• Thaynan Alves Oliveira

O Brasil engenharia, no futuro do pretérito

Atualizado: Mai 16

Thaynan Alves Oliveira

Mestre em Ciências e Tecnologias Espaciais (ITA)

Atualmente cursando doutorado em Eng. Mecânica (Université de Lille – FR)


Nos tempos sombrios em que vivemos, escrever, ou até mesmo ler um texto sobre desenvolvimento tecnológico parece algo secundário. A luta para atravessar a crise sanitária e social que estamos vivenciando requer, sem sombra de dúvidas, o emprego de boa parte da nossa atenção diária. No entanto, ao receber a oportunidade de participar da construção desta coluna voltada à tecnologia, junto à equipe do We e a você, leitor e leitora, trago minha primeira opinião sobre a ciência que escolhi fazer parte: a engenharia.


Muitos verbos estão associados à engenharia, como prevenir, acompanhar, aprimorar, desenvolver. De fato, todas essas ações se unem a uma palavra originada lá no século XIV. Nos últimos 100 anos, passamos por uma escalada tecnológica global meteórica com grande protagonismo dos engenheiros. No Brasil, projetos do século passado também tornaram-se empresas de excelência. Nos dias de hoje, no entanto, precisamos nos perguntar como andam nossos novos projetos e por que não há um número suficiente de postos para que a capacidade da engenharia brasileira seja plenamente aproveitada.


Na área de tecnologia de informação, a cereja do bolo do século XXI, o Brasil hoje exporta profissionais de alta capacitação para os países desenvolvidos, como informou a reportagem vinculada há poucas semanas no jornal O Globo [i]. Setores produtivos que ainda eram capazes de absorver profissionais do setor tecnológico hoje debandam do país com o agravamento da crise, como foi visto nos anúncios de fechamento das automotivas da Ford e Mercedes no mês passado. Com baixa absorção do mercado no setor de produção, resta aos engenheiros brasileiros enfrentar grande concorrência para entrar no setor de serviços e consultoria.


Por outro lado, estima-se que apenas na França hoje, 40% dos pesquisadores em estágio de PhD., o equivalente ao doutorado no Brasil, são estrangeiros, sendo que esse número está em baixa em relação a anos anteriores[ii] . Em outros países desenvolvidos, a proporção ainda cresce.

Tabela: Ranking dos 10 países em proporção de doutorandos estrangeiros[iii] .


Na área de ciências exatas a taxa é mais alta na França, 49%. Acreditem caros leitores, para simples exemplo prático, nesse período de dois anos em que estou cursando doutorado no campus de ciência e tecnologia da Universidade de Lille, não tive contato direto com ao menos um doutorando francês. Na minha sala, dois brasileiros, um chinês e uma colega da Argélia. No meu laboratório, se é que há algum francês, eu ainda não o conheço.


+ Um projeto de sonhadores: as esperanças do Brasil de Ciro Gomes (WeColetivo.com)


+ Privatizações e Precarização de Estatais: O Estado Corretor de Guedes (WeColetivo.com)


A grande maioria desses estudantes são financiados por instituições francesas públicas ou privadas, portanto, não tem condicional de voltar ao país de origem. Em 2012, entre 1846 entrevistados, apenas 3% dos doutorandos no país declararam receber bolsa do seu país natal, segundo relatório da confederação francesa de jovens pesquisadores[iv]. Isso sugere que, enquanto há grande dificuldade de alocação de profissionais de tecnologia em um país como o Brasil, os mais desenvolvidos acolhem, preparam e absorvem aqueles que serão responsáveis pelo seu crescimento tecnológico.


Todo o país precisa de desenvolvimento, e para que isso ocorra, é preciso de tecnologia. É evidente, portanto, que o Brasil necessita urgentemente de uma virada de jogo. Essa virada só poderá ser dada através de políticas públicas de industrialização, com foco na criação de novas tecnologias, orientadas por um projeto conjunto entre academia e indústria, permitindo assim um aproveitamento maior dos nossos excelentes engenheiros nacionais. Caso isso ocorresse, e se “engenhar” fosse um verbo existente na língua portuguesa, não tenho dúvidas que o Brasil engenharia.


[i] https://oglobo.globo.com/economia/fuga-de-cerebros-pandemia-acelera-saida-de-profissionais-qualificados-para-trabalhar-no-exterior-24831508 [ii] https://www.aefinfo.fr/depeche/609807-le-nombre-de-doctorants-etrangers-accueillis-en-france-a-baisse-de-8-en-5-ans [iii] https://public.tableau.com/profile/aef.data.sup.recherche#!/vizhome/PaysAccueil_carte/Tableaudebord1 [iv] https://cjc.jeunes-chercheurs.org/expertise/etrangers/2012-09-sondage-JC-etrangers.pdf

Posts Relacionados

Ver tudo