• Solange Oliveira

Apesar de muitos, eles não são todos


Por Solange Oliveira

Graduada em Letras, Especialista em Psicopedagogia

Professora no Ensino Fundamental 1


Eram eles um em meio a um milhão. Estavam solitários e indefesos. E assim, sem ter com quem juntar seus ideais, caminhavam um caminho solitário, reservados no ódio. Utilizavam uma capa protetora silenciosa e tão frágil que às vezes escapava e surpreendiam aos que estavam próximos. Era como se a ideia exposta fosse apenas uma brincadeira sem sentido, mas que não faria parte de um ser humanizado. Como bem disse Freud, “Brincando pode-se dizer tudo, até mesmo a verdade”. Isso já era um sinal que todos negavam reconhecer.


Eram sérios, ineptos, de pouco falar sobre pensares e ideais, sussurros suaves que apenas concordavam, talvez não honestamente, mas continham um brilho diferente no olhar. Disfarce reto, corpo ereto para não se dobrar e demonstrar suas claudicações. Permaneceram assim até as redes encontrarem. Juntando um mais um se tornaram quatro, e depois vieram oito, dezesseis, trinta e dois… Mil, e de mil em mil cinquenta e sete milhões, um pouco menos talvez.


Eram pequenos grupos que se juntaram aos demais e cada vez mais pessoas resolveram se juntar. Simples, humildes e ignorantes que não se viam representados dentro de uma sociedade. Pessoas que começaram a ter voz, vez e lugar, mesmo sem saber o que realmente estavam buscando e nem ao menos entender pelo que estavam lutando. Com propósito parecido, ideais liberais? Talvez? Uma coisa era certa, não se sentiam mais cretinos, julgados ou banidos pelo que tinham dentro de si.


Tudo pronto, agora era achar um líder que lhes desse proteção, salvação e em troca devolveriam a devoção. Não o selecionaram por um currículo, abriram espaços para que esse futuro líder fosse se aproximando e resistindo em meio aos desejos fúteis, seus preconceitos inúteis e a uma tremenda apatia. Desvincularam-se de vários eleitos a Rei, destituíram vários tronos, e endeusaram vários deles também. Então, já cansados e decepcionados, elegeram um Rei e decretaram o seu maior inimigo, que no início era único e vermelho.


Devotavam em si para um lado ódio e para outro tanto amor. Como pode haver amor e ódio no mesmo espaço? E que pergunta mais difícil de responder. Esses dois não deveriam caber na mesma prateleira, quanto mais no mesmo pote. À medida que gritavam com tanto ódio, devotavam cada vez mais e mais amor pelo capitão que aos poucos não era mais um simples Rei, se tornara um “Rei deus”, o enviado para a salvação das almas corrompidas. Até que afinal tornou-se o próprio “deus”.


A realidade já não tinha mais tanta importância, pois não compactuava com seus ideais. Sem perceber a ideologia, a qual era tão criticada se tornou a marca de todos eles e mudou de lugar. Da devoção fizeram sua religião, como se entre eles ninguém mais fosse capaz de raciocinar, apenas adorar, estavam a executar ordens sem questionar, porque agora ele era o próprio “deus”. Inquestionável em seus pensamentos e palavras, atos e omissões.


Hoje com seus olhos veem a tragédia em que estamos todos mergulhados, seus ouvidos ouvem o pavor de quem morre e sofre gritando por socorro, com a pele tocam a destruição. E sentindo o gosto da desilusão e o cheiro da corrupção, mesmo assim só obedecem ao que o líder lhes ditar à mente, este sim lhes martela muita convicção de um sonho surreal, distante de acontecer, porque o “deus” deles lhes dará o que milenaristas esperam há séculos.


Para eles tudo é exageradamente perfeito, o que lhes apontam nem parece real, apesar de saberem sim que não está nada normal. Reconhecem as aflições reais como problemas do passado que só apareceram agora e que não poderiam serem resolvidos de um instante a outro. Que “deus” é esse meu Deus? O amor e o ódio são parceiros, combustível perfeito para a aceitação dessa realidade. Para todo erro uma desculpa jogada em alguma “Eva”.


E assim funciona o ódio contra tudo o que é desfavorável às suas crenças, independente da veracidade da crítica ou não. Amor a tudo, por mais absurdo e cruel que seja, aos decretos de seu salvador, mesmo que isso lhes prejudique. Amor e devoção, é “deus” permitindo o mal para que a situação melhore, um dia talvez. Pouco importa que outros morram, desde que eles, e somente eles, tinham devido respaldo e validade para suas maldades.


Quando a coisa começou a mudar e os do outro lado resolveu acordar, se queixar e apontar de forma mais forte que tudo aquilo estava errado, começaram a se reunir em praças, quartéis e até a frente da casa de “Evas e Serpentes”, destilando ódio a quem vossa deidade apontasse o dedo, sem se dar conta que este mesmo “deus” também tem seus enguiços. E para isso pouco importava analisar a imagem desse ser fenomenal que os representava por completo, pois da mesma forma que a paixão sem medidas cega, o ódio também cega a alma e provoca falhas de raciocínio. Tornando a todos incapazes de ver e analisar atos e discursos contraditórios. E o “Eu não tenho bandido de estimação” se tornou “O nosso malvado favorito”, como na animação, um bando servindo ao mal de maneira muito natural.


