• Plínio Tenório

O pior momento da pandemia e o deserto de ideias brasileiro


Por Plínio Tenório

Bacharel em Ciência e Tecnologia (Unifesp) e Mestre em Engenharia Espacial (Inpe)

No dia que escrevo esse artigo o Brasil acaba de atingir mais um triste recorde, 1.910 mortes por Covid-19 em um único dia. Esse número deveria nos obrigar a refletir sobre a situação do nosso país, em como nossa população está anestesiada pelo caos humanitário, sanitário e econômico, mas o debate está obstruído. A razão da obstrução é puramente ideológica, faz parte do modus operandi tipicamente autoritário. Parece que o corpo inerte da nacionalidade brasileira perdeu a capacidade de fazer sinapses. A quantidade de debates sem sentido sendo televisionados, pautas no congresso completamente desconectadas da realidade e uma propaganda em defesa de uma agenda reformista falida.


Vejam há que ponto chegamos, para financiar o auxílio emergencial o Paulo Guedes quer tirar dinheiro da saúde. A mesma saúde que está no limite, mesmo em estados com grande capacidade hospitalar, como São Paulo. O contra senso é tão grande que chega a ofender quem tem capacidade de abstração. Basta ler ou assistir qualquer jornal que você verá defensores da proposta que, em geral, chamam de ajuste fiscal, um nome bonito para tirar o financiamento da saúde, educação e demais serviços públicos. Acontece que antes do ajuste precisa combinar com o vírus a quantidade exata de pessoas que vão precisar do hospital, só assim para ficar dentro do orçamento, ou reescrever a constituição e tirar o direito à saúde dos brasileiros, me parece mais fácil se acertar com o vírus nesse caso.

Não para por aí, olhem a agenda do congresso: autonomia do banco central e PEC da impunidade, além disso a CPI para investigar os crimes do presidente e ministro da saúde está parada. Não houve votação do orçamento de 2021 (escrevo este texto em março), não conseguiram fazer pressão para o governo comprar vacinas, não estenderam o período de calamidade. Você ainda terá o desprazer de ver deputados e senadores na redes palpitando sobre essas matérias pouco relevantes para o momento, como se a forma que o banco central é administrada fosse resolver a pandemia global.


Ainda tem aqueles que estão ávidos, implacáveis, teorizando alianças e quadros para eleição de 2022. Como se fosse razoável conviver com o coronavírus solto e matando centenas ao dia até a decisão da próxima eleição.


Não faço referência aos anônimos que estão nas redes sociais comentando e militando por candidatura a ou b, me refiro aos que ocupam espaço no debate público ou posições de poder, esses que não perdem a oportunidade de falar sobre a próxima eleição, nesta está incluso o próprio Presidente da República.


O debate público precisa ser reaberto ou ocupado por vozes com capacidade crítica, que possam conjecturar soluções para a urgência viral e se não fosse pedir muito, gostaria que os dizeres da Maria Bethânia em sua live fosse um mantra na cabeça de cada um que tem voz no debate público e dos políticos: "Eu quero vacina, respeito, verdade e misericórdia". Só com vacina, respeito à vida e a dignidade humana é que vamos superar essa crise.

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