• Pedro Henrique Máximo Pereira

Os silêncios de Auschwitz

Atualizado: Jul 9

Os silêncios de Auschwitz é um relato de uma experiência turística no maior campo de concentração nazista.

Pedro Henrique Máximo Pereira

Arquiteto e urbanista, Doutor em Arquitetura e Urbanismo (UnB) e professor (UEG, PUC-GO e UniEvangélica)

Um dos dias mais esperados de minha última viagem para a Europa nascia há exatamente um ano. Dia 09 de janeiro de 2020, uma quinta-feira, saímos do pequeno e elegante Hotel 32, situado no centro de Cracóvia, rumo a Oswiecim, rebatizada pelos alemães nazistas no contexto da Segunda Guerra como Auschwitz.


Após uma noite fria de -3ºC, típica do inverno polonês, tomamos um café da manhã reforçado no restaurante do hotel. No itinerário com início às 9:00 não estavam previstas paradas para almoço ou lanches. Uma preparação era necessária!


O dia nasceu nublado por volta das 7:30 a uma temperatura de aproximadamente 1ºC. Na recepção fomos informados que o tempo estava bom, pois não havia nevadas ou temperaturas extremas. O gentil recepcionista de aproximadamente 30 anos de idade nos contou que, quando criança em períodos de inverno, tempestades de neve eram intensas, comuns e chegavam a acumular cristais de gelo a quase um metro de altura nas ruas da cidade e pastagens da região. Tivemos sorte! Na noite anterior havia chovido bastante e geou, mas não chegamos a ver neve na Polônia, embora essa talvez tenha sido a chuva mais gelada que já tocou minha face.


Vista do quarto do Hotel 32 em Cracóvia no dia 09/01/2020 antes da visita a Auschwitz. Fonte: Pedro Henrique Máximo, 2020.


Às 9:00 em ponto a van que faria o trajeto de aproximadamente 70 km já nos aguardava à porta do hotel. Nos juntamos aos demais. Havia russos, holandeses, chineses, estadunidenses, italianos e dinamarqueses ali. A viagem de uma hora aconteceu em silêncio, como numa procissão. A origem dos visitantes só conhecemos durante o percurso em Auschwitz-Birkenau ou no retorno a Cracóvia ao final do dia. Até a chegada ao maior campo de concentração nazista não falamos nada e não ouvíamos ninguém.


A chegada em Auschwitz


Nossa incursão em Auschwitz estava programada para ter início às 10:30. Já em Oswiecim por volta das 10:00, uma aura de tristeza pairava sobre a cidade e seus arredores. O céu nublado, a paisagem pantanosa e a umidade da região após uma noite chuvosa reforçavam essa atmosfera.


Igreja de Da Santíssima Trindade em Bobrek (visinha a Oswiecim) e paisagem de Oswiecim. Fonte: Pedro Henrique Máximo, 2020.


Ao chegarmos no campo de concentração principal nos surpreendemos com um amplo estacionamento arborizado em frente ao primeiro barracão (como eram nomeados os edifícios), o maior de todos eles, utilizado no contexto da Guerra para recepção e registro dos prisioneiros. Neste edifício estão situadas as instalações que utilizamos nos primeiros minutos de preparação inicial: uso de sanitários, lanchonete e acesso à fila da visita guiada.


Edifício de acesso a Auschwitz, o maior de todos eles, e o amplo estacionamento arborizado que o antecede. Fonte: Pedro Henrique Máximo, 2020.


À primeira vista o conjunto de Auschwitz é de paisagem inofensiva, semelhante a um pequeno vilarejo de edifícios típicos da Alemanha construídos em alvenaria de tijolos aparentes. Antes da chegada dos nazistas em maio de 1940, no local existiam edifícios de madeira construídos durante a Primeira Guerra pelo Império Austro-Húngaro e que funcionavam como um quartel da artilharia do exército polonês. A região de Oswiecim era de interesse dos nazistas, pois nos arredores da cidade se encontra a maior jazida de carvão da Europa, minério fundamental para a expansão da indústria alemã.

