• Christian Velloso Kuhn

A Indústria em Queda Livre: O Desempenho Recente do Setor no Brasil


Christian Velloso Kuhn

Economista e professor do Instituto PROFECOM


No dia 21 de julho, o IBGE divulgou a última Pesquisa Industrial Anual (PIA)[i], referente ao ano de 2019. Mesmo ainda sem refletir o impacto da pandemia na economia brasileira, a pesquisa apontou para a queda do número de empresas industriais no país pelo sexto ano consecutivo. Enquanto em 2013, o setor possuía 335 mil firmas, o maior número até então, esse montante caiu para 306,3 mil, representando uma diminuição de 8,5% no período. É o menor número de empresas em funcionamento do setor desde 2010, quando a PIA registrou 299 mil fábricas em operação[ii]. Boa parte dessa redução se concentrou na indústria de transformação, que fechou 28 mil companhias em seis anos. Quando analisado o número de pessoas ocupadas na indústria, a queda é mais intensa ainda. De 9 milhões de trabalhadores em 2013, o setor acabou reduzindo seus postos de trabalho para 7,6 milhões, uma diminuição de 15,6%.


Comparativamente a 2010, o segmento da indústria de transformação que registrou a maior queda no número de empresas foi a preparação de couros e fabricação de artefatos de couro (-36,2%), seguido pela indústria farmacêutica (-21,7%) e a indústria metalúrgica (-20,1%). Já o pessoal ocupado teve maior redução na fabricação de outros equipamentos de transporte (-27,7%) e de equipamentos de informática, produtos eletrônicos e ópticos (-27,5%).


Em 2019, apenas oito empresas industriais participavam com 24,7% do Valor de Transformação Industrial (VTI)[iii]. Nos período 2010-2019, a participação das indústrias extrativas no VTI subiu de 11,7% para 15,2%, enquanto a indústria de transformação, consequentemente, viu sua participação cair de 89,3% para 84,8% do VTI das atividades industriais do país[iv]. Um segmento que sofreu uma forte perda de participação no VTI foi a fabricação de veículos, que caiu da 3ª para a 6ª posição em igual período.


Essa retração da indústria, segundo os dados da PIA, também se verifica quando se avalia a participação do setor no PIB nacional. Conforme o gráfico abaixo, elaborado pelo economista Paulo Morceiro[v], calculando a média móvel trimestral dos setores agropecuária mais extrativo e indústria de transformação desde 1996, a partir de quando este último apontou o seu pico na série histórica no terceiro trimestre de 2008 (18,5%), observa-se uma trajetória de convergência entre os dois setores, até que recentemente, no primeiro trimestre de 2020, pela primeira vez a manufatura deixou de ter maior peso que a agropecuária no PIB nacional.


Fonte: Poder 360


Essa menor representatividade da indústria se deve muito mais ao processo de desindustrialização do que ao mérito do setor agropecuário. De acordo com Morceiro:


“Não se trata de uma questão de rivalidade entre a indústria manufatureira e a agropecuária. Não é ruim ter um agronegócio forte. O problema é não ter também uma indústria forte. O ideal seria haver setores industrial e de serviços fortes e um agronegócio igualmente poderoso no país”[vi].

Segundo o economista, a despeito da elevação da intensidade de capital e do uso de tecnologia no setor agropecuário, este possui mais limitações para adicionar valor à produção. Morceiro demonstra que o problema da indústria brasileira é de mais tempo. Desde a abertura comercial desenfreada promovida no início dos anos 1990, e a volatilidade cambial em igual período, o setor industrial nacional não conseguiu se adaptar a tempo em um ambiente altamente competitivo. Muito se deve ao próprio Estado brasileiro, que influenciado pela ideologia neoliberal propagada pelo Consenso de Washington aos países latino-americanos, no contexto do início do movimento de globalização, não adotou políticas industriais suficientemente para preparar o setor para concorrer com produtos estrangeiros. Isso explica a queda na participação da indústria de transformação, que chegou a 27,3% do PIB nacional em 1986, ruindo para 11,3% em 2020.


A desindustrialização não se trata de um problema per se, pois seus desdobramentos econômicos comprometem o crescimento e desenvolvimento socioeconômico dos países. Remete à primeira Lei de Kaldor, que estabelece uma relação causal entre a taxa de crescimento da produção na indústria de transformação e a taxa de crescimento do PIB[vii]. Não é por acaso que em igual período que o setor perdeu dinamismo na economia brasileira, o PIB passou a apresentar baixo crescimento em uma trajetória de stop and go, vulgarmente chamada de “voo de galinha”.


Outro problema derivado desse processo é a perda da complexidade econômica. De acordo com Hausmann et al (2011)[viii], quanto mais desenvolvido é um país, maior é a sua complexidade econômica, medida pela ubiquidade e pela diversidade de sua pauta de produtos exportados. Quanto mais uma economia nacional produz bens não ubíquos – que poucos países são capazes de produzir – e de manter uma pauta de exportação diversificada, tanto maior será a sua complexidade econômica[ix]. A desindustrialização, e a consequente “agriculturalização” da economia brasileira, tendem a provocar redução da complexidade econômica do país, uma vez que o setor agropecuário tende a produzir bens que a maioria das nações também consegue.


Historicamente, a indústria cumpriu um importante papel na urbanização e desenvolvimento socioeconômico do Brasil, em que Getúlio Vargas foi o primeiro presidente que vislumbrou promover uma política de industrialização com essa intencionalidade[x]. Depois, foi sucedido por Juscelino Kubitschek, com seu audacioso Plano de Metas (1956-1961), e Ernesto Geisel, através do II Plano Nacional de Desenvolvimento (PND), que também adotaram políticas industriais que tornaram a nossa cadeia produtiva bastante diversificada. Uma vez que nos últimos 30 anos, os governantes brasileiros realizaram parcas e insuficientes tentativas de frear o processo de desindustrialização, sobretudo o atual governo, tende-se a se transformar em uma “destruindustrialização”, caso não logremos eleger uma presidente, no ano que vem, engajado em implantar um Projeto Nacional de Desenvolvimento capaz de reverter em uma reindustrialização da economia brasileira.


[i] https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/31202-numero-de-empresas-industriais-encolhe-pelo-sexto-ano-seguido-em-2019. [ii] https://www.nexojornal.com.br/extra/2021/07/21/Brasil-perdeu-quase-30-mil-ind%C3%BAstrias-em-seis-anos-aponta-IBGE. [iii] Diferença entre o Valor Bruto de Produção (VPB) e os Custos de Operações Industriais. [iv] https://br.investing.com/news/economy/ibge-industrias-empregavam-76-milhoes-de-pessoas-em-2019-895205. [v] https://www.poder360.com.br/economia/industria-perde-participacao-no-pib/. [vi] Idem. [vii] THIRLWALL, A. P. A plain man’s guide to Kaldor’s growth laws. Journal of Post Keynesian Economics, New York, v. 5, n. 3. 1983. [viii] Hausmann, R. et al. (2011), The Atlas of Economic Complexity: Mapping Pathsto Prosperity. Cambridge: Center for International Development, Harvard University, MIT. [ix] GALA, Paulo. Complexidade Econômica: uma nova perspectiva para entender a antiga questão da riqueza das nações. Contraponto. 2017. [x] https://professor.ufrgs.br/pedrofonseca/files/sobre_a_intencionalidade_da_politica.pdf.

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