no longo prazo, com mais investimento em Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) e em infraestrutura, a CEITEC tende a ganhar escala e escopo, tornando-se uma empresa competitiva e lucrativa no longo prazo.


Para Julio Leão especialista em computação e porta-voz da Associação dos Colaboradores do Ceitec, esse prejuízo seria revertido em pouco tempo. "O amadurecimento de uma empresa de semicondutores é curva longa, na casa dos 20 anos. Saímos de R$ 9 milhões de faturamento para R$ 13 milhões em 2020. A previsão estimada para 2021 era de R$ 20 milhões. Até 2024 poderíamos empatar o quanto a gente custa e consegue faturar”.


A CEITEC tem projetos com reconhecimento internacional. De acordo com reportagem recente publicado no Uol:

“Um projeto recente do Ceitec foi bastante elogiado pela comunidade internacional de tecnologia. A estatal conseguiu desenvolver um chip logístico que possui um quarto da área do chip original —que hoje são utilizados nos cartuchos das impressoras HP. Uma lâmina de silício possibilita a fabricação de 40 mil chips em uma lâmina de 8 polegadas. Com a evolução desenvolvida pelo Ceitec, será possível produzir 120 mil chips em uma lâmina.”
“Um dos projetos mais promissores do Ceitec diz respeito à segurança nacional: o chip para passaporte, composto por um microprocessador, que grava as informações do viajante, e um software embarcado, que provê as funcionalidades do e-passaporte. O produto, chamado CTC21001, já recebeu a certificação internacional de segurança Common Criteria, essencial para a produção e comercialização do produto.”

Fechar uma empresa como a CEITEC é uma decisão deliberada de um país sem projeto de nação, de ameaça à soberania nacional, principalmente considerando um cenário internacional que deixa em evidência que países terem suas empresas nacionais intensivas em tecnologia é um mecanismo estratégico de ter uma estrutural industrial mais próxima da fronteira tecnológica mundial, assim como evitar que sejamos uma nação condenada à condição de periferia, subordinada e dependente, produtora e exportadora predominantemente de commodities.


Fontes:

https://twitter.com/moreira_uallace/status/1342174379346681857

https://asia.nikkei.com/Business/Technology/Samsung-expands-Texas-chip-plant-in-investment-race-with-TSMC

https://asiatimes.com/2020/09/samsung-digs-in-deep-for-the-chip-wars/

https://asiatimes.com/2020/08/how-samsung-5g-will-and-wont-beat-huawei/

http://www.koreaherald.com/view.php?ud=20200722000879

https://www.koreatimes.co.kr/www/tech/2020/09/133_295445.html

https://asiatimes.com/2020/07/us-tech-giants-exposed-if-china-takes-taiwan/

https://www.caixinglobal.com/2020-07-17/tsmc-cuts-off-computer-chip-sales-to-huawei-under-us-sanctions-101580989.html

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