Paisagem do acesso aos barracões de Auschwitz.

Fonte: Pedro Henrique Máximo, 2020.


Auschwitz foi planejado para receber 10 mil prisioneiros e deveria funcionar como uma Vila Operária “modelo”. Os prisioneiros ali encarcerados encontrariam na inscrição do portão de acesso "Arbeit macht frei" ou em português “O trabalho liberta”. Foi isso que lemos ao atravessá-lo. Lembro-me bem das poças de lama no percurso e de constantemente me questionar: por que este lugar é tão inofensivo e agressivo ao mesmo tempo?


Portão de Auschwitz com a inscrição "Arbeit macht frei" ou em português “O trabalho liberta”. Fonte: Pedro Henrique Máximo, 2020.


O leitor ou leitora deve estar achando essa inquietação no mínimo estranha. Acreditem, foi o que senti e vivi naquela circunstância. O peso da história entrou em conflito com aquelas ruas quase pitorescas. Minha visão alcançava uma vila, mas os meus pés me lembravam onde estava pisando.


Auschwitz, o interior do condomínio de escravidão


Os edifícios situados no interior do cercado de arames eletrificados possuíam 4 pavimentos (subsolo, térreo, primeiro andar e sótão). Estes estavam dispostos em sequência, todos iguais. O que os diferenciavam eram suas numerações: 1, 2, 3... A distância entre os barracões era a mesma e adequada para uma boa iluminação dos ambientes internos. A falta de salubridade, característica da história que esse espaço protagonizou, se dava pela superlotação dos quartos e a condição precária submetida aos prisioneiros.

A arquitetura e paisagem dos barracões de Auschwitz.

Fonte: Pedro Henrique Máximo, 2020.


Para ver como viviam, entramos num desses barracões. No corredor de acesso, fotos dos prisioneiros em todas as paredes. Homens, mulheres, crianças; jovens e idosos. Todos iguais: cabeças raspadas, excessivamente magros e com o mesmo uniforme listrado. A desumanização das vítimas era uma técnica comum dos nazistas. Suas aparências eram deformadas e padronizadas, mas seus olhos não se submeteram a este processo. Os olhos dos prisioneiros falam, e falam muito! No rodapé das fotos estavam os nomes, nacionalidades e datas de nascimento e morte. Todos morreram ali naquelas instalações.


No interior deste barracão as portas de acesso aos ambientes estão lacradas. Não é possível acessá-los, somente vê-los por uma abertura envidraçada nas portas entre as paredes repletas de retratos. As cenas são terríveis! Jamais esquecerei os sacos de linho preenchidos com cabelos e transformados em colchões; os beliches, um ao lado do outro, grudados; os sanitários e banheiros superexpostos. No primeiro pavimento estavam expostas as provas cabais. Fotografias inéditas do processo de “escolha” dos condenados à morte. Uma verdadeira roleta nazista. Filhos separados dos pais. Os idosos e deficientes considerados “improdutivos” sequer chegavam a se instalar. Eram direcionados para as câmaras de gás em Birkenau (falaremos dele em outro momento).


As instalações de Auschwitz: Sacos de linho preenchidos com cabelos e transformados em colchões; os beliches, um ao lado do outro, grudados; os sanitários e banheiros superexpostos.

Fonte: Pedro Henrique Máximo, 2020.


À medida que caminhamos por Auschwitz minhas impressões mudaram. Aquela paisagem inofensiva era de uma agressividade brutal. O silêncio era absoluto depois de tanto ouvir o que os olhos dos prisioneiros das fotografias me disseram! Na caminhada somente ouvíamos os passos e, de vez em quando, a voz da guia que não escondia sua emoção ao narrar o que ocorria naquelas ruas e edifícios. Olhávamo-nos, e só! Nenhuma palavra era dita. Engolíamos seco aquela realidade cruel ali presentificada!


