• Caiubi Kuhn

Educação, os cortes na assistência estudantil e a transição escola-trabalho

Atualizado: Mai 16

Por Caiubi Kuhn

Poeta, Geólogo, especialista em Gestão Pública (UFMT), mestre em Geociências (UFMT) Doutorando em Geociências (UNESP)

Doutorando em Environmental Sciences (Tubingen University)


A educação é a melhor e maior ferramenta de transformação de um país. O processo entre a conclusão das etapas educacionais e inclusão em definitivo no mundo do trabalho é chamado de transição escola-trabalho. Normalmente, quanto maior o nível educacional que uma pessoa possui, maior a renda. O problema é que devido a realidade social do Brasil, muitas pessoas de baixa renda abandonam o sistema de ensino-aprendizagem de forma precoce e acabam limitados durante toda a vida a oportunidades de trabalhos restritas e, em geral, com uma remuneração baixa. Essa realidade poderia ser diferente, caso as políticas de assistência estudantil, como casas de estudantes, bolsa moradia, restaurantes universitários e bolsas permanências, fossem fortalecidas, para permitir que jovens de baixa renda também possam fazer um curso técnico ou superior. Porém, ao invés de aumentar os recursos, o governo federal e o congresso realizaram mais um corte nesta importante política de transformação social, cortando também o sonho de muitos jovens.

A ampliação das políticas de suporte à transição escola-trabalho deveria ser uma pauta com capacidade de reunir segmentos desde a esquerda até a parte da direita. O motivo é simples, além dos aspectos sociais, existe uma correlação direta entre a produtividade e o nível de qualificação. Em geral, quanto mais qualificada a população de uma país, maior a produção por hora e maior o salário, ou seja, se queremos um Brasil com mais competitividade e igualdade, é fundamental garantir uma transição escola-trabalho onde o cidadão consiga no mínimo realizar um curso técnico.

Conforme o presidente da Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes), os recursos do Plano Nacional de Assistência Estudantil deveriam ser de R$ 1,5 bilhão, porém para esse ano será de apenas R$ 800 milhões. A falta de acesso a políticas que auxiliem os estudantes durante a graduação, faz com que muitos estudantes abandonem as universidades, devido a impossibilidade de conciliar estudo e trabalho.

O cenário se torna ainda mais crítico, quando considerado que o desemprego entre os jovens é muito maior que em outras faixas etárias. Sem uma formação especializada e com pouca ou nenhuma experiência, o acesso a um emprego se torna uma dificuldade. Existem aqueles que tentam empreender e criar alternativas de renda, porém a falta de qualificação especializada também se torna um desafio para conseguir consolidar a iniciativa.

A pouca priorização dessas políticas por parte de governos, talvez se deva ao fato que os resultados proporcionados por ela são a médio e longo prazo, e ultrapassam os 4 anos eleitorais. Porém, para mudar a realidade social do Brasil precisamos garantir que independente da realidade social dos pais, toda criança e jovem possa ter acesso a oportunidade de uma formação adequada, que garanta uma correta transição entre o universo do ensino-aprendizagem e ao mundo do trabalho.

Conforme dados divulgados pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), em 2018, uma pessoa com diploma universitário ganha em média 2,5 vezes mais do que alguém que possui apenas o ensino médio. A pouca qualificação do Brasil pode ser vista na diferença entre a proporção de pessoas com nível superior entre 25 a 64 anos, que no país é de 17% e entre os países é em média 30,3%, a diferença se mantém na faixa etária entre 25 a 34 anos com 19,7% e 36,7%, respectivamente.

Ao garantir uma transição escola-trabalho adequada o Brasil se torna mais competitivo, com salários melhores e com mais oportunidades e produtividade. Cada centavo investido nas políticas retornará em impostos. Sim, além de necessária, a ampliação de políticas de assistência estudantil dá retorno em termos de arrecadação para o próprio governo. Para entender essa afirmação é preciso imaginar dois cenários. Imagine um jovem de baixa renda, que não teria condições para cursar uma universidade sem o apoio das políticas de assistência estudantil. No cenário A, onde ele não teve acesso as políticas ele teria muito menos oportunidades de emprego e desenvolvimento social. No cenário B, ao ter acesso a um curso superior, ele teria uma renda média ao longo da vida duas vezes e meia maior. Se o governo apoia esse jovem com políticas de assistência estudantil, em uma análise simplista, a quantidade de impostos pagos por essa pessoa ao longo de toda vida, também será aproximadamente 2,5 vezes maior que o que ele pagaria caso não tivesse apoio das políticas governamentais.

Se você dúvida dessa análise, dou exemplo da minha própria experiência de vida. Essa pessoa que lhe escreve hoje teve o apoio durante todo o processo de formação, com políticas de proteção social como bolsa escola, bolsa família e políticas de assistência estudantil durante a universidade. Hoje atuo como professor e pesquisador, mas sem as políticas talvez estivesse ainda em minha cidade natal, carpindo, vendendo pão e outros produtos na feira, entre outras atividades que fazia até meus 14 anos de idade, quando saí do município para estudar no CEFET. Tenho total respeito e admiração por todas as pessoas que realizam todos os tipos de serviços na sociedade, porém, defendo que toda atividade seja feita com formação adequada e que todo jovem possa sonhar e realizar independentemente do nível social da família que pertence. Ao longo do período de estudo, conheci muitas outras pessoas com dificuldades parecidas e que tiveram apoio de políticas de assistência estudantil. Hoje, muitas delas estão em grandes empresas, universidades, algumas montaram seu próprio negócio, mas em geral em todos os casos é fácil ver as transformações sociais que foram realizadas pela garantia do acesso à educação e a formação qualificada.

As políticas de assistência estudantil precisam ser ampliadas. Redução não! O Brasil precisa garantir uma correta transição escola-trabalho para os jovens. Todos deveriam poder sonhar em ter uma formação qualificada e boas oportunidades de trabalho.


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