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O combate à corrupção na esquerda


Por Bryan da Fonseca Araújo

Advogado, especialista em Direito Penal, Processo Penal e Segurança pública.

Mestrando em Ciência Política (UFPB).


Recentemente vem ganhando força nas redes sociais, o debate sobre o discurso de combate à corrupção por candidatos do campo progressista, visto que para alguns, tal discurso remeteria a uma visão “udenista” da política.


Se você está chegando agora, já falamos sobre a UDN aqui nesta coluna quando tratamos do movimento conservador no Brasil: https://www.wecoletivo.com/post/conservadores-precisamos-conversar.


A União Democrática Nacional tinha na bandeira do combate à corrupção um dos seus pilares, ousaria dizer que era o seu único grande pilar, nenhuma definição do partido é melhor do que a dada por Afonso Arinos de Melo Franco, um de seus fundadores, que certa vez disse: “A UDN tinha uma espécie de visão juvenil, oratória de grandes gestos, teatral da política, que era incompatível com as incumbências do governo. Havia alguns udenistas que queriam governar, como Gabriel Passos, por exemplo. Mas os udenistas autênticos não queriam governar. Nós queríamos ser contra os governos. Naquele tempo a gente fazia carreira de ser contra, e essa é uma carreira brilhante, sabe? Muito mais interessante do que se chatear num cargo executivo”.


Ao ler essa definição lhe veio à mente alguns movimentos políticos contemporâneos?! Pois é.


Contudo, o discurso de combate à corrupção nos governos nunca foi historicamente, uma pauta apenas da direita brasileira, na verdade, sempre esteve mais para uma pauta da oposição, independente do espectro político.


Prova disso, é que o hoje alvo dessas críticas, o Partido dos Trabalhadores, sempre bebeu desta fonte durante os governos de Collor, Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso.


Até então sempre no papel de oposição, o PT era um havido crítico e denunciante político dos esquemas de corrupção que rondavam tais governos.


Até hoje é emblemática a peça publicitária do partido em 2002 em que ratos roíam a bandeira nacional, e que ao final se ouvia “ou a gente acaba com eles ou eles acabam com o Brasil”.


Por motivos óbvios esta é uma narrativa que o partido não pode mais usar.


Mas porque o Partido dos Trabalhadores não pode mais brandir esta bandeira, todo o campo da esquerda está proibido de fazê-lo?


Em 2017, um ano antes da eleição que levaria Jair Bolsonaro ao poder tendo o combate a corrupção como uma de suas principais bandeiras, o Ibope identificou que a corrupção era a principal preocupação para 62% dos brasileiros a época, superando pela primeira vez pautas históricas como saúde e educação.


Como não podia ser diferente, trata-se de um tema de suma importância para grande parte do eleitorado brasileiro, e abandonar esta pauta ou entregá-la de mão beijada para figuras reacionárias seria um erro crasso.


Já imaginou se a oposição e todo o campo progressista não pudesse denunciar todos os fortes indícios de corrupção da família Bolsonaro, e agora, os desvios envolvendo a compra de vacinas em plena pandemia que já vitimou mais de 560 mil brasileiros, além dos acordos escusos com nomes do “centrão” que haveria levado a criação de um orçamento paralelo, pelo simples fato que erros semelhantes foram cometidos em governos de um partido de esquerda?


Estaria todo um campo refém de um passado que não é necessariamente o seu, de erros que não cometeu, apenas para não melindrar um partido.


Não é lógico ou sequer plausível, requerer isso.


Os erros do passado devem ser apontados mesmo que doa em nossos afetos, só assim teremos qualquer moral para apontar os erros do presente, e mostrar que a corrupção é sim uma questão a ser observada e combatida, e que o discurso “moralista” para alguns, é na verdade o obvio a ser defendido.


O que tornaria um discurso “udenista” neste sentido, é o discurso vazio, sem conteúdo, superficial, infantil, que trata de uma moralização de goela sem propor nada mais, pois não possui nada mais a propor. Contudo, quando além de um programa econômico e social complexo, se apresenta o combate a corrupção como algo a ser buscado, não há que se falar em falso moralismo ou discurso udenista, pelo contrário, teríamos aí um aceno claro a população que a esquerda não compactua com práticas que hoje Bolsonaro reproduz, apenas porque tais equívocos foram cometidos no passado.


Por mais doloroso que seja o afã, é preciso termos a humildade de saber que erramos tanto na execução e prática quanto na defesa, olhar para frente, e lutar por pautas que são importantes para o povo brasileiro, só assim poderemos nos reconectar com ele.

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