Passamos em frente ao barracão 10, conhecido como um dos lugares mais terríveis do campo, onde o médico Josef Mengele fazia seus experimentos com humanos prisioneiros vivos. Não pudemos acessá-lo! Estava fechado em função dos turistas que desrespeitaram a ordem expressa: Proibido fotografar!


Acesso do barracão 10 (10 block) onde o médico Josef Mengele fazia experimentos com humanos vivos. Fonte: Pedro Henrique Máximo, 2020.


Acessamos o barracão 11, o bunker de punições aos rebeldes, local onde foram realizadas as primeiras mortes em massa com Zyklon B nas celas para prisioneiros no subsolo. Só de lembrar do percurso minha alma fica gélida.


Iniciando pelo térreo, vimos mais instalações dos prisioneiros. Dessa vez mais agressivas e completamente desconcertantes. As condições eram inumanas, mas os habitantes transcenderam humanidade mesmo nessas circunstâncias. Ali vimos diversos desenhos nas paredes desses ambientes, verdadeiras obras de arte. Incrível! Além do mais, vimos roupas dos prisioneiros e uma pequena ala para os soldados da SS, com instalações radicalmente diferentes.


No primeiro pavimento o mais chocante! Toneladas de cabelos; milhões de sapatos; malas e pastas devidamente identificadas por seus donos, a maioria judeus; joias, pertences pessoais e íntimos como presilhas de cabelo e gaitas; produtos domésticos como vasilhas, copos, pratos. Inúmeros! Além disso, latas e mais latas vazias de Zyklon B. Não tenho palavras para descrever o que senti!


Latas de Zyklon B utilizados em Auschwitz.

Fonte: Pedro Henrique Máximo, 2020.


Fomos conduzidos, então, ao subsolo. Que experiência terrível! O primeiro teste para transformação das celas em câmaras de gás ocorreu ali com 160 prisioneiros. Nem todos morreram no primeiro lançamento de gás. Os sobreviventes ficaram ali, intoxicados, à beira da morte e agonizando sobre os corpos dos companheiros de cela. Enquanto isso os nazistas observavam do lado de fora das celas por uma espécie de olho mágico. Em nosso trajeto as celas estavam lacradas. Não pudemos acessá-las a não ser repetindo o mesmo ato dos nazistas de olhar pela fenda na porta. Isso me deu enjoo. Consegui fazê-lo somente uma vez!

A saída do subsolo se deu pela lateral, entre os barracões 11 e 10. Ali encontra-se a “Parede Negra” ou “Parede da Morte”, local em que milhares de prisioneiros foram, antes da criação da câmara de gás provisória no subsolo do barracão 11, exterminados a queima roupa. Em frente à parede, silêncio! O silêncio gritava ao ponto de quase causar surdez! Ali todos se posicionaram em meia lua ao redor da parede, numa relutância em se aproximar.


Parede da Morte ou Parede Negra de Auschwitz.

Fonte: Pedro Henrique Máximo, 2020.


Não me contive!


Caminhei até a parede, movimento que, do grupo de turistas que me encontrava, somente eu tive a ousadia de realizar. O curioso é que não consegui acessá-lo de frente. Caminhei por sua lateral esquerda e toquei suas placas de concreto. Frias! Geladas! Úmidas! Silêncio!

Parede da Morte ou Parede Negra de Auschwitz.

Fonte: Pedro Henrique Máximo, 2020.


Fora das cercas eletrificadas de Auschwitz


Após essa experiência de pausas e silêncios tivemos um tempo de respiro. Caminhamos por aproximadamente 10 minutos até as instalações da câmara de gás permanentes. Os testes no subsolo do barracão 11 levaram os nazistas a criar um modo de produção industrial de mortes e construíram uma câmara de gás com fornos para incineração os corpos. No caminho até lá passamos em frente à forca em que Rudolf Höss, comandante de Auschwitz por dois anos, foi enforcado em 1947, no local onde ficava o edifício da Gestapo.


Forca em que Rudolf Höss cumpriu sua pena de morte em 1947.

