• Frederico Krepe

O dilema do radicalismo retórico do lulismo e a luta pelo centro


Frederico Krepe


A formação do PT enquanto partido de esquerda foi marcada inicialmente por uma retórica radical, tida como necessária para a garantia de espaço no jogo político brasileiro. Esse radicalismo resultou em algumas posições um tanto criticáveis na história política recente do país. Por exemplo, o PT foi contra a votação do Colégio Eleitoral que elegeu Tancredo Neves presidente do país, o que encerrou a ditadura de 21 anos (e ainda expulsou quem votou em Tancredo), não assinou a Constituição de 1988, foi imediatamente para a oposição ao governo de união nacional de Itamar Franco (expulsando Luíza Erundina nesse processo) e se posicionou radicalmente contra o Plano Real em 1994.


Tais posturas reforçavam a pecha de “radical” no partido, afastando uma parte importante do centro: empresários de pequeno e médio porte, setores religiosos de fora da esquerda católica, alguns setores artísticos e parte da classe média urbana.

Esse afastamento forçou um trabalho muito forte de moderação (e de marketing) para que Lula pudesse vencer as eleições de 2002. Dando um giro de 180º desde que ganha a eleição, no embalo do lulismo, o PT passa a ser um partido extremamente pragmático, fazendo aliança com os bancos, com a direita, com o centrão, com fundamentalistas religioso e com tudo o que fosse necessário garantir vitórias eleitorais. Um caso é emblemático acerca disso: no 2º turno das eleições de 2014, estava no Rio de Janeiro e assisti a presidente Dilma fazendo campanha junto com os dois candidatos ao governo do estado, Crivella e Pezão, no mesmo dia.

Com a crise de 2015-16 e com a escalada do impeachment (que considero golpe), o pragmatismo do PT desmoronou. O partido ficou isolado ao lado de figuras de esquerda que antes desprezava, como é o caso do PSOL. A postura amplamente pragmática não foi capaz de salvar o PT de ter sua presidente derrubada e a retórica muda 180º novamente. O discurso já não é mais o da moderação e da aliança com setores da direita, mas o de condenação dos “golpistas” (na época, todos os que defenderam o impeachment). Com a escalada da Lava Jato e a prisão de Lula, o radicalismo retórico se intensifica, ao ponto de figuras graúdas do PT, como é o caso do então senador Lindbergh Farias, defenderem abertamente a quebra da institucionalidade em discursos públicos. O resultado desse radicalismo é o isolamento do PT nas eleições de 2018, se aliando apenas com PROS e PCdoB. Esse isolamento se mantém em 2020, com o PT tendo um desempenho muito fraco nas eleições municipais, elegendo apenas quatro prefeitos em cidades grandes e médias e caindo para menos de 200 prefeituras no país todo.


O que faz um partido que governou por 13 anos com um pragmatismo implacável adotar uma postura radical? A busca por coesão interna. Como foi mencionado anteriormente, o pragmatismo do PT não foi somente em termos políticos, mas também na política econômica. Ambos andavam juntos. Enquanto se aliavam a todos os setores da política, implementavam políticas econômicas totalmente estranhas ao que se esperava de um partido de esquerda. A manutenção dos princípios macroeconômicos criados por FHC e a aliança com os bancos na gestão da economia resultaram em uma forte crise com a própria militância, que passa a questionar mais e mais os desvios do lulismo. O ajuste fiscal bancado por Dilma a partir de 2015, tocado pelo homem forte do Bradesco que comandava a economia, Joaquim Levy (que foi depois presidente do BNDES do Bolsonaro!), deixa o PT em maus lençóis com sua militância e afasta uma boa parte da base popular construída até a época. Quando Dilma é derrubada, o partido passa a se ver livre para tocar um discurso antissistema, o que dá certo para manter a coesão interna e segurar uma debandada. O problema é que esse discurso fez pouco para tirar o partido do isolamento.


Quando Lula estava preso e inelegível, a radicalidade sustentava a união da militância e do partido, mas a anulação dos processos contra Lula no STF e a retomada de seus direitos políticos (pelo menos temporariamente) forçam outra atitude. É justamente aí que o radicalismo retórico do PT cobra seu preço. Podendo se candidatar a presidente em 2022, Lula tenta retomar o pragmatismo que marcou seus governos. Pelo menos para o ex-presidente, a retórica agressiva e radical dá lugar a uma busca pela aliança com a centro-direita e com a elite econômica, mas a militância continua mantendo uma postura radicalizada. Temos aí um dilema colocado: enquanto tenta costurar alianças com setores da direita e do empresariado, a militância continua radicalizada. É esse dilema que está colocado quando vemos Lula tentando costurar pontes com FHC enquanto o PCO (que hoje não passa de uma corrente externa do PT) agride militantes do PSDB em protestos contra Bolsonaro com aplausos de parte da militância petista na internet.


A situação agora indica haver um jogo duplo sendo feito: discurso radical para a militância e postura centrista e moderada por parte do Lula. As agressões nos atos não foram só direcionadas a militantes do PSDB, mas também contra militantes do PDT em Florianópolis e no Rio de Janeiro. Justamente um dia após a presidente do PT declarar que Ciro Gomes é “jagunço da direita” e que é “pior que Bolsonaro”. Isso não é coincidência. Na ausência de resposta direta às críticas do ex-ministro, o PT, para a sua militância e só consegue oferecer uma resposta na base do radicalismo que foi construído desde 2016.


Com tudo isso, como o PT vai conseguir segurar esse dilema? Vai dar certo o radicalismo retórico enquanto o partido busca alianças com parte dos “golpistas” de 2016? Como o partido vai fazer com parte da sua militância, que parece disposta a defender a violência física como tática política enquanto precisa, com certa urgência, construir Lula novamente como um político de centro?

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