• Daniel Carvalho

Antes da nova direita precisamos furar a nossa bolha

Atualizado: Jul 24

Daniel Carvalho

Bacharel em História UFRJ


Partilhamos de certa maneira de experiências que nos parecem comuns. Elas se encontram em nosso cotidiano e se apresentam de forma tão simples que é quase como algo dado e pronto.


Consegue pensar em algo? Respirar, por exemplo. O ato de inspirar o ar, sentir o peito se encher e depois expelir o gás carbônico. Algo trivial que se espera de qualquer pessoa que esteja viva, não é mesmo? No entanto, nem todos sabem respirar, não da maneira correta, e especialmente neste ano, muitos tiveram a experiência de um respirar mais pesado. O ponto é que, temos a percepção errônea de estarmos compartilhando das mesmas vivências.


Uma geração recente no país, cresceu sobre uma espécie de mantra: “Não se discute: religião, futebol e política.” Durante muito tempo não se conhecia nem o corpo ministerial que nos governava, mas isso foi mudando. Bem verdade que a custo de certos prejuízos, e aqui me refiro a questões mais superficiais, como por exemplo, a liturgia e a comunicação.


Verifique um discurso de qualquer parlamentar dos anos 70 e compare com os atuais, ou ainda, observe como os debates políticos chegam a população por meio de “memes” e vídeos engraçados, enquanto em outro tempo a voz do Brasil eram seu veículo de comunicação. Ou seja, partimos do pressuposto que temos o mesmo entendimento do problema que nos afeta como sociedade, mas na verdade estamos vivendo uma crise de diálogo e de percepção. Neste processo vitimamos a linguagem política.


Apesar de concordar parcialmente com a necessidade de uma nova direita (mais por conta da necessidade da existência de uma pluralidade de ideias) precisamos inserir a linguagem política na sociedade e reverter o processo de alienação que foi desenvolvido, pois a política continua a existir e nos afetar. Pode ser uma ideia utópica, mas antes de expor sua análise política é necessário convidar o interlocutor a observar a realidade em que vivemos e enxergar as possiblidades que estão além de: “não adianta votar”, “é sempre assim, eles roubam mesmo”, “eles só pensam neles” e etc.


Com isso, caro leitor, antes de lhe dizer com entusiasmo o quanto acredito numa opção de desenvolvimentismo no país, me permita dizer que estamos presos numa bolha, pois para convencê-lo de que precisamos de uma ruptura na visão econômica, é necessário persuadi-lo que fazemos parte da solução, que só o fato de conversarmos sobre política significa que estamos dando marcha a uma renovação, e isto passa pela forma como se faz.


Hoje há discussões acaloradas entre pessoas do mesmo espectro político, o que até seria normal, mas se torna nocivo por não avançar. Quantos mais “Ciro foi pra Paris” ou “E o Lula? E o PT?” temos que ler e ouvir para evoluirmos nas propostas? Ou quanto mais “A culpa é desse povo que não sabe votar” temos que presenciar até começar a conversar com quem está ao lado sobre como a ignorância do debate político nos afeta? Conseguem imaginar o quanto de pessoas só vão entender o impacto da reforma da previdência no momento de pedir a aposentadoria?


Não dá para esperar ano eleitoral ou os debates (este último então, é apenas show de performances). É necessário colocar a política no dia a dia. Saber que o preço dos alimentos aumentou por que o governo tomou a decisão de reduzir estoque regulador (Vasconcelos, 2020).


“Você concorda com isso?” pergunta rara mas necessária, dando espaço para o contraditório, mas mantendo o parâmetro – onde queremos chegar como sociedade e a custo de que?


Mas de quem seria a obrigação disso? Dos partidos? Dos sindicatos? Das Associações de moradores? Por que não começar de nós mesmos? Só precisamos alcançar nosso vizinho e furar a nossa bolha.


Em 2018 tivemos o maior número de abstenções, e votos brancos e nulos desde 1989 (Povo, 2018), e mesmo dentre aqueles que escolheram um candidato, podemos intuir que nem todos foram motivados com o intuito de representatividade.


Por pior que seja a atuação do governo Bolsonaro, o mesmo se mantém com um número estável de base de apoio nas pesquisas. Então, qual a melhor estratégia? Debater com convictos ou conversar com os votos inválidos?


Sem rodeios, acredito que direcionar energia aos votos inválidos seja mais producente, principalmente antes de ano eleitoral, pois estes não são de direita, de esquerda, de centro e etc., eles estão à parte do debate.

Referências

Povo, G. d. (Outubro de 2018). Fonte: https://especiais.gazetadopovo.com.br/eleicoes/2018/graficos/brancos-nulos-e-abstencoes-desde-1989/

Vasconcelos, H. (09 de 2020). UOL - Economia. Fonte: https://economia.uol.com.br/noticias/redacao/2020/09/19/estoques-publicos-conab-alimentos-reducao.htm


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