• Christian Velloso Kuhn

Economistas do Caos: Guedes e sua Equipe Econômica do Governo Bolsonaro


Christian Velloso Kuhn

Economista e professor do Instituto PROFECOM


Nos últimos cinco anos, diversos livros foram publicados sobre a ameaça à democracia[i] e suas variações, como a ascensão do populismo de extrema-direita e até mesmo o flerte com o fascismo por certas lideranças nacionais. Todavia, a grande maioria se concentra em relatar as mudanças provocadas no sistema político-eleitoral, bem como no comportamento de candidatos, políticos eleitos e eleitores. Dentre essa vasta literatura, cabe ressaltar o livro “Os Engenheiros do Caos”, de Giuliano Da Empoli (2019)[ii], que demonstra desde quando e como o sistema cambiou, desvendando os bastidores daqueles que dão suporte ao aparecimento e eleição de candidatos outsiders com posicionamento autoritário e postura execrável, incompatível com a liturgia dos cargos que ocupa(ra)m, como Donald Trump (EUA) e, obviamente, Jair Bolsonaro (Brasil).


Em seu famoso livro, Empoli explica o uso das ferramentas da informática (Big Data e Algoritmos) e da internet (Redes Sociais) para promover fake news e teorias da conspiração por meio desses candidatos e seus apoiadores e, como o próprio subtítulo do livro sugere, acabam “sendo utilizados para disseminar ódio, medo e influenciar eleições”. E nos casos bem-sucedidos, seguem no governo empregando esses instrumentos para mesma finalidade.


Nesse caso, “a lógica do engajamento nas redes se sobrepôs à do engajamento político tradicional. Nas redes, o motor do engajamento é o susto, o medo, o escândalo e a superexcitação permanentes, não importando se o conteúdo que circula é verdadeiro ou falso”[iii]. Enquanto na política, o engajamento exige a construção de uma militância e a formação de uma coesão em torno de um conteúdo programático, algo que requer tempo, essa lógica do engajamento nas redes exige respostas satisfatórias e imediatas como dos aplicativos. O grande problema é que foram esses Engenheiros do Caos que identificaram inicialmente essa transformação e pioneiramente, promoveram a atual extrema direita populista. Assim, estes “são personagens que importaram para a política a lógica das grandes plataformas de internet”, usando “todos os conteúdos possíveis para conseguir o engajamento de seu próprio público”[iv]. Como bem explica Empoli:



(...) esses engenheiros analisam em detalhe as opiniões e preferências de seus apoiadores, aos quais eles não têm nenhuma obrigação de oferecer conteúdos coerentes. Nesse mundo do engajamento, a superexcitação é mais importante que todo o resto. Não importa se existem contradições entre o que é dito hoje e o que será dito amanhã ou entre o que é dito a um grupo de apoiadores e a outro grupo de apoiadores. O que importa é gerar o máximo de super excitação possível e, com isso, o máximo de engajamento. Essa é a nova lógica política[v].


Quanto às lideranças conduzidas ao poder pelos Engenheiros do Caos, o autor comenta que:



“O defeitos e vícios dos líderes populistas se transformam, aos olhos dos leitores, em qualidades. Sua inexperiência é a prova de que eles não pertencem ao círculo corrompido das elites. E sua incompetência é vista como garantia de autenticidade. As tensões que eles produzem em nível internacional ilustram sua independência, e as fake news que balizam sua propaganda são a marca de sua liberdade de espírito.
No mundo de Donald Trump, de Boris Johnson e de Jair Bolsonaro, cada novo dia nasce com uma gafe, uma polêmica, a eclosão de um escândalo. Mal se está comentando um evento, e esse já é eclipsado por um outro, numa espiral infinita que catalisa a atenção e satura a cena midiática ” (EMPOLI, 2019, p. 17-18).


Ao encontro do exposto acima por Empoli, compartilhei no meu artigo sobre o Governo Bolsonaro[vi] minha percepção do seu início de gestão. Sobre o presidente e seus ministros asseclas, expus que “Bolsonaro não possuía um único dia como gestor até assumir a presidência do país. Não tem pulso sobre os demais ministros, que agem às vezes soltos demais para também proferir seus discursos repletos de barbaridades sobre temas ora supérfluos, ora fundamentais”[vii]. Também em linha do que o autor expunha sobre a rotina diária de gafes, polêmicas e escândalos, avaliei que:



(...) talvez estejamos realmente assistindo uma aula de esculhambação estratégica capaz de nos mantermos divididos e entretidos com pormenores fugazes, seduzidos e instigados por sua excentricidade intrigante. (...) Cada absurdo polêmico possui o propósito oculto de desviar a nossa atenção para pautas desimportantes, comparativamente às medidas mais impactantes que estão nubladas em nossa míope visão[viii].



