• Pedro Henrique Máximo Pereira

A quem interessa o identitarismo? (parte II)

Atualizado: Jul 9



Caros leitores e leitoras, gostaria de iniciar a segunda parte da análise sobre o identitarismo propondo uma reflexão introdutória. A repercussão do texto A quem interessa o identitarismo? (parte I) foi significativa e trouxe alguns questionamentos que merecem atenção e destaque. Os questionamentos não foram, em sua maioria, em função do conteúdo stricto sensu, mas da afirmação inicial: “É preciso falar sobre o identitarismo”. Muitos leitores e muitas leitoras não concordaram com esta compreensão.


Em análise aos dados trazidos pelo Google Trends, o termo identitarismo tem sido procurado no site google.com desde 2016 no Brasil, com intensificação e crescimento progressivo no tempo. Em 2020, ano eleitoral, tal termo teve grande número de buscas durante a semana do segundo turno das municipais. Não nos esqueçamos que uma parcela da esquerda que levanta as pautas das minorias de modo expressivo e contundente (que são diretamente associadas aos princípios do identitarismo pela direita) estava no segundo turno em capitais importantes como São Paulo e Porto Alegre, locais em que os termômetros de busca indicaram 55% e 100%, respectivamente. No segundo lugar do Ranking, encontra-se Rio de Janeiro, com 75%, em função das fake news de Marcelo Crivella (Republicanos), associando o PSOL a Eduardo Paes (DEM). Acredito que este volume de buscas já é, por si só, uma justificativa forte para tentarmos trazer luz a este debate obscuro, confuso e diluído.


Resgatando alguns pontos da parte I deste texto, é importante salientar que há importantes diferenças entre os conceitos de “minorias sociais” e o “identitarismo”. Minorias sociais são grupos sociais que são privados de representatividade política e/ou que se encontram em vulnerabilidade social. Suas pautas estão ancoradas na superação dessa assimetria representativa e na aniquilação de sua condição inicial de vulnerabilidade a partir de sua autocompreensão social e coletiva. O Identitarismo ou os identitários, por sua vez, pautam ou encampam as disputas sociais e políticas a partir da premissa do reconhecimento das particularidades de sua identidade individual.


Além do mais, na parte I deste texto anunciei que abordaria aqui como o identitarismo serve à direita e à esquerda. Farei esta análise a partir de dois acontecimentos recentes: a invasão do Capitólio dos Estados Unidos e do Big Brother Brasil. Acredito que são representativos e suficientemente claros. Antes que a simetria de casos analisados seja cobrada, pondero que não se trata de uma discussão que careça dessa simetria.




Identitarismo à direita


No dia 06 de janeiro de 2021 o mundo assistiu, ao vivo, à primeira tentativa de autogolpe da história dos Estados Unidos. Não nos interessa aqui os detalhes dessa frustrada e atrapalhada tentativa de Donald Trump se perpetuar no poder, pois este tema já foi tratado na Coluna de Política do We por Bryan Araújo em seu texto O abalo sísmico na democracia dos Estados Unidos. Nos interessa, por outro lado, observar que uma parte dos manifestantes chamou atenção pelo modo como se vestiam e se comportavam no ato.


Certamente as imagens de Jake Angeli (33 anos) foram as mais difundidas, mas ele não era o único ali que se vestia como um primitivo. Torso exposto e tatuado, cocar sioux de pele e chifres, rosto pintado com as cores da bandeira dos EUA e uma lança pontiaguda nas mãos com a bandeira do país configuram a estética perdida do macho que Angeli e outros membros do QAnon, um movimento de extrema direita cultivada na deep web, procuravam resgatar. Essa estética pirotécnica, que muitos veículos associaram a uma tentativa de chamar atenção da mídia, na verdade, traduz uma compreensão de mundo infame nomeada de “masculinismo”.


Jake Angeli, o QShaman, na invasão do Capitólio. Fonte: Uol.


O masculinismo é amplo e não unitário. Portanto, não é encampado somente por homens e não é homogêneo em sua estética. Muitos masculinistas não se vinculam à estética viking ou um primitivo nativo dos EUA, mas aderem a pautas específicas e exclusivas dessa visão da sociedade. A estética de QShaman Jake Angeli no ato contra o resultado das eleições dos EUA é uma hipérbole, um exagero necessário às ambições do grupo que deixou o submundo da internet para avançar sobre o imaginário global.


A discussão central dos masculinistas está pautada na ideia de que as minorias sociais conquistaram direitos demais e que estas conquistas devem ser interrompidas e retroagidas. Segundo seus discursos, as mulheres feministas e a comunidade LGBTQIA+ corromperam e dissimularam a ideia que a sociedade tinha de masculinidade viril e feromônica. Esta, como em algumas tribos e comunidades ancestrais notadamente selecionadas a dedo (pois havia tribos e comunidades ancestrais cujos membros centrais eram mulheres), deveria ser resgatada.


