• Frederico Krepe

Compreender 2018 e estar preparado para 2021

Atualizado: Jul 24

Frederico Krepe

Bacharel em Filosofia e mestrando do PPGFIL pela UFJF


O ano de 2021 está se iniciando e a renovação do ciclo pode ser elemento de esperança para milhões de pessoas ao redor do mundo, exceto para os brasileiros. Estamos ainda lidando com o descaso do governo em encontrar soluções para a pandemia enquanto outros países já estão começando suas campanhas de vacinação contra a Covid-19. Chegaremos ao número de 200 mil mortos sem muita dificuldade. Nesse cenário, a principal tarefa para os democratas brasileiros é responsabilizar o Presidente e seu governo pelo descaso com a vida dos brasileiros e pelos diversos crimes cometidos em seu mandato. A materialização disso passa pela aceitação de um processo de impeachment, entretanto, para que isso ocorra, o clima político do Brasil precisa se mudar e é justamente nesse processo que encontramos o principal obstáculo para a construção de maioria popular a favor da saída de Bolsonaro. Que obstáculo seria esse? Compreender 2018 corretamente.


É verdade que o cenário político brasileiro se encontra em anormalidade desde 2013. Essa anormalidade seguiu seu caminho até o seu ápice, que foi a destruição do sistema político brasileiro e a eleição de Bolsonaro como Presidente. Não podemos subestimar esse momento de nossa história. O ano de 2018 foi marcado pela eleição do governante mais despreparado que tivemos, e é justamente por conta desse evento que a oposição progressista, de esquerda ou centro-esquerda, precisa compreender corretamente esse episódio para reassumir o controle do processo político no país e caminhar para um processo de mobilização pela sua saída. A falta de uma compreensão adequada sobre a vitória de Bolsonaro está enfraquecendo a oposição e prejudicando a superação da crise política, social e sanitária que estamos passando.


As explicações mais propagadas pelos progressistas sobre a eleição de Bolsonaro passam sempre pela rede criminosa de fake news e pelo episódio da facada. É evidente que esses dois elementos cumpriram um papel importante. O primeiro serviu para fidelizar e radicalizar uma bolha que se dissociava cada vez mais da realidade e o segundo serviu para humanizar Bolsonaro, o que facilitou o convencimento de uma parcela do eleitorado menos radicalizada. O que é falho nessa leitura é que esses dois elementos sozinhos não foram responsáveis pela sua eleição. Erros cometidos pelos progressistas que passaram pelo governo central por 13 anos, em especial o PT, que tinha a Presidência, também contribuíram para o problema e continuam contribuindo para que a oposição tenha uma força menor do que poderia ter em um momento tão importante.


Uma verdade difícil de engolir para muitos progressistas é que a esquerda que se institucionalizou no poder cometeu uma série de equívocos que ajudaram a criar um abismo entre suas posições e a consciência média da população brasileira. Três elementos foram muito importantes para isso: o aumento da violência, a corrupção e a crise econômica. Cada um desses fatores será detalhado a seguir.

O aumento da percepção da violência nas cidades grandes e médias fez com que a demanda por respostas mais enérgicas do poder público ficassem mais evidentes. A ausência de reformas em direção a uma redução mais consistente das desigualdades, a imutabilidade da estrutura arcaica das polícias militares e a espetacularização midiática da violência, criaram um terreno fértil para que o bolsonarismo, com seu viés militarista, se oferecesse como resposta aos anseios populares. O Poder Público falhou na segurança e isso ficou marcado como uma falha da esquerda, que por sua vez, ficou marcada como “frouxa” em relação ao combate à violência, o que acabou se voltando, inclusive, contra os direitos humanos, que passaram a ser vistos como coisa de “esquerdista defensor de bandido” que não quer resolver o problema. A falta de respostas pela esquerda e a busca por soluções, fizeram com que esse fosse um dos principais elementos do discurso bolsonarista.


A corrupção foi outro elemento que ajudou a minar o campo progressista, especialmente o PT, diante da opinião pública. É evidente que a mídia, aliada à parcialidade da Lava Jato, criou um espetáculo feito sob medida para manchar a imagem do partido, mas isso não apaga o fato de que a corrupção existiu nos governos do Partido dos Trabalhadores.


