• Pedro Henrique Máximo Pereira

O velho Bauman estava certo!


por Pedro Henrique Máximo Pereira

Arquiteto e Urbanista. Doutor em Arquitetura e Urbanismo (UnB). Professor e Pesquisador (UEG e PUC-Goiás).


Como os bons vinhos, os melhores livros são aqueles que envelhecem bem, que transcendem o tempo da escrita para os tempos vindouros e, ainda que datados, carregam uma mensagem potente para a posteridade. Um bom livro passa pelo crivo dos críticos, não é imune a julgamentos, mas, em razão de seu conteúdo, sobrevive e resiste às armadilhas que o tempo histórico nos impõe em suas transformações constantes.


Famoso globalmente por Modernidade Líquida, Zygmunt Bauman, falecido em 2017 aos 91 anos, nos deixou um imenso acervo sociológico e filosófico como herança. Sua fase “líquida”, mais recente, é uma fratura poderosa nas muralhas que separam universidade e sociedade; um óbvio aceno aos mais jovens; um convite com linguagem fácil aos mundos possíveis revelados pela sociologia e, principalmente, um conjunto de cartas endereçadas a amigos distantes, desconhecidos e ainda por conquistar.


Mesmo depois de sua morte, Bauman continua a fazer amizades, companhias fiéis na longa jornada da compreensão do mundo graças a seus livros que envelheceram bem e resistiram às armadilhas do tempo histórico. É possível discordar de seus pensamentos, contrapor seus argumentos, levantar hipóteses outras e negar veementemente que estamos vivendo no mundo líquido-moderno; mas, não é possível afirmar que Bauman e suas angústias traduzidas em textos não sejam uma boa companhia.


Embora Modernidade Líquida e a fase “líquida” de Bauman estejam sempre em destaque, uma de suas obras que melhor envelheceu foi Modernidade e Holocausto, publicada originalmente em 1989. Vencedora do Prêmio Amalfi como melhor livro de sociologia da Europa naquele ano, Modernidade e Holocausto nos traz uma mensagem potente que devemos, diante das adversidades impostas pela Covid-19 e o governo Jair Bolsonaro, resgatar.


Para Bauman, após o Holocausto deveríamos criar um conjunto de mecanismos imunológicos à cegueira moral (para prevenção e defesa) imposta pela racionalidade alienante e burocracia estatal modernas, que naquele contexto era circunstanciada pelo nazifascismo, mas que ainda não estaria extirpada. Somente este conjunto de mecanismos imunológicos poderia inviabilizar que horrores análogos ao Holocausto se repetissem em outras localidades, contra outros povos e etnias, e, obviamente, em outros formatos respaldados por outras justificativas e conteúdo.


Para chegar a tal conclusão, nosso velho amigo Bauman estabeleceu por hipótese que o Holocausto não foi uma imensa pedra no caminho reto da modernidade, não foi um passo para trás no processo evolutivo da sociedade ocidental ou muito menos um surto irracional da humanidade, característico das sociedades pré-modernas. Outra importante consideração é o fato de que o Holocausto não foi somente uma “tragédia judaica”.


Essas duas visões aparentemente assustadoras são reconfortantes para a atmosfera social universal, pois guardam a promessa de uma autocura rápida. Colocar o Holocausto como um fenômeno bilateral entre alemães e judeus nos exime de culpa e responsabilidade sobre o terror ali produzido. No entanto, esse distanciamento tácito não passa de uma perigosa cegueira pós-Holocausto potencialmente suicida.


A primeira, guarda por princípio a negação de que o Holocausto nasceu, foi planejado e praticado no auge da civilização moderna, e era, portanto, um problema a ser enfrentado por esta civilização. A segunda, direciona os horrores do nazismo a um grupo marcado para morrer, mas encobre o fato de que 6 milhões de judeus foram aniquilados a mando de Hitler, mas o total de assassinados ultrapassou a marca de 20 milhões.


Como explicar tais números? Quem ousaria fazê-lo a fim de subtrair do curso da autocura social as duas visões ao mesmo tempo assustadoras e reconfortantes?


Parte considerável da população brasileira tem optado por seguir a lógica da rápida autocura, ao mesmo tempo assustadora e reconfortante, no desenrolar da pandemia da Covid-19. Uma parte compreende Bolsonaro e sua gestão atrapalhada - mas ao mesmo tempo planejada -, como uma loucura, uma pedra gigante no curso da nossa história recente que, se removida pelo Impeachment ou nas eleições de 2022 tudo voltará ao normal, tudo será como era antes, lindo e belo.


Uma segunda parte se tranquiliza e se orgulha ao saber que não digitou 17 nas urnas e confirmou. Diante do espelho, no entanto, não enxerga nada além do “ele não” e, ainda que em sofrimento, opta por aguardar o tempo passar.


Uma terceira parte, mais aguerrida e cega, se convence que mais de meio milhão de mortos se deu em decorrência da avassaladora presença do coronavírus em nosso território e que não havia nada a ser feito. No entanto, caiu na pegadinha do “não serão mais que 800 mortos”, “meu histórico de atleta”, “a pandemia não durará até julho de 2020”, e ainda continua a gargalhar quando o Presidente diz que não é coveiro ou imita uma pessoa sem ar com Covid-19.


As três posturas não ajudam a enfrentar o problema e a condição sociopolítica que repousa sobre nossos ombros. A primeira opta pelo caminho mais fácil. Aquilo que aparentemente está fora do normal é reconhecido como loucura. No entanto, os loucos não pagam pelo mal que fizeram como os sujeitos sãos. Tampouco removida a pedra do curso da história recente tudo voltará ao normal. Jamais voltaremos ao normal! As feridas abertas demorarão a fechar, e ainda que fechem, as cicatrizes ainda estarão ali. Além do mais, o antigo normal era péssimo e pré-condição para estarmos onde estamos; mas agora o louvamos, porque a situação atual é indizível. A questão central não é Bolsonaro, mas a ideologia que ele incorpora e que agora está amplamente disseminada e distribuída como pólvora pelo território nacional. É preciso desarmá-las! A segunda é covarde. Não é preciso argumentar mais que isso! A terceira, sintoma forte da ideologia bolsonarista, é consequência direta daquilo que Bauman alertou (mas não somente ele) sobre os perigos que a ausência de mecanismos preventivos poderia trazer ao corpo social. Nega veementemente o problema central, foge de suas raízes, obscurece o debate e ri da maior piada de mal gosto já contada.


Nosso velho amigo Bauman estava certo! Primeiro, porque aliados ou não, o problema não é circunstanciado ou contingenciado a um grupo, mas geral, generalizado, humano e social. Segundo, porque a ausência de mecanismos imunológicos é pré-condição para uma avassaladora presença de Vírus e vírus mortais. Terceiro, porque se não encontrarmos as razões para estarmos onde estamos, qualquer caminho serve, qualquer direção nos parecerá viável, inclusive o retorno ao passado, o lindo e belo normal, que hoje propagam os saudosos como o paraíso perdido que devemos reencontrar.


Explicações simplórias sempre nos apresentarão uma versão reduzida do problema e, consequentemente, um diagnóstico equivocado das origens desse problema. Bauman, ao analisar o Holocausto como uma face da modernidade antes linda e bela, nos deixou uma potente mensagem que provavelmente seguirá sendo difundida pelas próximas décadas ou séculos. Como um bom vinho, Modernidade e Holocausto envelheceu bem! E Bauman, nosso velho e saudoso amigo, se mostra mais útil e necessário do que nunca!

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