• Thiago Anastácio

Realidade Irreal


Thiago Anastácio


Com a segunda dose no braço, minha mãe indo morar com meus ancestrais e a pequena Aurora enchendo minha vida de alegria, é hora de retornar aos debates públicos para escrever sem qualquer amarra político-partidária, ou mesmo apego, às ideologias que dividiram o mundo desde o século passado. Sim, aquelas em que a retomada “é um filme ruim e fora de época”, na feliz expressão do Min. Luís Roberto Barroso.


A situação brasileira é espelhada à de muitos países do mundo e estamos vivendo uma roda-viva insana em que jovens do MIT, e outras universidades americanas, não poderiam imaginar o que estavam fomentando ao criarem as redes sociais.


A biografia de todos é bem clara: a ideia era interagir e unir, diminuir distâncias, colocar o menino feio em possibilidade de conversa com a moça bonita (e vice e versa e meninos e meninas, meninas e meninas), mas infelizmente o que aconteceu foi o contrário.


Não bastassem os feudos criados nas bolhas das redes, seus usos políticos foram rapidamente captados pelos marqueteiros e ativistas políticos para achincalharem, através de mentiras e retóricas pobres, aqueles de quem deveriam se aproximar; e estes, num vórtice insano, entraram no jogo e suas diferenças aumentaram a tal ponto de não termos mais o mínimo diálogo.


Quando inimigos comuns são o que unem, o ódio é a argamassa das relações e a nossa falência, apenas uma questão de tempo.


Amigos se tornaram inimigos, políticos próximos (mas de pensamentos diferentes), tornaram-se inimigos. E como não seria assim, se desde a antiga Roma com seu panis et circenses sabemos que o gosto popular (das elites aos miseráveis) foi o sangue jorrando na arena, ora transformado no # do babado político de toda semana?


Perde o mundo pela segunda vez. Dividimos o átomo para sabermos sobre ele e para gerarmos energia e... Criamos a bomba atômica.


Agora criamos as redes sociais para diminuirmos nossas distâncias... E nos separamos de uma vez por todas em nossas incalculáveis doses de dopamina.


Sim, é dos estudos das grandes empresas que você se vicia pelos debates das redes pela influência da dopamina, controle químico que traficantes de drogas também aprenderam a usar - e sim, quando você usa drogas, é a dopamina que te traz a sensação de bem estar.


Estamos divididos e entorpecidos e assim não venceremos o horror alimentado pela ignorância dos que foram deixados propositadamente ignorantes. Ou mesmo dos ignorantes por defeitos do caráter, já que estes, que tiveram oportunidades, têm acesso ao mundo da informação e da ciência.


A mentira é o maior desafio da nossa geração e as redes sociais, o seu instrumento que devemos proteger!


Mas por outro lado, precisamos nos conscientizar que quando estamos nas redes, estamos numa Matrix... O que acontece lá não é real, mas um programa no qual se formos mortos lá dentro, também morreremos no mundo da realidade. E isso parece que ninguém entendeu até agora.


Mulheres que têm sido agredidas verbalmente podem sim se sentirem ameaçadas no plano “analógico”, pois os males podem ser instigados e fomentados nas redes e algum lunático trazê-los para o mundo real.


E lembrem-se: com o mundo cada vez mais doente, basta um doente para cometer uma barbárie sem precedentes no mundo real.


Fiquemos atentos e vigilantes!

Chegou a hora de nos distanciarmos um pouco da realidade paralela. Ela foi importante no momento da pandemia para nos iludir de paz junto com os filmes e séries em demanda? Sim, e muito!


Mas precisamos tirar os tubos de nossas colunas e cérebros para fugirmos do mundo irreal e olharmos pela janela da realidade.


Existem pessoas passando fome. Homens e mulheres continuam sendo humilhados e perseguidos por pensarem diferente dos seus perseguidores ou simplesmente, por amarem.

E como resolveremos a mais básica das equações: como um povo passa fome, se o seu país é um dos maiores produtores de alimento do planeta?


Ora, é como se todo o nosso subsolo fosse composto por ouro e ainda assim fossemos um país pobre.


E o que importa nas redes? A luta contra o comunismo! Ora bolas, tenham a santa paciência!

Estamos no séc. XXI e ainda existem pessoas contrárias às lutas pela igualdade racial e afetiva?


Alguém será contra que crianças tenham educação de qualidade, acesso à saúde e esportes nas escolas e que professores sejam os profissionais mais respeitados do país?


Alguém é contra que todos terem saúde e que a miséria não pode existir num país rico?

Será que isso é “coisa de comunista” ou coisa de gente decente?


Estamos presos - e lhes peço que reparem bem nisso! - numa eterna campanha eleitoral, mas próximos do desastre econômico, ambiental e do energético com as suas consequências, como o da segurança pública. Um apagão gerará o caos urbano e rural!


Mas sabem do pior? E que entramos nesse jogo e temos a sensação de gostar dele. Dão-nos a droguinha dopamina, sugam nossas energias por votos e nos mantêm aqui.


Mas o nosso maior problema é a ilusão que “o programa” nos impõe de tempos em tempos: o de acreditarmos em salvadores.