• Yuri Dantas

Indústria 4.0 como janela de oportunidade


Por Yuri Dantas

Graduado em Economia pela UFBA. Pesquisador do Núcleo de Estudos Conjunturais (NEC) da UFBA. Mestrando em Economia pelo Programa de Pós-Graduação em Economia (PPGE/UFBA).

Os estudos econômicos tradicionais sobre o desenvolvimento buscam um fator universal que, independente dos níveis de renda e diferenças estruturais, conduzam o desenvolvimento econômico propriamente dito. Contudo, a procura pelo denominador comum simplifica em demasia os vários elementos circunscritos no processo de desenvolvimento. O campo assume uma função de produção simples, com trabalho e capital como fatores principais e suas respectivas elasticidades, e as tecnologias associadas são assumidas como iguais ao redor das diferentes nações (LEE, 2019, p. 23). Esse antigo modelo acaba interpretando o processo de catching up de um país retardatário como um episódio de rápida acumulação de capital sem levar em consideração todo o sistema de acumulação de conhecimento, absorção de tecnologia e formação de um sistema nacional de inovação (ibidem).


A superação desse antigo modelo simplificador é imprescindível para situar a importância da Indústria 4.0 ou Quarta Revolução Industrial (4RI) como uma chance para o desenvolvimento dos países emergentes. Com a chegada da 4RI, a organização industrial está se transformando de modo que os insumos, o produto, o processo de produção, a estrutura de mercado e a dinâmica de geração e apropriação de valor sejam modificados e repensados (PRIMI, TOSELLI, 2020, p. 8). Ademais, o modelo existente de catching up encontra desafios específicos na nova realidade, uma vez que a disrupção produtiva e a transformação organizacional proporcionada estão reescrevendo as leis da manufatura (LEE, 2020, p. 21). Primeiro, como a automação está cada vez mais acessível, a mão de obra barata passa a ser uma estratégia pouco eficiente para atrair investimentos. Segundo, a 4RI possivelmente incentivará a volta das filiais industriais para o país desenvolvido de origem. Por conseguinte, em terceiro lugar, espera-se que a cadeia global de valor se torne mais regional ou nacional para diminuir o tempo de entrega e deixar a manufatura mais adaptável às preferências locais. (ibidem).


Contudo, apesar da reescrita das leis, a automatização da indústria 4.0 não invalida o papel tradicional da indústria como propulsora do desenvolvimento estratégico principalmente nos países de baixa renda (UNCTAD, 2017, p. 50). O que acontece é uma dificuldade em se angariar melhorias no setor industrial nessas economias que acabam limitando o escopo para uma industrialização baseada na mão de obra barata e em atividades manufatureiras menos dinâmicas, o que prejudica a produtividade, o catch up e o crescimento da renda per capita (ibidem). Destarte, é necessário superar a produção baseada na exportação como estratégia para o desenvolvimento e direcionar os esforços para políticas industriais que visem, além do catching up tecnológico, uma inserção competitiva no mercado internacional e a qualificação da mão de obra para a realidade da 4RI.


Nesse sentido, o novo paradigma tecno-econômico proporcionado pela Indústria 4.0 pode ajudar os países retardatários a saltarem no estágio de desenvolvimento (LEE, 2020, p. 21). Isso porque os países emergentes seriam capazes de ocasionalmente pular (leapfrog) certos estágios e alcançar ou até mesmo ultrapassar líderes anteriores desde que possuam o novo conhecimento e habilidades relevantes para tal (PEREZ, SOETE, 1988, p. 477; LEE, 2020, p. 1). E, o momento mais propício, que pode ser entendido como uma janela de oportunidade temporária, para os países atrasados dominarem as tecnologias emergentes e conquistarem o rápido crescimento é o de mudança de paradigma (PEREZ, SOETE, 1988, p. 477), como com a chegada da 4RI. Desse modo, há possibilidades e tempo suficiente para se pensar estrategicamente na 4RI como propulsora do salto de estágio, promovendo o leapfrogging da produção em massa (2RI) para a automação (3RI) e fábricas inteligentes (4RI) (LEE, 2020, p. 22). Para tal, os países devem prestar atenção no caráter dinâmico da 4RI e antecipar os impactos para tomar medidas proativas que modelem positivamente suas respectivas economias (LEE, MALERBA, PRIMI, 2020, p. 2).


