• Alison Lima

Não há xeque-mate no tabuleiro de 22


Por Alison Lima

Graduado em Filosofia pela Universidade Federal do Ceará – UFC e professor de filosofia e arte.


A política é dinâmica por natureza. As conjunturas e análises de cenários têm que acompanhar esse dinamismo. Principalmente no Brasil atual, onde os institutos de pesquisa fazem um acompanhamento atípico dos cenários eleitorais para o próximo ano. Temos acesso a 3 ou 4 pesquisas mensais, por exemplo. A população, principalmente nas redes sociais, reage imediatamente a esses números. Isso virou praxe no Brasil. Mas é necessário ter precaução para não gerar análises precipitadas. Além das pesquisas, vale ressaltar que a cada semana o clima político muda por conta das descobertas da CPI da Covid que está em curso no Senado Federal. Ou seja, as análises tornam-se obsoletas ainda mais rapidamente. Mas alguém identifica isso? Óbvio. Os políticos que apostam numa polarização irracional e os grandes setores da mídia brasileira. Eles (políticos) identificam essa espécie de obsolescência mas fazem de tudo para que a população não a perceba. A narrativa é de que o segundo turno está definido e quem busca uma alternativa diferente, na visão deles, vive praticamente em um universo paralelo. Para os entusiastas dessa polarização é necessário agir assim para adiar e até obstruir o debate.


Lula e Bolsonaro apostam na polarização totalmente despolitizada e irracional. Como são figuras acostumadas com o meio político, sabem, cada um a seu modo que existe uma relação de dependência entre eles. Lula declarou que sem Bolsonaro na disputa sua candidatura não fazia sentido e por sua vez, Bolsonaro quase que num ato falho pediu votos para o petista: “quem não está contente comigo, tem Lula em 2022”. As militâncias ficam em polvorosa a cada pesquisa. Os petistas já acreditam numa vitória no primeiro turno, enquanto os bolsonaristas berram aos quatro cantos uma possível fraude, justamente para alimentar seus delírios de golpe. E como age a grande mídia nesse contexto?


Os grandes grupos de comunicação no Brasil partilham o mesmo desejo: a famigerada terceira via. Nessa questão há um consenso. Porém, eles querem pintar um nome que vai de Eduardo Leite, passa por Mandetta e chega a Dória. E ignoram sistematicamente o nome mais provável de aparecer num segundo turno contra Lula ou Bolsonaro: o ex-ministro da Fazenda Ciro Gomes. A motivação dessa persistência em nomes de pequena relevância nacional deve-se ao comprometimento desses possíveis candidatos com a agenda liberal. Dogma supremo nas grandes redações brasileiras. Lula e Bolsonaro também mostram-se comprometidos com essa agenda, mas as suas imagens estão muito gastas perante os olhos da população, vide seus índices de rejeição. A mídia quer um liberal “limpinho” que possa tocar a política de Paulo Guedes sem atacar jornalistas. Um sonho para eles.


Ciro Gomes vai na contramão do liberalismo. Ultimamente até tem ganhado mais espaço na mídia, mas jamais será uma opção para quem lucra com o atual sistema econômico no Brasil. Ciro, em seu livro “Projeto Nacional: O Dever da Esperança”, apresenta as suas propostas para o Brasil, com um novo desenho na economia. De maneira resumida, propõe a substituição do rentismo presente no sistema financeiro, por uma política que preza pelos que produzem e trabalham no país. Suas ideias estão sendo disseminadas e compreendidas por diversos fragmentos da população. Conseguiu criar uma “corrente de opinião”, como ele mesmo desejara.


Ciro tem uma militância robusta o que lhe garante uma larga vantagem em relação aos postulantes da terceira via. Lula e Bolsonaro perceberam que o caminho é asfixiar o debate, onde eles são frágeis. Mas a grande mídia não pode fazer o mesmo, porque seu intuito é apresentar alguém. Nesse sentido é que Ciro pode ganhar ainda mais espaço. Com uma estratégia de evidenciar a falta de projeto dos adversários e apresentar o seu PND com o apoio da Turma Boa. Os resultados virão. A militância tem que compreender a dinâmica natural da política, os desafios e traçar estratégias para não desanimar no processo. É válido registrar que nenhuma polarização é eterna. Nas últimas eleições só se falavam de “coxinha x mortadela”. Essa polarização foi engolida ainda no processo eleitoral de 2018. Hoje, com o derretimento visível de Bolsonaro e o teto alcançado por Lula, não se pode definir nada. O processo está em aberto, por mais que muitos se esforcem em dizer o contrário.


Na indefinição: militem.

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