Interessante observar que o resgate dessa pretensa virilidade é, senão, um culto à masculinidade, uma adoração ou um desejo explícito pelo corpo masculino. Muitos masculinistas, a grande maioria deles, têm atração e desejo por essa estética, celebram seu culto com sexo entre si. No entanto, esse sexo não é reconhecido pelos masculinistas como comportamento homossexual, mas uma reverência à própria idealização de masculinidade que precisaria ser resgatada.


Por outro lado, as mulheres são compreendidas no masculinismo em seu universo biológico-reprodutivo. Caberia a elas a reprodução, e somente a reprodução seria seu papel no reino do masculino. O masculinismo que também possui mulheres que aderem a essa compreensão de mundo, relegaria tal horror ao corpo feminino que pode chegar ao ódio. Quanto aos LGBTQI+, estes teriam sido os responsáveis por corromperem a imagem do macho, associando seu comportamento e linguagem corporal à feminilidade. Os homossexuais, no complexo universo do masculinismo, deveriam ser punidos ou desaparecer.


Parece absurdo esse conjunto de ideias que, com pitadas de religiosidade, versa uma teoria negacionista e preconceituosa contra comunistas, contra o globalismo (seja lá o que isso significa) e contra personalidades importantes, como o Papa Francisco e Hillary Clinton. Mas, por mais que seja absurdo, este já parece ser um contexto familiar a nós, brasileiros, pelas constantes aberrações de teor masculinista pronunciadas pelo presidente Jair Bolsonaro, o imitador mor de Donald Trump, e seus asseclas. “Prove que você é homem”, é a palavra de ordem. “Foi uma fraquejada”, pois teve uma filha. “O filho começa a ficar assim meio gayzinho, leva um coro, ele muda o comportamento dele” ou que “Seria incapaz de amar um filho homossexual. Não vou dar uma de hipócrita aqui: prefiro que um filho meu morra num acidente do que apareça com um bigodudo por aí. Para mim ele vai ter morrido mesmo”.


A figura do macho se revela não somente no esbravejar frases de efeito que soam como música para os adeptos e simpatizantes, mas por toda indumentária e apologia ao falo. O amor às armas, dedo apontado ou uma falsa simplicidade cotidiana, aparentemente desprovida de luxo (sempre associado ao feminino), configuram um conjunto de códigos masculinistas. Recentemente, o deputado Daniel Silveira (PSL-RJ), esbravejou contra a Suprema Corte, ameaçou nominalmente os ministros e, preso, no contexto do IML, filmou sua investida viril e agressiva contra uma policial civil por ser advertido da necessidade do uso de máscara no recinto. O mais absurdo disso tudo é sua autoexposição intencionalmente planejada como macho, aquele que fala grosso e, em momento algum, se mostra frágil e suscetível a emoções que possam apequenar sua virilidade. Mais que isso, a questão colocada naquele tenebroso acontecimento no IML é sua subversão à institucionalidade, colocando-se como um macho que fala grosso diante de uma autoridade feminina que representava, naquele contexto, uma das instituições da Polícia Civil.


Daniel Silveira no IML no contexto de agressão à policial civil. Fonte: Correio Braziliense.


O masculinismo é a suprema exacerbação do identitarismo. Isso porque recobra, como uma contra-força, as pautas feministas e LGBTQIA+ já estando numa condição de superioridade e privilégio discursivo e estético, seja no contexto dos EUA com o macho Jake Angeli e Donald Trump, ou no Brasil, com Daniel Silveira ou Jair Bolsonaro. O masculinismo cega a tal ponto que não há qualquer respeito à institucionalidade, pois, a amargura de masculinidade fragilizada e explicitada pelo reforço constante de seu falo, para si, é maior que qualquer instituição republicana.


Identitarismo à esquerda


Assim como o identitarismo serve para o reforço dos discursos de direita, serve à esquerda. Recentemente, no BBB 21, o país assistiu atônito às colocações de Karol Conká e Lumena. Notadamente favoritas ao prêmio de 1,5 milhões de reais por suas pautas e falas na mídia, a rapper e a psicóloga protagonizaram a mais impressionante cena de descolamento da realidade, colocando uma parte importante da esquerda do país diante do espelho.



Lumena e karol Conká no Big Brother Brasil 21. Fonte: Notícias Indaiatuba.


Em 2017 fui a um show de Karol Conká no festival Bananada, em Goiânia. Aguardava ansioso por sua apresentação, pois sua associação às pautas das minorias era muito significativa e este evento sempre foi muito politizado. Fato! O show foi incrível recheado de palavras de ordem #ForaTemer. Muitas dessas ondas de manifesto foram puxadas pela cantora. Mas, não somente isso. Conká sempre fez parte dos circuitos culturais relacionados a movimentos políticos de resistência como a pauta dos secundaristas, das mulheres e da população preta.


