• Christian Velloso Kuhn

O IDH e o subdesenvolvimento humano no Brasil

Atualizado: Jul 24

Christian Velloso Kuhn

Economista e professor do Instituto PROFECOM


Recentemente, diversas reportagens noticiaram o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), apurado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) referente ao ano de 2019. O Brasil teria caído cinco posições desde 2018, da 79ª para a 84ª colocação entre 162 países. Não obstante essa queda, o Brasil teve um ligeiro crescimento, passando de 0,762 para 0,765 em 2019. Como caímos no ranking do índice, nossa evolução tem sido muito lenta para acompanhar os demais países.


Quanto às dimensões que compõem o índice de 2019, em comparação a 2018, a expectativa de vida subiu de 75,7 para 75,9 anos e a renda per capita anual de US$ 14.182 para US$ 14.283 (chegou a US$ 14.775 em 2015). Mas é na educação que registramos os piores resultados. A expectativa de anos na escola estagnou em 15,4 anos desde 2016. Já a média de anos de estudo da população brasileira se elevou de 7,8 em 2018 para 8 anos em 2019.

Ainda que nosso desempenho no índice geral se situe entre os países de alto desempenho, quando consideramos a desigualdade econômica, o país perde 20 posições no ranking, com diminuição do IDH para 0,570 (queda de 25%).


O Brasil tampouco se sai bem no Índice de Desigualdade de Gênero (IDG), com perda de seis posições, ruindo para a 95ª colocação. A despeito da maior expectativa de vida e do tempo na escola das mulheres, em relação aos homens, ainda recebem apenas 58% da renda destes últimos. Finalmente, outro indicador criado, o Índice de Desenvolvimento Humano Ajustado às Pressões Planetárias (PHDI), que ajusta o IDH conforme o nível de emissões de dióxido de carbono e do volume de recursos naturais usados pela população, o País ficou com 0,710, nos posicionando na 74ª colocação. Porém, com o desmatamento desenfreado no Brasil, corremos sérios riscos de comprometer consideravelmente a sustentabilidade ambiental proporcionada naturalmente ao país.


Além disso, segundo o professor Flávio Comim[i], como o PNUD recalcula o IDH do ano anterior com dados mais atualizados, na verdade, a colocação do Brasil em 2018 permaneceu a mesma do ano seguinte (84º lugar). Outra ressalva de Comim é que a despeito de ter se mantido na mesma posição, alguns países, como Colômbia, Ucrânia e Peru, ultrapassaram o Brasil na colocação geral. De acordo com o professor, “o desenvolvimento humano do Brasil tá atrofiado em relação a alguns países de referência” da América Latina. Quando se considera a desigualdade, ainda segundo o economista, as perdas provocadas por esse fator se elevaram de -37% para -41%, o que demonstra um peso maior da dimensão renda no IDH, sendo mais representativa entre os países ricos do que os pobres.


Finalmente, Comim conclui que nos últimos quatro anos (2016-2019), reduzimos um ano de estudo, possuímos a metade do nível de educação adulta dos países desenvolvidos e 1/3 da renda média desses países. Infelizmente, com o advento da pandemia da COVID-19 e as políticas brasileiras nas áreas da educação, saúde, renda, social e meio ambiente, as perspectivas para o Brasil é de piora ainda mais no nosso IDH, e consequentemente, recrudescimento no nível de pobreza, desigualdade e subdesenvolvimento socioeconômico.


Ou seja, se as perspectivas brasileiras não são animadoras para o ano atual, nossa tendência de subdesenvolvimento humano é percebida pelo menos desde 2016. Sem políticas direcionadas para reverter essa tendência, o que não tem sido visto pelo Governo Bolsonaro, com sua inércia e inépcia que lhes são peculiares, lamentavelmente deveremos assistir uma trajetória de deterioração das condições socioeconômicas de nossa população nesses e nos próximos dois anos.

[i] https://brasil.estadao.com.br/noticias/geral,analise-nao-estamos-apenas-estagnados-no-idh-estamos-atrofiando,70003552341.

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