• Plínio Tenório

Quem compra as vacinas são os governos, não as agências regulatórias


Por Plínio Tenório

Bacharel em Ciência e Tecnologia (UNIFESP), mestre e doutorando em Engenharia Espacial (INPE)

Vimos ser noticiado o surgimento de uma variante do coronavírus em Manaus, chamada de P.1. A nova variante brasileira tem sido motivo de preocupação, pois as mutações identificadas na proteína S do vírus são semelhantes às encontradas na variante britânica, a B.1.1.7, e estudos apontam que essa variante pode ser mais transmissível e mortal do que o vírus em circulação até então na Inglaterra. Estão sendo feitos estudos de prevalência do vírus mutante na população manauara e especula-se que o aumento expressivo de casos em Manaus, que resultou inclusive na falta de oxigênio nos hospitais da capital, seja por conta da disseminação desse novo patógeno.


Nesse cenário potencialmente caótico o Governo Federal age com a maior tranquilidade, inclusive transferindo pacientes de Manaus para outras cidades sem protocolos de risco biológico, assumindo portanto, o risco de espalhar a nova variante por todo o país, o que segundo o ex-ministro da saúde, Luiz Henrique Mandetta, pode gerar uma megaepidemia no Brasil. Não bastasse a displicência com o vírus, a negligência em negociar imunizantes para a população e a retórica de um “tratamento precoce” com um conjunto de medicamentos sem comprovação científica para tal, fomos surpreendidos com o líder do governo na Câmara, deputado Ricardo Barros, falando em “enquadrar a ANVISA” (Agência Nacional de Vigilância Sanitária). A intenção é agilizar a aprovação de imunizantes para Covid-19, com a tentativa de liberá-los para uso sem o crivo da agência, bastando ter aprovação em agências de outros países.


Essa medida seria justificável se a agência estivesse atrasando a vacinação da população e os imunizantes estivessem estocados, o que não está acontecendo. Se quer temos contratos de compra anunciados com fabricantes de vacinas não aprovadas. Ao mesmo tempo começou a campanha de marketing da Sputnik V, todos os veículos de imprensa anunciando a possibilidade de compra e fabricação da vacina em solo brasileiro.


É verdade que os resultados preliminares da fase três foram excelentes, mais de 90% de eficácia para sua versão líquida, mas isso não quer dizer que a aprovação deveria ser via pressão/lobby de políticos. Vale lembrar que estes mesmos parlamentares não se manifestaram em defesa de nenhum outro imunizante, mesmo sendo noticiado que o governo federal declinou a oferta de 70 milhões de doses da Pfizer e outras 60 milhões do Instituto Butantan. Ainda tiveram os testes de fase três feitos pela Jassen no Brasil, aparentemente imperceptível aos olhares congressistas.


Pressionar a Anvisa, ou qualquer outra agência regulatória, por interesses políticos é contraproducente. Agora é momento de pressionar por mais vacinas, pelo auxílio emergencial e pelo manejo decente da pandemia para que a nova variante não se dissemine mais.


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