• Bryan da Fonseca Araújo

A prisão da convicção


Por Bryan da Fonseca Araújo

Advogado, especialista em Direito Penal, Processo Penal e Segurança pública.

Mestrando em Ciência Política (UFPB).


Você já se perguntou por que é tão difícil convencer alguém próximo de fatos que para você são óbvios?


Seja a corrupção de um governo ou partido, seja a má gestão clara e evidente que levou pessoas à morte.


Independente de qual seja o caso, sempre vai existir alguém que negue o obvio e se agarre a convicções que muitas vezes distorcem a realidade. Este fenômeno entrou em evidência nos últimos tempos, onde, o tido “negacionismo” vem ganhando força e adeptos.


Questões há muito pacificadas, muitas delas desde séculos atrás, voltaram ao debate. Algumas ganham notoriedade pela excentricidade, e poderíamos dizer que até pela sua estupidez, como por exemplo a esfericidade da terra (pausa para risos). Outras, contudo, não possuem a mesma graça, como a suspeita sobre a segurança e efetividade das vacinas, e é neste ponto em que concepções individuais passam a gerar riscos para a coletividade.


A incapacidade de perceber o obvio não só em questões políticas, mas em matérias gerais, é descrita por alguns autores como o problema do “viés de confirmação”, que nada mais é do que a interpretação dos fatos e dados, de maneira a corroborar aquilo que já se acreditava, não importando se tais fatos refutem a tese pré-existente.


A realidade nesse ponto, deixa de ser algo objetivo e passa a ser absolutamente interpretativa, dados são distorcidos e maquiados, para que caibam nas narrativas, não importando o quão contraditório eles sejam. Seria quase como se estivéssemos hipnotizados, incapazes de acordarmos de tal feitiço.


Infelizmente, agora é que entra a parte assustadora, todos estamos sujeitos ao viés de confirmação.


Em tempos de redes sociais é comum que nos fechemos em nossas “bolhas” e consumamos apenas aquilo que é confortável a nossa visão de mundo, afastando tudo aquilo que confronte este entendimento, buscando opiniões que de fato nos confirme aquilo que já acreditávamos saber.


Não se trata mais de apenas ter opiniões distintas sobre determinados assuntos, estamos falando de percepções da realidade completamente conflitantes.


Em 2017, um ano antes das eleições que levariam Jair Bolsonaro ao poder, um levantamento realizado pelo instituto britânico Ipsos Mori, realizado em 38 países, mostrou que o Brasil era a época, o 2º país com a pior noção da própria realidade em temas como: taxa de homicídios, criminalidade de estrangeiros, consequências de ataques terroristas, saúde, religião, consumo de álcool, entre outros, ficando à frente apenas da África do Sul.


Para exemplificar tal falsa percepção da realidade temos o exemplo de que, quando perguntados “quantas garotas de 15 a 19 anos engravidam no Brasil”? Os entrevistados acreditavam que 48% davam à luz, mas os dados oficiais mostravam o número real de apenas 6,7%.


Já quando questionados sobre “quantos estrangeiros compõem a população carcerária do país”? Os brasileiros em média disseram acreditar a época que a taxa chegava a 18%, mas o número oficial era de 0,4%.


E a simples falta de informação não é suficiente para explicar tal fenômeno, vez que, mesmo bombardeadas por estudos científicos ou dados concretos, estas pessoas ou rejeitam completamente tal confrontação ou moldam tais fatos para que de alguma forma acabem corroborando sua ilusão.


É fácil identificarmos o viés de confirmação em pessoas que continuam defendendo o tratamento precoce para o Covid-19, mesmo estando mais do que comprovado a sua ineficiência e potenciais prejuízos à saúde, ou quando insistem que a terra é plana em pleno século XXI, mas, e quando o caso não é tão gritante assim? E quando somos nós que muitas vezes relativizamos aquilo que está em nossa frente, para não termos que lidar com o fato de que sim, talvez estivéssemos errados sobre aquele assunto?


A partir de quando, errar se tornou um crime capital? Por qual motivo a paixão ou o sentimento a um político se tornou um fator mais decisivo para definir um voto, do que o estudo de projetos?


Nietzsche afirmava que as convicções são cárceres, assim sendo, o nosso maior desafio permanece, agora mais do que nunca, criarmos a coragem necessária para desafiarmos nossas certezas e finalmente nos libertamos de nossas prisões de convicção.

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