• Thabata Ganga

A industrialização do Brasil começa na periferia

Atualizado: Mai 16

Thabata Ganga

Engenheira Biomédica (2016) e Cientista da Tecnologia (2014)

pela Universidade Federal de São Paulo.


Apesar dos avanços que tivemos no acesso à educação superior, o processo de desindustrialização e especulação financeira formou milhares de profissionais que não encontram posição no mercado, tendo de recorrer aos aplicativos de carona para gerar renda. Entenda a importância da universidade pública para reverter esse quadro, desenvolver a indústria e gerar empregos de tecnologia no Brasil.


As mulheres representam apenas 32% da força de trabalho na indústria brasileira. O setor de fabricação de produtos farmoquímicos se destaca com 57% da força de trabalho feminina. As mulheres negras ainda são maioria nos cargos de limpeza de todos os setores industriais. Fonte: Reprodução da Internet/CANVA


Brasil, Pátria Sucateadora


O país avançou muito na democratização do acesso à universidade. É inegável e desonesto dizer o contrário com tantos índices e pessoas formadas. Inclusive também sou produto disso, assim como muitos outros jovens da primeira geração de suas famílias com diploma de ensino superior. Depois de tudo, agora vivem uma enorme crise de desemprego e desindustrialização.


Muitos avanços vieram de programas do governo federal como o REUNI, PROUNI e FIES, que ampliaram o acesso. Novas universidades, bolsas de estudo além do financiamento com juros baixos. Nunca os grandes grupos educacionais haviam lucrado tanto no Brasil. O ENEM e o SISU foram duas medidas revolucionárias, essenciais para muitos realizarem o sonho de fazer faculdade. A grande novidade era um catálogo, com cursos e faculdades que nunca tínhamos ouvido falar, além de ver um resultado parcial, que permitia mudar a escolha caso a nota não desse. Foi assim que eu e mais centenas colegas conhecemos o Bacharel Interdisciplinar em Ciência e Tecnologia, um curso experimental, baseado nos pensamentos revolucionários de Darcy Ribeiro para desenvolver a indústria e que teria sua primeira turma - um retrato do REUNI que se repetiu em muitas cidades do nosso imenso país e depois de 10 anos vem mostrando resultados. Modelo que o governo federal faz de tudo para boicotar, visto o fracasso do último ENEM com recorde de abstenção.


Tive a chance de viver um modelo único de formação. Prédio em construção, professores jovens que recém doutorados, liberdade de montar a grade curricular, turma de alunos desde o começo foi por cotas sociais e racionais, tudo era novo. Porém, sem moradia e sem auxílio permanência para todos, além do acesso ao prédio provisório - uma rodovia com um córrego passando no meio. Não havia faixa de pedestre ou semáforo e demorou até ser construída uma passarela. Com relação ao bandejão, tivemos que protestar - a empresa terceirizada servia como proteína meia salsicha. Logo nos primeiros dias houve desistência e a lista de alunos rodou até a oitava chamada. Além desses primeiros meses, muitos não aguentaram a crise econômica, ou pressão, desistiram e alguns até mesmo se suicidaram. Sentimos na pele o que significa “fácil é entrar, difícil é sair”. Quais são os resultados de anos desse projeto pela busca de gênios sem reconhecimento, essa meritocracia sem mérito? De que adianta ampliar as vagas, se permanecemos boicotando os nossos talentos que vêm da periferia?


Um dos pontos altos foi o Ciências sem Fronteiras, que surgiu para fazer transferência tecnológica com outras nações. Cada universidade criou a sua regra, poucos acordos foram implementados e surgiu uma nova barreira de classe. Onde quem sabia um idioma e tinha dinheiro para pagar a prova de certificação, ganhava um intercâmbio. Os que viajaram foram largados à própria sorte para fazer parcerias de transferência tecnológica. Tinha como dar certo, jovens universitários, sozinhos em outro país negociando acordos com universidades e multinacionais?! Não demorou para ele pegar o apelido de Férias sem Fronteiras. Cansados de promessas e sucateamentos, o movimento estudantil rachado com a UNE brigava com o governo federal pelos 10% do PIB na Educação. Enquanto era negociado a venda da Bacia de Libras do Pré Sal a preço de banana e prometia-se o investimento dos royalts na educação. Algo que nunca aconteceu devido ao congelamento do orçamento. A receita pronta para uma revolta na Copa do Mundo, que pouco tempo depois daria início ao golpe.


O Mercado formando cientistas


Um dos maiores escândalos do neoliberalismo é o mercado do vestibular. Desde o início da vida escolar somos submetidos a uma educação enlatada, com o fim de formar talentos que vão passar em provas. Aqueles que culpam Paulo Freire, relevam a mercantilização da educação. Não temos uma educação de fato libertadora como ele propôs, que forma o indivíduo para ser um transformador. Mas sim uma educação frustrante e fora da realidade da maioria dos jovens, principalmente os da periferia, os lugares que mais precisam de transformação.


