• Thiago Anastácio

CONVENHAMOS, DEU ERRADO!


Por Thiago Anastácio

Advogado Criminalista


É uma obrigação de todos os democratas ao redor do mundo, respeitar as instituições e obrigação maior ainda, criticá-las com conhecimento de causa, sabendo discorrer sobre a crítica, o motivo da crítica e apontar caminhos para a solução dos problemas que apontam.


Sem isso a democracia fica estanque, inerte, sem evoluir. E como vocês já perceberam ante tanta idiotice testemunhada, a cidadania sem senso crítico é mais vazia do que garrafa de água no deserto das democracias.


Mas eu entendo os revoltados, juro que os entendo. Não é possível mais vermos a cara de pau dos nossos “líderes” e “representantes”, sua desqualificação técnica, intelectual e ética. O que se ouviu hoje de um Senador do Rio Grande do Sul na CPI do Senado seria de fecharmos os livros e esperarmos o meteoro acabar com o nosso sofrimento. Mas não faremos isso, não é mesmo?


Jamais se esqueçam: somos um dos países mais ricos do mundo naquilo que Pero Vaz, nosso primeiro escriba, descreveu... Poucos têm a terra que temos, com tanta água (para energia ou mesmo subsistência); tanto lugar para plantar com terra boa; tantas jazidas de metais de todos os tipos; e grandes bolsões de petróleo que nos fazem autossuficientes.


Fomos postos no paraíso, mas criamos um inferno sobre ele.


Tivemos que investir muito em subdesenvolvimento para chegarmos aonde chegamos.


Disse Nelson Rodrigues, talvez o maior gênio brasileiro (por ter visto quem de fato é o brasileiro como indivíduo): SUBDESENVOLVIMENTO NÃO SE IMPROVISA, É UMA OBRA DE SÉCULOS.


Somos subdesenvolvidos em todos os aspectos. Nossos transportes públicos e estratégicos beiram a piada de mau gosto, sem contar o câncer que é a corrupção nos entes sobre a contratação de empresas de transporte. Malha ferroviária? Trocamos essa iniciativa mundial em nome das companhias automobilísticas e pela confecção de estradas bilionárias para os carros - serelepes e propagandistas do status social - terem vão livre para suas viagens de Instagram.


Nossa geração de energia caminha a passos d’água, lenta em inovação, sendo que temos o que há de melhor em sol e ventos no mundo para uma mudança pragmática do setor.


Temos uma região inteira do Brasil ainda em seca e o exemplo da agricultura israelense (para pegar uma moderna, já que poderíamos ir ao Egito de Ramsés, muito mais evoluído que rincões nordestinos brasileiros nos anos 90) só nos faz corar de vergonha. O nome disso: bom, são sobrenomes que até hoje estão na política e hoje vivem bem, donos, por herança, de subsidiárias de rádios e TV. Procurem saber meus amigos! Procurem saber!


A pandemia nos trouxe um diagnóstico que apenas os desonestos não fazem em público: nossa indústria não é capaz de produzir mais nada depois de décadas de descaso com ela. Até máscaras e agulhas tivemos que importar da China. E não entremos no assunto IFA, os insumos farmacêuticos ativos... Nenhuma empresa brasileira hoje é capaz de produzir tecnologia de ponta na área da saúde, da mecânica (tirando a Embraer) ou da tecnologia em si mesma.


Chamei de tecnologia de ponta por gentilismo. Não temos capacidade de produzir tecnologia média. Essa é a triste realidade. As exceções, meus amigos, existem, mas antes de pesquisar no google, tente puxar na memória algum nome. Difícil, não é mesmo?


Vejam por outro lado, nossas ciências humanas. Ligamos as televisões e vemos a torto e à direita jovens de classe média alta sendo nomeados “juristas” nos programas de TV sem que ninguém se pergunte: QUAL TEORIA SOBRE O DIREITO FOI PENSADA NO BRASIL E ALCANÇOU O MUNDO? E mais, o que significa ser um JURISTA? (apenas para explicar, jurista é o erudito sobre o direito e que sua opinião sobre um tema, faz com que lhe peçam um parecer acerca de controvérsias teóricas).


Rui Barbosa foi um jurista. Miguel Reale foi um jurista. Nelson Hungria foi um jurista. João Maguabeira foi um jurista. Pedro Lessa foi um jurista. Moreira Alves foi um jurista.


Thiago Anastácio não é um jurista, é um advogado de defesa.


Temos uma Suprema Corte em que os Ministros se ofendem em público e se estapeiam em público para indicar seus apadrinhados. Vocês acham isso razoável? Achar ou não razoável é menos importante do que ver o silêncio da comunidade jurídica sobre esses FATOS.


E quando o presidente da República diz que quer um ministro de Suprema Corte que com ele tome cerveja, na desfaçatez de tornar pública a orgia ética dos anteriores, que tomavam a cerveja em silêncio. Quem estará mais errado, o pseudo ébrio discreto ou o pseudo ébrio público?


Ou será que “nós é que bebemos e eles que ficam tontos”, na deliciosa expressão de Tom, Vinícius, Chico e Toquinho?


Deu errado, deu errado.


Liguem suas TVs e apontem uma só alma, na CPI que se inicia hoje, que esteja ali buscando descortinar fatos e não aparecer para as câmeras.


E sem contar a insensatez de quem protegemos constitucionalmente com a presunção de inocência, mas que acusados ou investigados por diversos crimes continuam ocupando cargos de alto relevo. Não falo aqui que se deve violar o sacro direito, mas que faltam bom senso e senso de vergonha pública aos que integram os Poderes da República.


Ora, por que vemos ao redor do mundo políticos sendo acusados e se desligando dos cargos automaticamente para focarem em suas defesas? Por que isso não acontece por aqui?


Esse texto poderia ter mais de 40 páginas superficiais sobre os nossos problemas, mas duas ou três estão de bom tamanho.


Uma pena que tenhamos chegado até aqui. Sinceramente, é uma pena.


Podemos – e passaremos por aqui – sobre diversos temas: a corrupção velada de Brasília com os filhos de ministros advogando a preço de ouro e sempre levantando suspeitas; a corrupção policial que deve gerar, por ano, prejuízos maiores do que toda a corrupção das empreiteiras e empresas públicas, desvelados pela Lava Jato; as vistas grossas do Poder Judiciário estadual e dos Ministérios Públicos estaduais sobre essa corrupção; o absurdo mundo do sistema de justiça com salários que ultrapassam 100 mil reais mensais e muitos outros assuntos.


Mas não quero lhes deixar mais tristes. Mas desculpem-me, cedo ou tarde o farei.


Posso lhes dar uma dica, justo agora que acabam de ler essas linhas? Se você pensou, ao ler esse texto, sobre os mais diversos culpados dessa nossa situação, mil perdões... Mas você está entre eles. Todos nós estamos.


O que faremos a partir de agora?

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