• Bryan da Fonseca Araújo

O abalo sísmico na Democracia dos Estados Unidos

Atualizado: Abr 16

No último dia 6 de janeiro, o mundo assistiu horrorizado a invasão ao capitólio americano por partidários do Presidente derrotado nas últimas eleições, Donald Trump.


A primeira tentativa de autogolpe da história dos EUA foi transmitida ao vivo para todo o mundo e o que se percebeu foi: que a dita “maior democracia do mundo” já não é mais tão grande assim.


Incentivados pelo próprio Trump, entre outros membros do Partido Republicano, os manifestantes invadiram o centro legislativo em Washington com o intuito de impedir o reconhecimento do resultado das eleições de novembro que consagraria a vitória do democrata Joe Biden como novo chefe do Executivo daquele país, objetivando a manutenção do Presidente Donald Trump no cargo. Não adiantou! Mesmo adiada, a sessão conjunta da Câmara e do Senado aconteceu. Os resultados das eleições foram mantidos e mesmo com a morte de 5 pessoas durante os atos, Trump será retirado de seu posto no próximo dia 20.


(Manifestantes invadem Capitólio nos EUA)


Após tudo isso, a pergunta que fica para nós brasileiros é: é possível acontecer algo semelhante aqui?


Adoraria dizer que a resposta a esta indagação é negativa, mas a realidade é que um cenário semelhante em 2022 aqui no Brasil não é só possível, como provável. O Presidente Jair Bolsonaro vem deixando claro que não aceitará cordialmente (como manda a regra do jogo) uma eventual derrota nas próximas eleições presidenciais. Para isso, já iniciou sua campanha difamatória, pautada apenas em achismos, contra o nosso sistema eleitoral, sistema este que, por sinal, o elegeu a cargos públicos durante toda sua vida e de seus familiares.


Perceba caro leitor, que ao passo de que defende a volta do voto em cédula de papel ou ao menos comprovantes impressos de votação, sob a alegação de possibilidade de fraude do sistema atual, o Presidente igualmente, alega ter havido fraude nas eleições americanas que, pasmem, adotam o voto em cédulas de papel. Ou seja, Bolsonaro, para que não haja fraudes, defende a adoção de um sistema ao qual ele mesmo alega ter sido fraudado nos Estados Unidos... parece sem lógica? Pois é, nada fora do comum para este governo.


Durante os seus dois primeiros anos, Bolsonaro se comportou como uma espécie de espelho dos atos praticados pelo Presidente Donald Trump. Os métodos eram semelhantes, desde o trato à imprensa até o negacionismo científico adotado durante a pandemia. Não obstante, os dois mandatários ocupam a 1ª e a 2ª colocação no ranking mundial de mais mortes pela Covid-19.


Agora, ambos seguem uma abordagem parecida sobre o mesmo tema: colocar o sistema eleitoral do país em suspeita a depender do resultado, e isso não é à toa.


Grandes partidos costumam realizar pesquisas internas de forma constante para saber como anda a aprovação dos seus principais candidatos aos olhos do eleitor, bem como, para ter uma noção do quadro eleitoral como um todo. Com os governos não é diferente. Não é coincidência o Presidente norte americano ter atacado o sistema de apuração dos votos pelos correios, modalidade já prevista desde a guerra civil. Ele só o fez, pois “tracks” internos, mostravam que o eleitor mais identificado com o partido Democrata, haviam escolhido o voto pelos correios, a fim de evitar enfrentar filas no dia da votação, e não se expor ao risco de contrair Covid-19.


Mantendo seu modus operandi de seguir a cartilha “trompista” de como governar, e vendo um declínio em sua aprovação, Jair Bolsonaro volta a lançar dúvidas sob o sistema eleitoral brasileiro. E com isso, surge a inquietação da dúvida de que, se em caso de derrota do atual governo nas eleições do próximo ano, o Presidente tentaria um autogolpe para se manter no poder.


Para isso, não basta o mero apoio de uma parcela da população, seria necessário o suporte das forças de segurança como o Exército e as polícias Militar e Civil.


Enquanto muitos acham pouco provável a participação das forças armadas em uma aventura golpista à la 1964, o mesmo não se pode afirmar das polícias, principalmente a Militar, onde Bolsonaro ainda possui forte influência sobre seus quadros. Inclusive, já tramita no Congresso Nacional, um projeto de lei, o qual, busca reduzir o poder de comando dos Governadores sobre as forças polícias nos estados.


Caso o dia 6 de janeiro dos EUA se repita aqui em terras tupiniquins, terão as nossas instituições, a força necessária para combater a insurreição e garantir a democracia?


A cada dia que passa percebemos que a simples derrota eleitoral de Bolsonaro não será suficiente para que retornemos à normalidade democrática. Será necessário, além disso, uma resposta dura das instituições e do próprio povo brasileiro, de que todo e qualquer ideário golpista e antidemocrático não será tolerado. É preciso mais do que nunca lutar pela Democracia em nosso país.

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