Contudo, de acordo com Primi e Toselli (2020) e Lee, Malerba e Primi (2020), apesar das novas tecnologias abrirem oportunidades de leapfrog para as economias emergentes, a 4RI surgiu em um contexto em que as nações desenvolvidas estão determinadas em implementar ações que as mantenham na liderança mundial; estão explorando novos locais de produção em outras economias com baixo salário além da China; e um grande número de companhias estão trazendo de volta as filias para os países desenvolvidos de origem. Nesse aspecto, ressalta-se que as novas tecnologias tendem a ser aplicadas nessas economias avançadas como uma resposta ao catching up das economias recém-desenvolvidas, em particular as do Leste Asiático. Dessa forma, os desenvolvidos e os em desenvolvimento nunca estarão no mesmo ponto de partida, sendo de interesse dos primeiros manterem essa vantagem nessa nova mudança de paradigma (LEE, 2020, p. 21).


Ademais, a desvantagem na “largada” já começa nas falhas estruturais das economias em desenvolvimento que tendem a se especializar e produzir commoditties para a exportação. Por conta disso, apresentam falta de desenvoltura tecnológica, pouco investimento em P&D e conhecimento base limitado (LEE, MALERBA, PRIMI, 2020, p. 2). Além disso, o setor privado é avesso ao risco e contribuem pouco para a inovação nacional. Dado esse cenário, a participação na cadeia global de valor não ativa processos de aprendizado e os prende numa posição dependente (ibidem). Entretanto, segundo Primi e Toselli (2020), as mudanças de paradigma alteram a dinâmica e organização global, o que abre oportunidade para novos padrões de catch up, e essas novas trajetórias dificilmente são lineares, envolvendo um complexo processo de aprendizado.


Portanto, para que realmente haja o leapfrog no período de mudança de paradigma, é preciso que o país em desenvolvimento reaja prontamente e aproveite a janela de oportunidade que surgiu antes que ela se feche. Assim como as vantagens de localização e infraestrutura não caem do céu, a dotação de pessoal e habilidades científicas e técnicas de um determinado país também não caem (PEREZ, SOETE, 1988, p. 477), dependendo de fatores como o planejamento de uma política industrial condizente com o momento, a preparação da mão de obra com o nível educacional e alfabetização digital necessárias, o tamanho do mercado doméstico e a posição da economia na cadeia global de valor (LEE ET AL, 2019, p. 17). Desse modo, antes de tudo, de acordo com Perez e Soete (1988), necessita-se que haja o reconhecimento da oportunidade que está surgindo além da competência e imaginação para planejar estratégias adequadas e de condições sociais e vontade política para aproveitá-la.

REFERÊNCIAS

LEE, K. The Art of Economic Catch-up: Barriers, Detours and Leapfrogging in Innovation Systems. Cambridge: Cambride University Press, 2019.

LEE, K. Economics of technological leapfrogging. United Nations Industrial Development Organization, 2020. Disponível em: <https://www.researchgate.net/publication/339722486_Economics_of_Technological_Leapfrogging>. Acesso em: 05 de abril de 2021.

PRIMI, A.; TOSELLI, M. A global perspective on industry 4.0 and development: new gaps or opportunities to leapfrog? Journal of Economic Reform, 2020.

UNCTAD. Trade and Development Report: Beyond Austerity Towards a global New Deal. Geneva: UNCTAD, 2017.

LEE, K.; MALERBA, F.; PRIMI, A. The fourth industrial revolution, changing global value chains and industrial upgrading in emerging economies. Journal of Economic Policy Reform, 2020.

PEREZ, C., SOETE, L. Catching-up in technology: entry barriers and windows of opportunity. In: DOSI, G., FREEMAN, C., NELSON, R., SILVERBERG, G., SOETE, L. (eds.), Technical Change and Economic Theory. London: Pinter Publishers, p. 458-479, 1988.

LEE, K.; WONG, C.-Y.; INTARAKUMNERD, P.; LIMAPORNVANICH, C. Is the Fourth Industrial Revolution a window of opportunity for upgrading or reinforcing the middle-income trap? Asian model of development in Southeast Asia. Journal of Economic Policy Reform, 2019.


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