Assistir Bolsonaro, um político excêntrico e de baixo (es)calão, inescrupuloso e oportunista, prestando-se a esse papel, não é algo de causar maior surpresa. Todavia, ver o principal economista do governo cumprir a se comportar de forma tão deplorável e indigna seja, talvez, a grande novidade. Não que ministros da equipe econômica de outros governos não tenham cometido gafes[ix], mas geralmente os economistas que ocupam cargos de primeiro escalão tendem a se portar de modo profissional, com linguagem e postura técnica (por vezes, até excessivamente), sem se envolver em politicagens ou inclusive se manifestar de assuntos de natureza política.


Obviamente, pelo decorrer de quase dois anos e meio do Governo Bolsonaro, Guedes foge a essa regra. São inúmeros episódios que perdeu a compostura e não cumpriu o que a liturgia do cargo exige. Como quando declarou em sessão da Câmara, para defender a Reforma da Previdência: “Depois de seis horas, a baixaria começa. É o padrão da Casa: ofensa, ataque”[x]. Ou na polêmica reunião do dia 22 de abril do ano passado, ao se referir ao secular Banco do Brasil, “tem que vender essa porra logo”, bem como outros impropérios[xi]. Mais recentemente, agravou a já estremecida relação com a China, com quem dependemos de insumos para fabricação de vacinas contra o COVID-19, ao dizer que “o chinês inventou o vírus, e a vacina dele é menos efetiva do que a americana”[xii]. Guedes também se mostrou por diversas vezes elitista e aporofóbico: “empregada doméstica indo para a Disneylândia, uma festa danada”, “O pior inimigo do meio ambiente é a pobreza. As pessoas destroem o meio ambiente porque precisam comer”, dentre outras excrescências[xiii]. Tudo isso a serviço da estratégia descrita acima dos “engenheiros do caos” que subsidiam o Governo Bolsonaro, no caso, Steve Bannon, o mesmo que ajudou a conduzir Trump à presidência dos EUA.


Ademais, a falta de credibilidade do ministro (várias vezes aclamado como o “Posto Ipiranga”) devido a sua série de promessas não cumpridas (privatizações, reformas, retomada do crescimento[xiv], etc.) foi bem pontuada em artigo publicado na Folha de São Paulo[xv]. Os autores citam a sina dos três “is”, denominado pela economista Esther Duflo, Prêmio Nobel em 2019, que atrapalham o desenvolvimento: inércia, ideologia e ignorância. Por sua vez, no artigo intitulado “Recessão Extrema de Direita”, publicado na Carta Maior[xvi], ousei acrescentar mais um “i” para definir a gestão de Guedes: “inépcia para conduzir a pasta de Economia para uma retomada econômica”. Já no artigo “Incompetência útil: o paradoxo de Guedes”, da minha coluna no We Coletivo, ratifiquei essa posição da incapacidade do ministro garantir um recuperação em V conforme prometera seguidamente[xvii].


Os resultados da gestão de Guedes e de seus prosélitos assessores já são por demais conhecidos. Como explanei no artigo supracitado, com a queda do PIB em 2020 (-4,4%), em virtude de nem termos recuperado a recessão de 2014-2016, esta variável caiu para o patamar de 4º trimestre de 2010[xviii]. Como se não bastasse, a agenda liberal de Guedes sustentada em privatizações, reformas e austeridade fiscal vem se mostrado insuficiente para conter a onda de aumento de falência de empresas, desemprego, inflação, miséria, pobreza e fome. A redução do valor do auxílio emergencial nesse ano, somada a não prorrogação das medidas de ajuda às empresas e aos Estados e Municípios concedidas em 2020 (e a total desassistência a estas esferas administrativas no combate à pandemia), vai na contramão de recuperar o nível de atividade econômica em 2021. A importância do auxílio emergencial para tal fim já havia sido analisada no meu artigo “Auxílio Keynesiano: A Emergência de uma Recuperação em V”, também aqui no We Coletivo[xix]. Por outro lado, a pasta do Ministério da Economia, responsável pelo planejamento e execução do orçamento da União, também deve explicações do escândalo recentemente chamado de “tratoraço”, com compras superfaturadas de tratores e equipamentos agrícolas para atender emendas de parlamentares aliados do Centrão, perfazendo um total de R$ 3 bilhões que descumpriram as leis orçamentárias[xx]. Essa ação do governo contradiz ao discurso de austeridade propalado por Guedes e pelo próprio presidente, usado para justificar a redução do valor do auxílio emergencial nesse ano. Segundo as contas do senador Randolfe Rodrigues (REDE-AP), essas cifras seriam suficientes para conceder auxílios emergenciais no valor de R$ 600,00 para 5 milhões de brasileiros ou aplicar 58 milhões de doses da Vacina da Pfizer[xxi].