Contra tudo e contra todos, esse jovem “vence” o sistema, ela passa no vestibular e quando chega lá é como se esse lugar não fosse feito para ele. Todo mês a bolsa atrasa, a grade horária mal otimizada devido a precarização não permite conciliar estudo e trabalho além das dificuldades de um péssimo ensino médio. A bolsa de iniciação científica paga R$ 400,00 reais há mais de 10 anos, metade do salário de um atendente de call center. A cada semestre a sala vai ficando mais vazia e a pressão cada vez maior - você é um sobrevivente, o primeiro da sua família que vai pegar o diploma. Não podemos deixar de citar a sobrecarga dos técnicos e professores, que acumulam múltiplas funções, carga de trabalho exaustiva e anos de frustração com o descaso da ciência e tecnologia no Brasil que refletem na paciência e qualidade do ensino. A falta de boa infraestrutura e bolsas de pesquisa faz com que os pesquisadores busquem parcerias público privadas, que enfrentam diversas burocracias e discussões sobre a propriedade intelectual, enterrando milhares de projetos e empregos. O resultado de tudo isso é uma alta taxa de evasão, frustração, endividamento, desperdício de dinheiro e de talentos.


Em 2015, o custo médio de um estudante do FIES foi de aproximadamente 10 mil reais por ano, enquanto o na universidade pública foi de 20 mil - muito disso devido à alta evasão e baixa eficiência em formar. Assim, além de ampliar o acesso à graduação no Brasil, o Fies também demonstrou-se uma alternativa mais barata. A explicação para esse custo é a mesma para o produto produzido na China ser mais barato que o nacional apresentando no artigo anterior. A universidade privada “produz” diplomas em maior escala que a da universidade pública. O que foi vendido como solução? O FIES e o PROUNI, onde o Estado transferiu a responsabilidade para a iniciativa privada. Sem um estudo da necessidade econômica da região, pipocaram universidades no país todo com cursos baratos e salas lotadas, formando alunos que o mercado local não tem capacidade de absorver.


Deu certo? Como podemos ver agora, mesmo tendo recebido muito dinheiro público, quantas dessas universidades privadas estão trabalhando para o desenvolvimento de vacinas aqui no Brasil, quantas indústrias nasceram? Diferente dos EUA, no Brasil 70% dos doutores estão empregados no setor público, enquanto lá a mesma porcentagem está na iniciativa privada.


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O Engenheiro que virou Uber


A figura do maconheiro da federal foi uma alegoria popularizada nos últimos anos. Um dos motivos foi a indignação com indivíduos como o filho do presidente, Eduardo Bolsonaro. Um playboy, que fazia faculdade de graça no Rio de Janeiro, tinha um cargo público em Brasília e ainda sobrava tempo para pegar onda com os amigos da banda Forfun. Nada contra, admiro o gerenciamento de tempo e inclusive gostaria de indicar duas músicas da banda: uma em homenagem à revolução cubana e outra sobre a cannabis hidropônica. O curioso é que esse tipo de figura sempre existiu ao longo da história como uma caricatura dos universitários, pesquisadores e intelectuais - a bohemia.


O problema foram as ações afirmativas e cotas raciais. A casa grande não aguentou ver jovens, negros e periféricos estudando ou dedicando o seu tempo livre às ideias. Para eles isso foi demais. As ciências humanas e sociais foram as mais afetadas por esse estigma e existe um motivo para isso: a quantidade de cursos com menor nota de corte e o maior acesso de pessoas periféricas. Eles são colocados em posição de inferioridade, socialmente e economicamente. O preconceito e dificuldades econômicas geram alta evasão, aqueles que conseguem chegar ao fim, na maioria das vezes já possuem uma boa estrutura econômica e familiar. Novamente foi esquecido um princípio básico, não se começa um investimento antes de conhecer o mercado e ter um plano de negócios. Sem as ciências humanas sociais, não é possível entender as demandas sociais, a complexidade de cada mercado, criar relações para vender e muito menos inovar. Um fator que também contribuiu para a desindustrialização no nosso país, falências e baixa atratividade de capital.


Para que(m) serve o seu conhecimento, sem saber onde aplicar? Junto ao processo de desindustrialização e sucateamento das universidades, surgiu a moda do Trader. Onde se vende a ideia de fazer dinheiro investindo em ações e fundos de investimento, do enriquecimento sem produção, apostando na especulação e no dinheiro dos outros. As universidades públicas deixam de gerar novas empresas, os talentos que não desistem, abandonam o Brasil. Um prato cheio para enterrar de vez o crescimento da indústria nacional e acelerar o processo de falência das empresas. No fim das contas, formamos o engenheiro que virou Uber, pois não têm emprego para eles trabalharem. Antes se apenas os engenheiros tivessem sido afetados. É urgente rever o (des)projeto de educação.


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