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FHC: Militares não tem plano de volta ao poder

Ex-presidente e um dos líderes do PSDB concedeu entrevista a Revista Época.


Em entrevista ao jornalista Guilherme Amado, da Revista Época, o ex-presidente da república por dois mandatos, Fernando Henrique Cardoso comentou a situação atual envolvendo o atual governo de Jair Messias Bolsonaro e todo o entorno conturbado com trocas no comando dos ministérios e na chefia das Forças Armadas.


Fernando Henrique declarou não acreditar que os militares brasileiros estariam dispostos a retornarem ao poder do executivo por meio de uma tentativa de golpe. O tucano também se manifestou criticando a postura do atual mandatário, Jair Bolsonaro, com relação a suas falhas na comunicação, onde ele acrescentou que Bolsonaro se mostra incapaz de apresentar um caminho para o país.


Como vê a situação geral do governo?


O Brasil está num nevoeiro, sem saber o que vamos fazer no outro dia, mas tenho a impressão de que os militares não querem voltar ao poder. Eu não sou, até pela minha formação, pessimista, não acho que isso aqui vai para o buraco, não. Mas olha, é difícil. Pandemia, dificuldade econômica e ainda por cima instabilidade política. É muita coisa, dá um certo mal-estar. Eu acho que o primeiro dever de quem está no comando do país é tranquilizar o país, pelo menos tentar. Tem gente que é contra, o que é natural, mas você assegura o seu lado pelo menos. As pessoas estão começando a ter dúvida. O Brasil sempre acreditou em si mesmo e isso é muito importante. O país tem que acreditar que ele tem caminho, que tem futuro, e isso depende não é só do presidente, mas em parte a posição presidencial é uma posição que imprime responsabilização também.


O senhor considera que Bolsonaro se enfraqueceu com a troca do ministro da Defesa e posterior demissão dos três comandantes das Forças Armadas?


A mim parece. Mesmo que ele tenha tido uma estratégia qualquer, e eu não conheço o Bolsonaro para saber se ele é um homem de estratégia, mas mesmo que tenha tido, não fica claro que ele tenha ganho a parada, né? Eu acho ruim, tem muita instabilidade no governo. Olha eu tive o mesmo ministro da Fazenda por oito anos porque dava uma certa continuidade, dava tempo de colher resultados. O (José) Serra foi ministro da Saúde mais de cinco anos, seis anos, enfim. É importante, você não consegue na política fazer as coisas porque deseja, tem que ouvir a sociedade. Eu acho que essa preocupação maior que eu tenho no Brasil é que eu não vejo que haja nada consensualizado com a sociedade. É tudo improvisado, agora mesmo, de repente muda tudo, caem todos os ministros militares, é um fato complexo no mínimo. A sensação que você tem não é que ele saiu mais fortalecido.


No fim de seu mandato, o senhor ressaltou que ninguém sabia mais os nomes dos generais. Agora, voltamos a ter que saber.


É verdade, naquele tempo eles perderam o palco que havia antes, né? Estava tudo normalizado, agora nós estamos falando nomes de generais que conhecemos. Mas eu não acho que eles queiram isso não, eu não acho que eles estejam em algum projeto de volta ao poder. É que a sociedade fica em busca de quem é que pode ser isso ou aquilo, e, quando acontece uma demissão, todo mundo fica assustado.


O senhor ainda tem contato com generais, almirantes e brigadeiros da ativa?

Sim, mas pouco. Eu procuro não ter, não me imiscuir nessa coisa de militares porque não corresponde a essa etapa da minha vida me meter nisso. Mas a gente acaba sabendo o que eles falam e pensam mais ou menos. Eles gostam de ordem, se não tiver ordem, ficam nervosos.

Como o senhor avalia a condução do Bolsonaro dessas trocas?

Eu acho que é importante na República você falar ao país, explicar. Se o presidente não diz ao país, não convence o país, o que quer dizer etimologicamente? Quer dizer vencer junto, ou seja, fazer o país participar da sua vitória, o povo participar. É importante que um presidente mantenha o sentimento de que as coisas vão caminhar em uma certa direção. Quando não consegue isso, você começa a ter invasão de autoridade, o Congresso passa a ter mais iniciativa, a falar mais, os próprios tribunais, que geralmente são quietos, passam a ter mais presença. Então, quando vem muito à tona, não é bom, do ponto de vista da estabilidade. Significa que alguma coisa está desarrumada. Saber o que o presidente está pensando é importante, e ele não fez isso.

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