Fonte: Pedro Henrique Máximo, 2020.


Ao lado avistamos a chaminé que emergia de um talude encoberto por grama. Chegamos à câmara de gás! Silêncio!


Chaminé da câmara de Gás e crematório de Auschwitz.

Fonte: Pedro Henrique Máximo, 2020.


Ali permaneci por mais tempo. Por fora, observei a arquitetura do espaço. Os taludes que encobriam as espessas paredes de concreto eram para abafar o som dos gritos de desespero. Não é possível ouvir de fora o que ocorria ali. A câmara de gás ficava fora do perímetro da cerca eletrificada, ao lado do hospital do campo. Impossível para aqueles que estavam dentro do campo saberem o que ocorria do lado de fora.


Acesso principal à câmara de gás e crematório de Auschwitz.

Fonte: Pedro Henrique Máximo, 2020.


Por dentro da câmara de gás, uma sala escura e úmida. Mais uma vez não me contive e me aproximei das paredes com marcas de unhas e mofo. Estendi o braço e toquei as paredes. Silêncio! Engoli seco. “Essas paredes rígidas precisariam ser arranhadas inúmeras vezes para ficarem as marcas” - pensei. Silêncio! Engoli seco mais uma vez!


Ali os passos dos turistas ecoavam e eram mais altos que do lado de fora. Poucos conseguiram entrar. Muitos esperaram do lado de fora.


Ao lado da sala de gás estava o acesso ao crematório. Um local também escuro e enegrecido pela fumaça e mofo. Para aqueles que conhecem os fornos de queima de tijolos saberão como é. Não tive condições de me aproximar. Afastado, olhava a cena. Silêncio! Pessoas ao redor choravam e muitas não suportaram permanecer ali. Fixei os olhos e ouvia as pausas, os choros, os passos, o silêncio. A essa altura mal conseguíamos nos olhar! Uma vergonha insuportável repousava entre os que ali estavam. Não sei se uma vergonha por sermos turistas e estarmos ali ou uma vergonha do que somos como humanos. Estes sentimentos se misturavam tal qual estão confusos em minha mente agora, um ano depois de Auschwitz.


Saímos deste aparente cenário de filme de terror. O dia nublado de fora nos recobrou a memória de que não era um estúdio de gravações. Era Auschwitz! Silêncio!


Caminhamos para fora do campo de extermínio. Circulamos ao redor das robustas cercas de arame. Silêncio! Impossível dizer algo depois dessa experiência! A imagem da vila desapareceu de minha memória! Não a enxergava mais! Silêncio!



Cerca eletrificada de Auschwitz.

Fonte: Pedro Henrique Máximo, 2020.


Passamos novamente em frente ao portão com a inscrição "Arbeit macht frei". Abaixei a cabeça e olhei atentamente para os meus passos.


- “Quantas pessoas já pisaram onde estou pisando agora?”; “Quantas pessoas que são a razão de eu estar aqui já pisaram no mesmo local que eu?”; “Quantas pessoas como eu, um turista envergonhado, já pisaram neste solo?” – pensei.


Ao sairmos nos deparamos com um belíssimo memorial em totens aos sobreviventes naquele amplo espaço arborizado. Uma instalação singela revelou o rosto envelhecido e a história pós-Auschwitz daqueles que resistiram à morte e conseguiram respirar um pouco do ar de liberdade, ainda que as memórias dos tempos de Auschwitz as tenham aprisionado por toda a vida. Emocionante! Silêncio!


Memorial de Auschwitz.

Fonte: Pedro Henrique Máximo, 2020.


Dalí entramos na van, ainda em silêncio. Já eram aproximadamente 14 horas. Próxima parada, Birkenau, a extensão de Auschwitz criada para receber 100.000 prisioneiros. Mas essa é uma história para outro momento. Foi pesado demais relatar este primeiro momento de minha experiência em Auschwitz. Conto com a compreensão dos leitores e leitoras e espero relatá-la em breve!



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