• Atena Beauvoir Roveda

Corpo e Alma dos Partidos Políticos

Atualizado: Abr 9


Atena Beauvoir Roveda

Escritora, filósofa, poetisa, professora e educadora social.

Em entrevista para o Diário de Notícias, no ano de 1948, meu conterrâneo Alberto Pasqualini conceituou que “um partido político é, assim, a conjunção de dois elementos: da ideologia, que é a alma, e da organização, que é o corpo ou seu instrumento de ação”. Portanto, são dois extremos de estrutura partidária que necessitam se encontrar no meio da balança política, entre a alma e o corpo e conjugar a formação da ação política visando o povo e sua vontade que acaba refletindo nas urnas.


Mas na experiência de convívio com as diversas estruturas partidárias que estão disponíveis na sociedade para quem quiser se filiar, percebemos o quão pouca ideologia é concentrada nos diversos espaços de militância. Ideologia, para não explicar superficialmente, é um conjunto de ideias que unidas formam o “logos” que é a tese ou as teses que seriam nada mais do que os princípios compreendidos pelos militantes dos partidos políticos. E é importante os militantes de um partido político carregarem suas teses partidárias? De fato que sim, com o risco de acabarem enveredando as teses para os campos de outros partidos políticos que não o seu. Essas teses não são as estratégias de posicionamento frente aos desafios sociais e econômicos a que passa uma nação, mas os princípios fundamentais que fincaram as bases de sustentação da ideologia partidária. Partidos tendem a ter suas ideologias explícitas em seus estatutos, programas, manifestos e demais documentos históricos que se envolvem com a origem do partido político.


A importância da ideologia é somente para constituir a militância e as estratégias partidárias? Não! É também para reconhecermos as diferenças de posicionamentos dos diversos partidos políticos brasileiros. De fato, eu pergunto, quantos dos que me leem agora, já se detiveram mais de uma vez nos estatutos dos seus partidos ou dos documentos básicos? Saber onde encontrar a ideologia do seu Partido Político é saber onde encontrar a Alma do Partido Político, é o que nos leva a crer Alberto Pasqualini. Aliás, a alma vem do latim Anima que mais tarde dá origem a palavra “Ânimo”, ou seja, a viva vontade de estar vinculada a um partido político só se consegue através do contato com a alma do partido político: sua ideologia.


Mas e se começarmos pelo corpo, ao invés da alma, o que acontecerá, Atena? Bem, eu estou partindo de conceitos pasqualinianos, portanto começar pelo corpo seria começar pela organização, pela estrutura, pelos seus instrumentos de ação. Não acredito que seja problemático, desde que hajam critérios responsáveis e internos de formação política desses militantes que iniciam pelos movimentos estruturais do Partido Político: eleições, protestos, reuniões de executivas, debates parlamentares e até governos. Eis talvez, uma das possíveis origens do termo “fisiologismo” que é vinculado à estrutura corporal do partido, ou seja, um movimento que nada tem relação com a alma partidária, mas somente o corpo. Um fisiologista é quem se detém tão somente no aparato partidário, na superfície sem se deter nas entranhas do corpo, que segundo as doutrinas teológicas é onde encontramos a alma.


Vide o atual senador Lasier Martins, que se utilizou da estrutura de um determinado partido para se elevar ao nível eleitoral e ganhando o espaço político social, assumiu posição fisiologista, pois que em nada corroborou a alma do partido, sua ideologia própria, inclusive tendo posições contrárias às defendidas partidariamente. É o próprio senador eleito em 1951 pelo mesmo estado gaúcho do fisiologista conhecido pelo incidente das uvas e creio que você vai lembrar do ruído fisiologista causado por uma descarga elétrica, o então Alberto Pasqualini vai afirmar que “onde não existe uma ideologia, onde não há uma doutrina, onde se desconhecem os objetivos programáticos, não pode haver diretrizes seguras, não pode haver convicção partidária, não pode haver ideal comum.” Não é porque a sentença é escrita por um trabalhista que não será aplicada a qualquer partido político. Seja PDT, PT, PSOL, PCdoB, PSDB, MDB e mais uma lista de vinte e poucos partidos, que essa base de pensar o Partido Político não se aplique.


A necessidade do estudo da ideologia partidária não se dá por conta de uma causa partidária, mas sim de uma causa humana. Onde existam grupos humanos, em livre vontade, estarão ali unidas e unidos por um conjunto de ideias. Vimos isso principalmente nas estruturas religiosas, em sua maioria, unindo seus adeptos pela ideologia determinada em algum livro histórico. Se analisarmos, boa parte da formação religiosa é baseada em formação de ideias, ouvidas em sermões, pregações, grupos de estudos e afins. Quer dizer que devemos imitar a metodologia religiosa perante seus adeptos na estrutura partidária? O que a metodologia religiosa faz é seguir preceitos psicopedagógicos de aprendizagem humana. É o conhecimento científico que nos afirma que estudar em grupos promove uma série de benefícios aos indivíduos e aos que estão ao seu entorno. Tendo as devidas proporções, a metodologia religiosa de ensinar suas ideologias se faz em grupos, porque estudar em grupos é a metodologia pedagógica que melhor apresenta desenvolvimento ideológico para quem deseja aprender tal ou qual assunto. Não seria diferente no meio ambiente dos partidos políticos.


Mas quais as barreiras para se promover estudos partidários? Nenhuma barreira impede que um grupo de filiados ou filiadas estudem os conceitos básicos da ideologia de seu partido político. Entretanto, acredito que seja de competência das estruturas partidárias desde os municípios pequenos até as grandes capitais, que se façam esse esforço sério e responsável por existirem cartilhas de formações básicas para a formação das e dos militantes. Quem mais interessado na consciência da militância partidária senão as executivas dos Partidos Políticos?!


Mas se equivoca quem pensa que digo em estudos tão somente virtuais, EADs e assistir palestras no YouTube. Essa experiência cria uma militância apta para sua relação pessoal com o ambiente virtual. Digo aqui dos estudos presenciais, pós pandemia, onde devemos estar ao lado das e dos militantes companheiras e companheiros que acreditamos compartilharmos os ideais partidários, a tal Alma que faz com que sintamos dentro de nós que naquela roda de homens e mulheres livres, em suas mais variadas expressões de existências, há o afeto político não só de votarmos nos quadros partidários, de protestarmos pelas ruas da cidade, de grudarem cartaz pelos muros ou pacientemente escutarmos análises divergentes dentro do próprio grupo de estudo partidário, mas sabemos que ali se inicia o poder do povo organizado.


E os mortos vivos da Política Brasileira? São os que figuram o destino daqueles que sequer acreditam nas ideologias dos partidos que integram, muitas vezes ignoram porque desconhecem e desconhecem porque nunca leram e se leram, jamais refletiram, ou desmerecem o tempo de reflexão necessária para a formação das ideias partidárias dentro de sua própria alma, exatamente porque já é parte de um sistema fisiológico que não carrega alma assim como os zumbis, por somente estarem à cata de pedaços de outros corpos vivos, representados nos partidos políticos como os que buscam cargos, influências, dinheiro ou prestígio, mas que logo demonstram falta de senso coletivo, sensibilidade social e estrelismo por conta de não nunca cederem seu espaço para os que podem somar na luta por um Brasil melhor para todas e todos!

Imagem de capa: A morte de Sócrates, Jacques-Louis David, 1787. Óleo sobre tela, 129-196-cm.

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