• Samuelson Xavier

O Trabalhismo é a segunda abolição


Por Samuelson Xavier


1. Ser Negro


Estou escrevendo no 13 de Maio do Ano 2021, no fim de uma tarde nublada da Fortaleza chuvosa. Sou uma pessoa de 25 anos, cabelos grandes e cacheados se hidratados ou apenas crespos quando ressecados, minha pele tem quase o tom do papel pardo e da fita gomada dos Correios, tenho o nariz grande e achatado, lábios só levemente carnudos, os meus ancestrais e parentes têm faces tão diversas que não saberia descrevê-los em um só retrato. A síntese da minha aparência quanto a origem étnica e fenótipo é “ser negro” no Brasil.

O fato de “Ser Negro” no Brasil, de viver uma existência negra, me obriga todos os dias e cumulativamente uma reflexão a mais sobre o que sou e o que é o mundo ou o que é o Brasil. Não acho que o sentimento da injustiça esteja em todas as pessoas do mesmo modo, mas o povo negro tem em sua tradição difusa uma ideia comum, uma queixa onipresente: Nascemos em um lugar que não nos quer!


2. Carne e Queijo


Vamos ilustrar. Hoje saíram às ruas de Salvador manifestantes negros lembrando que há dias atrás, em 26 de Abril, Bruno e Yan Barros foram torturados e mortos, tio e sobrinho, não pela tentativa de furtar quatro pacotes de carne com os quais poderiam alimentar suas famílias por alguns dias neste período de isolamento social, mas pela existência negra que tinham, porque a segurança e gerência do supermercado Atakarejo não reconheceram valor nas vidas dos dois rapazes. E então, decidiu-se entregar os rapazes à tortura e pena de morte executada por membros de uma organização criminosa.


A condenação à pena de morte sem julgamento de indivíduos negros, ou de coletividades inteiras, tem sido regra no Brasil. Seja pela violência letal, ou pela fome e doença, como hoje acontece quando o governo racista do Brasil nega a cesta básica e a vacina para o povo negro. Continuamos intencionalmente sem o auxílio emergencial necessário e sem a essencial vacinação, intencionalmente por força do governo brasileiro. Também a polícia brasileira, a mesma que faz bicos de segurança nos supermercados, a que mais mata e mais morre no mundo, tem por vítimas quase sempre pessoas negras.

Opondo-se ao exemplo anterior, uma mulher branca chegando chique num Jeep Compass, entrou na delicatessen Casa do Pão em Salvador também, furtou um queijo. Os funcionários viram, o dono foi avisado, as câmeras registraram. Ela foi até o caixa, pagou por um outro produto e saiu anônima. O empresário disse: Isso acontece direto. O que eu percebo muito é que não costumam ser pessoas que fazem por necessidade, mas sim por outras questões. Acontece sempre gente chegar lá de carro, dirigindo e furtar produtos. E acrescentou que a razão porque as pessoas não são abordadas é por “um receio de gerar constrangimento”.


Carne e Queijo. Carne barata e Queijo fino. A Carne Negra é a carne mais barata do mercado, canta Elza Soares. Quando o corpo é negro não existe “receio de gerar constrangimento”; quando o corpo é negro a pessoa pode ser espancada até a morte como foi João Alberto Silveira Freitas no Carrefour; ser assassinado dentro de casa como foi o menino João Pedro em uma casa roída por mais de 70 tiros; pode ter o carro fuzilado com mais de 80 tiros enquanto vai com sua família a um chá de bebê como foi assassinado o músico Evaldo dos Santos Rosa; pode ser agredido, sequestrado e torturado pelos seguranças da instituição de ensino onde estuda como foi o meu amigo, Luiz Fernando. E os acontecimentos se acumulam e são relativizados, são esquecidos, isso mesmo quando vão a público o que é raríssimo.

A pobreza só potencializa a violência e a violência só aprofunda a pobreza, já o racismo é a correia de transmissão social da pobreza e da violência. As chances da pobreza e da violência atingirem um negro brasileiro desde o momento que nasce até o fim de sua vida são bem maiores que as chances de um para-raio radioativo ser atingido por um raio em uma tempestade de verão especialmente quente.