Por mais que a parcialidade do judiciário seja evidente, não podemos negar a corrupção. Isso não pega bem com a população, especialmente depois da crise econômica de 2015. É bom lembrar que o PT chega ao governo com um discurso ético muito forte, angariando para si uma parcela enorme do voto contra a corrupção. O desgaste se deu porque o partido resolveu adotar um pacto com a elite fisiológica da política brasileira, fortalecendo figuras duvidosas da política que futuramente seriam estrelas de grandes escândalos de corrupção como Eduardo Cunha, Roberto Jefferson, entre outros. Essa percepção fica evidente na mente da população, que associa essas práticas à falta de renda e emprego e identificam PT e PMDB como “o sistema”, aquele mesmo contra qual Bolsonaro estaria lutando em 2018. Isso sedimentou o discurso de Bolsonaro como o candidato da mudança.


Por fim, como o elemento central, temos a crise econômica. Quando assume o governo em 2003, a esquerda brasileira teve a oportunidade de mudar a chave da política econômica até então aplicada e não o fez. Ao invés de encaminharem uma série de reformas em direção a um maior desenvolvimento econômico e justiça social, optou por manter as bases (neoliberais) da política econômica do governo anterior com políticas compensatórias de maior intensidade em um pacto entre governo e o sistema financeiro, que não queria ver seus interesses sob risco. A fórmula deu certo em um primeiro momento, onde o Brasil se viu ajudado por um cenário internacional de alta demanda pelos produtos primários que exportamos. Isso possibilitou uma queda geral nos preços, uma estabilidade econômica acompanhada de crescimento e investimentos importantes que reduziram o desemprego e melhoraram a vida da população. O problema é que essa demanda caiu e a conta pela falta de reformas chegou. Nesse cenário, Lula entrega o Brasil crescendo a níveis chineses em 2010, mas Dilma se reelege em um cenário de crescimento quase zero e sinais da crise econômica pelo caminho. A alta nos empregos se deu praticamente toda no setor de serviços, com salários que não ultrapassavam dois salários mínimos. Ao mesmo tempo, o Brasil seguia seu processo de desindustrialização acelerada, o que destruía empregos com maiores salários e qualificação. A solução adotada por Dilma para tentar mudar esse cenário foi uma política de desonerações que só serviu para os ricos ficarem mais ricos.


Para piorar, ao tentar consertar estes erros, optou por aplicar o programa econômico derrotado em 2014 com um ajuste fiscal duríssimo, tocado por Joaquim Levy, traindo todos os compromissos de campanha até então. É importante destacar que a corrupção e a violência eram percebidas pela população, que relevou isso até onde era possível por conta dos ganhos econômicos. A partir do momento que esses ganhos foram perdidos, não havia mais razão para sustentar o Partido dos Trabalhadores no poder. O resultado disso foi a perda de boa parte da base popular conseguida pelo lulismo em seus tempos áureos. Parte dessa base popular perdida optou por Bolsonaro em 2018.


A soma dos três elementos destacados acima, serviu para destruir a conexão entre o povo e os progressistas, que se viram cada vez mais isolados em sua bolha. Os elementos destacados aqui não visam cobrar uma autoflagelação pública dos progressistas — em especial do PT — que foram ao poder. A ideia aqui é tentar apresentar uma leitura complementar sobre o que levou à vitória de Bolsonaro, apontando que há um abismo entre a consciência popular e o campo progressista brasileiro, e que não conseguiremos reverter esse jogo sem reconstruirmos as pontes entre a esquerda e o povo. Olhar para a rede de mentiras é olhar só para um lado da equação. As fake news só conseguiram adesão popular porque a esquerda que governou se queimou com a população e parte disso se deu aos seus próprios erros. Sem perceber isso, os progressistas vão seguir sem compreender o que aconteceu. Se isentar da responsabilidade não é um caminho quando temos a tarefa histórica de retirar Bolsonaro da Presidência e responsabilizá-lo por seus crimes.


O ano de 2021 promete um aprofundamento da crise. Isso vai exigir muita energia nas ruas e muita pressão popular. Quem deve tocar esse processo são os progressistas e estes só conseguirão fazer isso se compreenderem adequadamente onde erraram com o povo e como podem reconstruir sua capacidade de mobilização a partir disso. Pior do que a ilusão acerca da força do nosso adversário é a ilusão sobre a nossa própria força hoje. Se os progressistas não entenderem que precisam se reconectar com o povo antes de alçar voos maiores, podem se frustrar com a baixa capacidade de adesão popular para enfrentar o bolsonarismo que está destruindo nosso país.


Os textos da coluna de Opinião não representam a visão e posição do WeColetivo, que se dá somente por seus editoriais. A responsabilidade pelos textos desta coluna é inteira de seus autores.

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