• Marcelo Vasconcelos

O Carnaval da vacina... e do ano novo

Atualizado: Jan 13

Marcelo Vasconcelos (Twitter @m4rcelitos)

Graduado em Administração com habilitação em Marketing

Pós Graduado em Administração com ênfase em História da Sociedade e das Organizações

Mestrando em Administração com foco em Tecnologia e estudioso da história e da contemporaneidade política.

Olá pessoal, feliz em receber o convite do WE Coletivo para bater esse papo com vocês. Também fiquei alegre quanto ao tema, falaremos sobre carnaval e o seu cancelamento pelo Brasil, em função da pandemia e de todo o momento delicado e triste que estamos vivendo, bem como um pequeno apanhado histórico do fenômeno “carnaval” no mundo.


Antes, eu quero contextualizar vocês a respeito do que, de fato, significa o carnaval para algumas cidades... Nós enxergamos o carnaval sob o ponto de vista de quem curte. Lógico, sob esse ponto de vista é um evento supérfluo. Mas não, convido vocês a saírem das vossas posições e entenderem que, por sermos um país tropical, de veia turística e cultural muito forte, o carnaval é um momento motor para a economia de diversas cidades e estados do Brasil. Eu, Marcelo Vasconcelos, amante da história, falo de Salvador, Bahia. Quanto ao nosso carnaval, vocês já devem ter ouvido falar, rs.


Bem, sobre de captação de recursos no carnaval, Salvador recebe de apenas um de seus patrocinadores, cerca de 50 milhões de reais por edição (imagine se somarmos os patrocínios de todas as demais empresas parceiras) dinheiro a ser revestido em benfeitorias para a própria cidade e sua população, das mais diversas maneiras. O grupo liderado por ACM Neto (que governou a cidade de Salvador por 8 anos e presidente nacional do partido Democratas), faça-se justiça, foi o primeiro a viabilizar o carnaval como fonte de renda ao erário público. Isso mesmo, a cidade de 471 anos e primeira capital do país sempre teve um carnaval deficitário, realizado pura e simplesmente com o intuito de promover uma grande farra.


Desde então o carnaval de Salvador é base capital que alavanca toda uma gestão pública e fluxo financeiro de famílias por todo o ano, haja visto o grande número de postos de trabalho diretos e indiretos gerados pela realização do evento, deixando de ser política de pão e circo (ou apenas isso) há muito tempo. Baiano não gosta de festa só porque festejar é bom, buscar momentos de alegria é intrínseco ao ser humano. Baiano gosta de festa pois festa é trabalho, é renda. Em Salvador é a alavanca econômica de famílias de todas as classes.


Deixem-me trazer aqui um parêntese histórico; muitos de vocês já devem ter ouvido falar que "na Bahia, o ano só começa em Março, depois do carnaval" e eu quero dizer a vocês que sim, o inconsciente coletivo histórico é flagrante e é ele quem explica esse fenômeno. Salvador é a cidade mais negra do mundo fora da África, é de conhecimento de todos a herança escrava que circula em nossa cultura, em nossos hábitos e em nossas veias. Dito isso, fica claro imaginar que existe uma herança politeísta (religião que considera vários deuses e não apenas um só, tal qual as religiões de matrizes africanas e demais espalhadas pelo mundo) no contexto do nosso comportamento. Pois no calendário "pagão" (tanto antes, como depois de Cristo) o primeiro mês do ano é Março.


O carnaval é, para muitas religiões antecessoras ao cristianismo, uma festa de comemoração de fim de ano. Sim, o cristianismo, desdobrado pelo catolicismo, ressignificou inúmeras festas de massa datadas ao longo do ano, aproveitando-se (intencionalmente ou não) das já tradicionais mobilizações de pessoas em tais períodos. Por exemplo, o Natal já existia no judaísmo, é o Hanukkah e nada tinha a ver com o nascimento de Cristo, o período festivo e a mobilização das pessoas já existiam. Bem como a Páscoa, que não significa a ressurreição de Cristo, haja vista que o próprio Jesus foi visitar Jerusalém no período da Páscoa, adentrando a cidade montado em um jumento e presenciando toda a festividade junto a multidão, que não estava ali por causa dele e sim pela Páscoa. Àquela altura a fama de Jesus já havia se espalhado e sua chegada à festa foi bastante ovacionada, segundo a própria Bíblia.


Continuando o parêntese histórico, já repararam que o mês de setembro arremete ao número sete (e nós o chamamos de mês 09), que outubro arremete ao número oito (e nós chamamos de mês 10), novembro arremete a nove (e nós chamamos de mês 11) e dezembro arremete a dez (e nós chamamos de mês 12)? Sim, antes do calendário cristão, janeiro e fevereiro eram os últimos meses do ano e para o povo africano, bem como para a maior parte do mundo antes de Cristo e de religião politeísta, o carnaval era sim a festa de fim de ano, hora de esquecer as mazelas, festejar e comemorar a chegada do novo ano a ser iniciado em Março, que significa “Martius”, o deus da guerra. Logo, o ano se inicia, hora de começar a luta, a labuta, depois da luta tudo se abre, por tanto, o segundo mês do ano se chama Abril. Esse calendário foi “operado” com a chegada do calendário cristão (o qual seguimos), há quem ache muita coincidência os principais momentos católico/cristãos, coincidirem com as datas pré existentes mais fortes e de grande mobilização de pessoas, o que seria então uma espécie de oportunismo de mercado, mas essa é uma outra discussão, rs.


Voltando a pujança econômica do carnaval para muitas cidades, devemos sim, respeitar o momento de arrecadação importante, mas nada é mais importante do que a vida. O carnaval já está cancelado pela prefeitura de Salvador (Democratas) e pelo Governo do Estado da Bahia (PT), a cidade (em quase sua totalidade) está de acordo, é a capital que carrega o maior índice de rejeição ao Governo Bolsonaro, o prejuízo econômico é o preço a ser pago na luta para salvar vidas e as pessoas estão conscientes disso. É, humanamente falando, o correto a ser feito, afinal de contas o dilema "economia versus vidas" foi o que mais vimos de equivocado em 2020 e agora estamos sentindo aonde a política negacionista desse governo está nos levando, acabamos de ultrapassar 200 mil mortes.


Salvador fica sem carnaval, bem como outras praças pelo Brasil, mas a vacina está chegando, passaremos o ano nos reconstruindo, para comemorar nosso "réveillon pagão" no carnaval do ano que vem, rs. Aí sim, muita farra, muita alegria, muito fomento econômico e alívio por sentir que superamos esse momento sombrio da história. Estaremos em 2022, ano de eleição, e que em outubro (seja ele mês 8 ou mês 10 pra você, rs) a gente possa extirpar toda e qualquer cepa de oportunistas inescrupulosos do poder. Até mais e vamos juntos até lá!


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