Ser negro no Brasil é ser visto como pós-escravo, sujeito perigoso, pobre, vítima agressiva à sociedade. Ser Negro no Brasil tem sido carregar o Estigma e Herança de 1888. A forma da Abolição criou o Pós-Abolição. A Lei Áurea não passa de 21 palavras, mas a consequência foi atirar o Brasil Negro ao abandono e à matilha. Anistiou o senhor de escravos e condenou o povo negro a um Brasil sem Justiça.


O período posterior ao 1888 da Lei Áurea, os negros têm chamado de Pós-Abolição. O período que não deu fim a servidão e a segregação reais, mas constituiu a falsa noção de “Democracia Racial”. O Brasil nunca viveu uma democracia plena dentro dos poucos anos que não viveu ditaduras quaisquer que fossem, muito menos já possuiu uma “Democracia Racial”. Quanto a mim, eu não quero a “Democracia Racial”, mas a SOCIEDADE SEM RAÇAS que é a sociedade sem racismo, verdadeira utopia de humanidade



3. Segundo Sol


Abolir a segregação racial, criminalizar a violência racial, coibir o racismo em todas suas manifestações como princípio para a construção de um sentimento nacional e de uma identidade nacional que contemple o povo brasileiro qual a maioria é negra. Esse foi o grande compromisso de Vargas e do Trabalhismo! O Brasil só reconheceu o negro como sujeito de trabalho e cultura com Vargas e os Trabalhistas no Poder, com exemplos que vão da CLT à descriminalização dos costumes do povo negro e criminalização do racismo em legislações tantas.


Por isso, o Trabalhismo virou o Lar de Abdias Nascimento, de Caó, de Edialeda Salgado, de Lélia Gonzalez como de muitos outros militantes históricos da Luta Negra. O Trabalhismo vê a causa negra como causa do Interesse Nacional, e pôs junto a causa da emancipação geral dos brasileiros da dominação externa, a causa da libertação dos negros brasileiros de sua condição herdada da escravidão e reproduzida pelo sistema social racista que emoldura a totalidade da cultura brasileira. Resumindo, é radicalmente anti-imperialista e antirracista.


Brizola ao lado dos trabalhistas negros trabalhou para aperfeiçoar essa ideia: O Trabalhismo é a Segunda Abolição, O Trabalhismo é a Segunda Independência. Abdias, Caó, Edialeda e Lélia puseram essa ideia em livros e leis. Nossa ideia coletiva é lembrar que se a nação brasileira tem um forte partido histórico anti-imperialista e antirracista. A tradição trabalhista nacional é a tradição nacional da libertação popular.


Os primeiros trabalhistas são filhos da causa da primeira abolição e estavam já a servir a causa da segunda abolição. Tentaram tirar os negros da condição de escravos sem senzala com a regularização e formalização do trabalho livre, e depois começaram a lutar para garantir ao negro sua cidadania integral. Mas a luta do Trabalhismo Brasileiro no século XXI irá longe. Deve realizar a Revolução Industrial Brasileira e socializar os lucros da produção brasileira, fazendo a máquina servir ao cidadão no lugar do negro servir ao branco, dando fim ao trabalho precário e desgastante.


A nova indústria será fundamento à Democracia Real que tem a vida humana como questão e a ciência como solução. Deve tirar a mulher negra da condição superexploratória do trabalho doméstico e do trabalho adotivo como múltiplas jornadas, de ter que cuidar de casa e filhos sem poder cuidar nunca de si. Democracia para a mulher negra será ter seus filhos em instituições de tempo integral enquanto ela mesma pode estudar, trabalhar ou usufruir do tempo livre e ter renda para adquirir as máquinas que estão substituindo as pessoas no trabalho de casa.

O Trabalhismo Brasileiro deve refundar as instituições brasileiras para que se vejam livres do racismo institucional, pondo assim o negro na condição de igual diante o poder público, puro cidadão. Isso é transformar as cidades da Infraestrutura à Superestrutura e vice-versa. Isso é entender o que é de fato a estrutura racista e mobilizar o povo para superarmos a segregação social


O Treze de Maio é a data para lembrarmos da luta e do luto que atinge a maioria negra do país, maioria com qual o trabalhismo firmou um compromisso e que proclamamos da seguinte maneira:


O TRABALHISMO É A SEGUNDA ABOLIÇÃO;


O TRABALHISMO É A SEGUNDA INDEPENDÊNCIA.


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