• Bryan da Fonseca Araújo

A política do ressentimento

Atualizado: Jul 24


Por Bryan da Fonseca Araújo

Advogado e Mestrando em Ciência Política (UFPB)

O ressentimento como sentimento intrínseco ao ser humano é objeto de estudo da filosofia há bastante tempo. Para Nietzsche, por exemplo, o ressentimento é um efeito causa da impotência, comportando-se como uma força reativa, pois o tipo ressentido é aquele que não canaliza seu ódio para fora, mas para si mesmo, construindo uma espécie de vingança imaginária.


Max Scheler por sua vez buscou entender o papel que o ressentimento exercia sobre as classes, e como ele acabava por gerar um descontentamento nas classes dominantes do capitalismo quando alguma mudança social era produzida e seus privilégios ameaçados.

Portanto, não é de hoje que o ressentimento gera efeitos no ambiente político, contudo, nos últimos anos o que se vê em nosso país, é que os rancores por ações passadas continuam ditando o caminho futuro.


Bolsonaro se aproveitou do ressentimento que boa parte do eleitorado nutria dos governos petistas. Sim, o antipetismo não foi criação de Bolsonaro, ele já existia, este apenas se utilizou de um sentimento já presente na sociedade brasileira para ganhar projeção.


Prova disso é que em 2018, a pesquisa Eseb sobre a preferência e rejeição partidária do eleitor, apontou que 10% dos pesquisados alegavam serem petistas (sendo de longe o partido mais citado), contudo, 30% diziam não gostar do partido.


Hoje, é a vez dos petistas mostrarem ressentimento com eleitores arrependidos de Bolsonaro e apostarem na tática da eterna culpa, sendo que, até hoje qualquer tentativa de reconhecimento dos erros do partido é rechaçada de forma veemente pela militância.


E assim seguimos, um apontando o dedo para o outro, e realçando culpas pretéritas. A incapacidade de acolhimento se torna contraproducente a partir do momento em que impossibilita a mudança do cenário atual.


Jair Bolsonaro obteve quase 58 milhões de votos no 2° turno nas eleições de 2018, ou seja, em um país com menos de 150 milhões de eleitores, Bolsonaro tirou mais de um terço dos votos totais, em um ambiente onde os votos brancos, nulos e abstenções crescem a cada pleito.


Assim sendo, qualquer candidato que almeje vencer as eleições de 2022 deve estar preparado para captar os “bolsonaristas” arrependidos, contudo, o que se vê em grande parte da oposição hoje, é a adoção de uma postura agressiva a este eleitorado e que remete a uma viagem de culpa pela decisão tomada, como se a vergonha fosse a melhor professora.


Se seguirmos por este caminho, em 2022 teremos uma disputa de “quem errou mais?”, e o debate de projeto de país para o futuro continuará interditado, os erros permanecerão sendo negados e as soluções para a devastação econômica e sanitária que enfrentamos nunca serão encontradas.


O que se percebe é que grande parte da mídia ainda nutre um sentimento de revanchismo aos governos petistas, mesmo o partido não estando mais no poder desde 2016, e foi este revanchismo que levou estes setores a um apoio incondicional à operação lava jato, que hoje, sabe-se responsável por inúmeras ilegalidades que culminaram na anulação de processos inteiros.


Por sua vez a militância petista e seus líderes, parecem não abandonar o ressentimento que acometeu o partido após a queda da Presidente Dilma Rousseff, e buscam culpados para a eleição de Bolsonaro, culpa esta que não passa pelo partido, é claro. Ambos acabam por manter a roda de ódio circulando, e é neste ambiente de gangrena do debate civilizatório que o bolsonarismo floresce.


Um fato é inquestionável, quem quiser vencer em 2022 deverá estar preparado e pronto para acolher este eleitor que não se vê mais representado pelo governo Bolsonaro. E se analisarmos os percentuais apresentados pelo Presidente nas pesquisas feitas atualmente, há mais de um ano do pleito, perceberemos que se trata de uma parte considerável do eleitorado, e que por isso não pode ser menosprezada, dada as curvas ascendentes de pessoas que simplesmente se isentam do debate político e optam por não escolher. Não há espaço para erro aqui, nenhum dos candidatos pode se dar a este luxo de menosprezar qualquer faixa do eleitorado, por menor que ela seja, o que está em jogo é algo muito maior do que apenas a liderança do executivo nacional por 4 anos.


Alguma alternativa a este ressentimento deve ser encontrada para a superação dos ódios que nos movem nos dias de hoje, a eterna luta do “nós contra eles” chegou a um ponto intolerável, e que apenas fortalece o discurso de sabotagem externa utilizada pelo Presidente para mascarar incompetências, e convenhamos, Bolsonaro sabe terceirizar suas culpas como ninguém.


A autocritica pode ser um termo que se banalizou dado o excesso de seu uso, mas faz-se necessária mesmo assim, para entendermos até que ponto contribuímos para que este carrossel de ressentimento continue girando?


Este é um momento crucial de acolhida, entretanto o que se vê é segregação e culpa. Precisamos abandonar nossos ódio e paixões de outrora se quisermos ter alguma esperança de superação deste terror que se apossou das nossas mentes, corações e da Presidência da República. É preciso olhar para o futuro com um sentimento e uma visão diferente das que nos trouxeram até aqui, não será uma tarefa nada fácil, principalmente em tempos de redes sociais, mas se faz mais do que necessária, e não podemos mais esperar.

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