Gritam seu amor devocional de suas janelas a pôr em xeque a conduta daqueles que apenas tentam colaborar com a verdade dos fatos. Colocam suas vidas em riscos, sem a menor chance de se questionar, se era o mesmo o certo a fazer. Pois o salvador estaria ali para validar todo o egoísmo, intolerância e incompreensão, falta de empatia e caridade. O submundo se edifica e as pessoas se revelam. Desatentos aos fatos concretos e relatos honestos.


“Ah!!! Assim não dá mais!”


“Olha a vida como está?” - alertam-vos.


Crianças nas ruas, marginalizados, pretos criminalizados, mulheres espancadas e mortas, pessoas desnutridas, sem comida, sem dinheiro, sem emprego, mortes e mais mortes, a correria contra o tempo de vida e sem vacina. Ah! As mortes. O egoísmo era cada vez mais forte na alma de quem o adora. Agora é um despir-se por completo da tenuidade, ou melhor, da fragilidade daquela capa que os mantinham sob domínio, que nos tempos antigos conseguiam os conter. Agora a verdade vem à tona com uma verdade dolorida do “Eu não estou nem aí pra vocês”, o egocentrismo infantil, numa versão adulta, a assolar a sociedade.


A dor do outro não os atinge em nenhum nível. Na praça uma pessoa esfaqueada, na favela uma criança baleada, no hospital mais de trezentas mil mortes anunciadas, mas eles não estão nem aí, pois só têm tempo em adorar e ouvir apenas o que sua divindade diz. Suas desculpas são assim: deve ter merecido, menos um bandido no mundo e outra vez não foi nenhum dos meus, se fosse é que já chegara sua hora mesmo. Sentem-se protegidos, seres ungidos e nutridos, mas, no fundo, sabem que um dia tudo isso terá o seu fim.


O destino de cada um pertence ao “deus” que elegeram para si. E assim se reúnem hoje pela morte de outros. Lutam pelo benefício das parcelas de seus carros luxuosos, colocam-se em comparação com o pobre miserável, mas não são tão miseráveis assim. Buscam sustento no lombo de quem nada mais tem a lhes dar a não ser o sangue. Há ainda aqueles que mesmo não tendo nada, e sofrendo as mazelas da vida lhes dão todo suporte, em busca de algum dia chegar a esse patamar e glorificar-se. Como nem tudo é perfeito, enquanto a educação não for libertadora, o sonho de alguns oprimidos é chegar a opressor, já dizia aquele do qual, para eles, nem o nome pode ser pronunciado.


Falam de fome e miséria, como se em algum dia de suas vidas, tivessem olhado para o lado e estendido as mãos para o pobre necessitado, jogado nos bancos das praças, coretos ou pontes, sem estender a eles o olhar condenador. Mas não, vivem a ilusão de que um bem material classifica sua posição na pirâmide que esmaga e deixa à própria sorte o excluído.


Não lutam por nada que vale a pena, esperam que tudo lhes venha às mãos, brigam pelo bem-estar social de se sentirem no topo da pirâmide social. Em buscas de anéis, mesmo que não tenham dedos para sustentá-los, escravizam corpos que os sustentarão. Aproveitam-se da dor de quem luta pelo pão e sobrevive cada dia como se fosse o único e o último, e os desprezam e julgam como se pobreza e miséria fossem uma opção.


Será que o meu Deus vai ouvir essa minha oração: “Só por hoje vou viver e não morrer”. “Deus tenha piedade desses meus irmãos que hoje lutam por um pedaço de chão, um teto para suas cabeças e um pouco de água e pão para sobreviver a noite fria e chuvosa que se aproxima”.


Viver é assim, é assim, é assim para essa gente sem coração que segue um “deus” que vai contra a população, que ignora os problemas sociais e menospreza quem realmente precisa de salvação.


Louvam como malucos ou um bando de zumbis, a quem lhes tira o chão, mas ao mesmo tempo em troca valida-lhes o ódio e materializa os inimigos que se encontram em sua imaginação. Gritam palavras de ordem sem sentido, pedindo por coisas que nunca viveram, ou se viveram esqueceram. Só que neste mundo, eles ainda não aprenderam, um dia se está em cima e no outro se está embaixo da terra. Até mesmo quem nunca erra.


Um dia que eles consigam enxergar, aproveitem e aterrem a ignorância, a ganância, a ingratidão, a inveja e a vontade de se tornar superior a quem já está no chão. Aterrem também todo o luxo esdrúxulo, porque no final serão ossos também. Enquanto gritam “MITO! MITO! MITO!”, lá de fora se escutam os gritos dos verdadeiros famintos. Nãos os que imploram por posses materiais, mas os que esperam pela justiça, igualdade e liberdade para todos. Aqueles que ainda lutam para que todos tenham direito à vida plena.


E ainda eles, os seguidores do “deus” eleito, apesar de serem muitos, nunca serão todos!

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