Nesse particular, Guedes e sua equipe econômica são os “economistas do caos”, uma vez que são responsáveis pelo verdadeiro caos na economia brasileira, com a insistência numa agenda inadequada por pura ideologia e ignorância, demonstrando total inércia e inépcia para retomar o crescimento econômico e a geração de emprego e renda.


REFERÊNCIAS [i] Dentre os diversos títulos recentemente lançados, destaca-se o livro “Como As Democracias Morrem”, de S. Levitsky e D. Ziblatt. [ii] EMPOLI, Giuliano Da. Os Engenheiros do Caos: como as fake news, as teorias da conspiração e os algoritmos estão sendo utilizados para disseminar ódio, medo e influenciar eleições. São Paulo: Vestígio, 2019. [iii] https://www.nexojornal.com.br/entrevista/2019/12/03/%E2%80%98O-caos-criado-pela-extrema-direita-%C3%A9-calculado%E2%80%99. [iv] Idem. [v] Ibidem. [vi] https://www.sul21.com.br/opiniaopublica/2019/04/as-entrelinhas-dos-100-dias-do-governo-bolsonaro-por-christian-velloso-kuhn/. [vii] Idem. [viii] Ibidem. [ix]Como do ex-ministro da Fazenda, Rubens Ricupero, no episódio conhecido como “O Escândalo da Parabólica”, quando em 1994 chegou a dizer sem saber que estava sendo filmado "Eu não tenho escrúpulos; o que é bom a gente fatura, o que é ruim a gente esconde.", ocasionando na sua demissão. https://acervo.oglobo.globo.com/em-destaque/escandalo-da-parabolica-derrubou-ministro-da-fazenda-rubens-ricupero-18904564. [x] https://g1.globo.com/politica/noticia/2019/05/08/comissao-da-camara-ouve-paulo-guedes-sobre-reforma-da-previdencia.ghtml. [xi] https://g1.globo.com/politica/noticia/2020/05/22/leia-integra-da-transcricao-do-video-da-reuniao-ministerial-de-22-de-abril-entre-bolsonaro-e-ministros.ghtml. [xii] https://www.istoedinheiro.com.br/de-empregadas-na-disney-a-virus-chines-as-gafes-do-paulo-guedes-1/. [xiii] Idem. [xiv] Nesse quesito, vale acrescentar a declaração do Secretário de Política Econômica, Adolfo Sachsida, em julho de 2020, ao afirmar sobre a crise do coronavírus que “o pior já passou”. https://www.gazetadopovo.com.br/republica/sachsida-entrevista-agenda-economica-pos-pandemia/. [xv] https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2020/08/o-prosador-de-promessas.shtml?origin=folha. [xvi] https://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Economia-Politica/Recessao-extrema-de-direita/7/48629. [xvii] https://www.wecoletivo.com/post/incompet%C3%AAncia-%C3%BAtil-o-paradoxo-de-guedes. [xviii] Idem. [xix] https://www.wecoletivo.com/post/aux%C3%ADlio-keynesiano-a-emerg%C3%AAncia-de-uma-recupera%C3%A7%C3%A3o-em-v. [xx] https://www.wecoletivo.com/post/or%C3%A7amento-secreto-de-3-bilh%C3%B5es-de-bolsonaro-%C3%A9-utilizado-em-troca-de-apoio-do-centr%C3%A3o?s=08. [xxi] https://twitter.com/randolfeap/status/1391745448403251204?s=1001.

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