Antes de continuarmos, cabe a ressalva de que o Big Brother não é um reflexo da realidade por vários motivos. Ninguém se vê se relacionando 24 horas por dias com pessoas que não fazem parte do seu cotidiano, sendo monitorado e tendo suas intimidades expostas para milhões de pessoas. Mas, por mais que seja um jogo e um trampolim para a autopromoção, revela tonalidades e matizes da realidade, pois, ali, ninguém é folha em branco. Além do mais, o Big Brother é um importante observatório sociológico, não por ser ele mesmo um confinamento-vitrine, mas, por atrair a atenção de tantos milhões de pessoas do mundo todo e ser um fenômeno de entretenimento de escala global. Esse é um dos motivos importantes para estarmos antenados ao que se passa lá dentro e analisarmos o que se passa aqui fora, pois, o conjunto da sociedade passa a se sentir identificado com algumas personalidades, individualidades e pautas ali levantadas.


De todos os eventos que ocorreram nesta edição 21 aqui no Brasil, faço um recorte no dia 07 de fevereiro. Após um beijo entre Lucas Penteado e Gilberto Nogueira (Gil), o primeiro beijo gay da história do programa, e o desenrolar de uma noite de acusações, Lucas saiu do programa. Lucas foi acusado por Lumena e Conká de se forçar a um comportamento homossexual para ganhar seguidores e a simpatia do público aqui fora, mesmo não sendo gay. Essa constatação entrou em oposição à fala de Lucas que se alegou bissexual, mas as acusações foram se intensificando até o ponto em que Lumena saca de sua bainha o famoso punhal do lugar de fala e desfere sobre Lucas o ataque fatal:


"Você não é especial, tem um monte de gente LGBT aqui. Você caiu na sua própria cilada, você não pegou a visão. Não adianta agenciar pauta aqui dentro, tem outras pessoas, igual você. Fica agenciando pauta, pautas sérias"... “Você está agenciando uma pauta coletiva em prol de um B.O. que é seu, individual, um corre individual, você tá agenciando uma luta histórica, coletiva, em prol de uma demanda egóica, da sua demanda egóica. Falo mesmo!"

O discurso sufocante, repetitivo e nada empático de Lumena nesse contexto é uma cartilha decorada dos identitários lacradores. Na verdade, essa pretensa desconstrução refere-se a um reforço do já velho identitarismo liberal que tomou conta da internet por parte de influencers que difundem discursos segregacionistas, ainda que de fundo as pautas sejam nobres. Lumena não disse nada novo, só repetiu o que já é repetido incessantemente em vídeos no YouTube. A grande diferença é que os influencers ecoam suas verdades de modo desterritorializado em monólogos em suas redes sociais. Lumena esbravejou as mesmas palavras, agora, contextualizada numa realidade particular que aterrorizou os espectadores.


Karol Conká realizou algo semelhante ao expressar palavras de preconceito contra nordestinos, mulheres e a comunidade preta, mesmo sendo uma defensora radical de suas pautas aqui fora. O identitarismo, quando serve à esquerda, possui pretensão lacradora, mas é profundamente vazio. Vazio porque é descolado da realidade, porque é discursivo e pouco vivido, porque é retórico e pouco experimentado. Quando confrontado com alguma situação real, suas pautas se revelam fragilizadas, pois são eminentemente teóricos e moldados a um politicamente correto que seus defensores não conseguem sustentar por muito tempo.


O identitarismo interessa à esquerda e à direita


À direita e à esquerda, o identitarismo satisfaz suas ambições a depender do desejo e obstinação final. O identitarismo é, aparentemente, um local seguro, pois trata diretamente da afirmação e reforço das identidades individuais, ainda que pautados e discutidos coletivamente. Notadamente, esse local aparentemente seguro representa uma ameaça às pautas das minorias, pois fratura a unidade em micropartículas discursivas onde cada micropartícula luta obstinadamente por seu lugar ao sol. Essa luta é, por consequência, inglória, pois, apesar dos avanços institucionais possíveis, pouco ou quase nada é rebatido e refletido na sociedade real. Sem uma revolução na consciência coletiva e na psicologia das massas, é provável que os discursos enfadonhos sufoquem tais conquistas já institucionalizadas e providenciem um retrocesso significativamente grave à humanidade e às comunidades mais vulneráveis.


É importante ressaltar duas constatações significativas sobre qual time joga o identitarismo. O identitarismo é essencialmente liberal. Serve à extrema direita, à direita e à esquerda liberal. O mais grave de todo esse panorama é que o identitarismo à direita é congruente com o mainstream e com a visão hegemônica, fazendo com que o equilíbrio de forças penda para o masculinismo e seu amplo leque ideológico, que vai de um machismo tolerante a seitas e grupos radicais como o QAnon. O identitarismo à esquerda é, por outro lado, desvinculado das realidades sociais e encontra na dor e sofrimento das minorias o seu alimento ideológico. Como consequência, o apego a pautas identitárias por parte dessa esquerda visa reformular a compreensão de revolução a partir de modelos teóricos que não são congruentes com as realidades e pouco empáticas e pedagógicas com o amplo espectro de entendimento sobre seus temas e pautas. Ou a esquerda retrocede e realinha suas convicções a partir do chão das ruas das cidades brasileiras, ou seguirá fragmentada, pouco ouvida, lacradora e, acima de tudo, teórica. A esquerda já foi mais inteligente!

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