• Pedro Henrique Máximo Pereira

A quem interessa o identitarismo? (Parte I)

Atualizado: Jul 9

É preciso falar sobre o identitarismo. Este pequeno vocábulo se tornou recentemente tema relevante nas discussões políticas e suas repercussões têm abalado as estruturas dos partidos e de algumas ramificações de organizações sociais. Seu significado é ainda confuso e tem sido utilizado como arma, seja para exacerbação de discursos reivindicatórios apaixonados, seja para abafar ou diluir o importante debate sobre as minorias.


Esta, por si só, já é uma justificativa suficientemente forte para pautar este tema na coluna Cultura do We. Seus desdobramentos são amplos, complexos e profundamente contraditórios no seio da cultura. É sobre este recorte que tentarei esboçar algumas respostas possíveis à pergunta colocada como título deste ensaio.


Para tal e dada a agudez do tema, opto por dividi-lo em três textos. Neste primeiro texto procurarei alinhar com vocês, leitoras e leitores, alguns significados de termos importantes deste debate: identitarismo e minoria social.


A grande ilusão do identitarismo


Identitarismo situa-se no campo minado da guerra das identidades historicamente fabricada entre ricos e pobres. Os ricos de outrora tinham, por representação social, cor, orientação sexual, religião e gênero bem definidos, assim como os pobres. Isso delimitava o modo como cada indivíduo era tratado e suas características indicavam o lugar que ocupavam na divisão social do trabalho e na própria sociedade.


Contemporaneamente, o cenário da guerra pouco se alterou, mas as estratégias para o enfrentamento das batalhas foram profundamente modificadas. Nos situamos aderidos mais que nunca à luta de classes, pejorativamente categorizada como “velha” e “ultrapassada”, mas não nos organizamos mais como uma classe unitária de trabalhadoras e trabalhadores.


Neste contexto, o identitarismo surge como uma força de revés. Representa a exacerbação dos traços individuais identificados coletivamente no interior dessas batalhas, onde compreende-se que o conjunto das forças das organizações sociais são insuficientes para a garantia do acesso das minorias sociais ao trabalho, aos bens de consumo e à proteção à própria vida. No identitarismo, a identidade de minoria da classe trabalhadora é superada pela identidade de minoria étnico-racial, de gênero, de religião e de sexualidade. Inverte-se as pautas.


À luz da história essa mudança de estratégia é compreensível e explicável. As conquistas históricas da classe trabalhadora não tiveram plena permeabilidade social e em muitos casos não alcançavam os estratos minoritários mais profundos. No entanto, a grande ilusão do identitarismo é, conforme Ulrich Beck[i], que “a individualização e a diversificação das situações e estilos de vida que ilude o modelo hierárquico de classes sociais” seja efetivo. Pelo contrário, como consequência, a tendência é que as “identidades e vínculos subculturais de classe” sejam “diluídos ou dissolvidos”.


Tal mudança protagonizada nos Estados Unidos na década de 1970 foi, ao mesmo tempo, um ato afirmativo e uma armadilha[ii]. O ato afirmativo colocou as identidades no front da luta de classes. A armadilha é que não há uma estratégia conjunta para o enfrentamento político e social contra as assimetrias sociais que este mesmo ato afirmativo procurava enfrentar.


Recuperando o conceito de minoria social


“As minorias têm que se curvar às maiorias”, disse Jair Bolsonaro em um encontro com seguidores na Paraíba, em fevereiro de 2017. Esse evento ficou marcado, para os intelectuais brasileiros, como o ápice do despreparo do então pré-candidato à presidência da República. No entanto, para os conservadores, tal frase soou como música. Para os populares também.


Evocava-se naquela ocasião a defesa do Estado cristão em detrimento do Estado laico. O conceito de minoria foi ali expresso em seu sentido literal, numérico e quantitativo, mas, de modo perspicaz. A reinvindicação era correspondente entre o número de nacionais cristãos e sua representatividade política, o que, naquele contexto, aniquilou as diversas nuances sociais que tal conceito representa.


Minoria Social ou Minoria Sociológica, diferentemente do sentido atribuído por Bolsonaro naquela ocasião é, em síntese, uma categoria analítica das Ciências Sociais que expõe exatamente o estrangulamento representacional, os graus de vulnerabilidade que seus integrantes são submetidos e o quão marginalizados são, do ponto de vista da organização social. A título de exemplificação, a maioria da população brasileira é constituída por mulheres, mas sua representatividade política e social e altos graus de vulnerabilidade as colocam como minorias sociais. Com a classe trabalhadora ocorre o mesmo. Os trabalhadores e trabalhadoras são maioria numérica, no entanto, têm pouca representatividade política e alguns estratos da classe trabalhadora estão submetidos a altos graus de vulnerabilidade e marginalização.


Interessante observar neste contexto de ampla confusão que o identitarismo surge como uma força motriz notadamente vinculada à esquerda, por sua constate ponderação e luta em relação às identidades das minorias. No entanto, as maiores ações apologéticas às identidades foram protagonizadas por Bolsonaro, nessa e em outras muitas ocasiões. Enquanto o identitarismo foi diretamente vinculado às pautas das minorias, o grande identitário das eleições de 2018 foi aquele que mais criminalizou sua existência. Ao mesmo tempo, refreava-se o fluxo de compreensão do termo “minorias” como uma categoria analítica, sociológica e histórica. É necessário retomá-lo para estancar o fluxo dessa confusão!


Identitarismo à direita e à esquerda


Silvio de Almeida[iii], na apresentação ao livro de Asad Haider, Armadilha da identidade, nos indica que há uma dupla eficácia do identitarismo como armadilha: ele serve à direita e à esquerda antirrevolucionária (e antirreformista – acrescento).


À direita eclode um nacionalismo exacerbado e uma afirmação de raça, sexualidade e religião. À esquerda o identitarismo como armadilha se revela quando a identidade está em suas pautas ou quando ela se recusa a discutir as identidades.


No próximo texto analisaremos com mais profundidade como esse identitarismo se dá à esquerda e à direita à luz dos acontecimentos na cultura política recente.


[i] BECK, Ulrich. Sociedade de Risco: rumo a uma outra modernidade. São Paulo: Editora 34, 2011 (1986), p. 114. [ii] HAIDER, Asad. Armadilha da identidade: raça e classe nos dias de hoje. São Paulo: Veneta, 2019. [iii] ALMEIDA, Silvio Luiz. Prefácio da edição brasileira. in: HAIDER, Asad. Armadilha da identidade: raça e classe nos dias de hoje. São Paulo: Veneta, 2019, p. 13-14.


Imagem de capa: DUAS Figuras em Azul. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2020. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra1865/duas-figuras-em-azul>. Acesso em: 18 de Dez. 2020. Verbete da Enciclopédia. ISBN: 978-85-7979-060-7

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