• Pedro Henrique Máximo Pereira

Ruínas de Auschwitz-Birkenau: 76 anos depois

Atualizado: Jul 9

No dia 27 de janeiro de 1945, um sábado à tarde, as tropas do Exército Vermelho libertaram Auschwitz-Birkenau.

Pedro Henrique Máximo Pereira

Arquiteto e urbanista, Doutor em Arquitetura e Urbanismo (UnB) e professor (UEG, PUC-GO e UniEvangélica)

"Seja qual for o fim desta guerra, a guerra contra vocês nós ganhamos; ninguém restará para dar testemunho, mas, mesmo que alguém escape, o mundo não lhe dará crédito. Talvez haja suspeitas, discussões, investigações de historiadores, mas não haverá certezas, porque destruiremos as provas juntos com vocês. E ainda que fiquem algumas provas e sobreviva alguém, as pessoas dirão que os fatos narrados são tão monstruosos que não merecem confiança: dirão que são exageros da propaganda aliada e acreditarão em nós, que negaremos tudo, e não em vocês. Nós é que ditaremos a história dos Lager (Campos de Concentração)"

(Fala dos nazistas aos prisioneiros nos Campos de Concentração em toda a Europa)



É oportuno, para este dia 27 de janeiro de 2021, dar sequência ao texto Os silêncios de Auschwitz. Comemora-se nesta data 76 anos de libertação daquele que se tornaria o símbolo das atrocidades nazistas: Auschwitz-Birkenau. Celebra-se ainda nesta data o Dia Internacional em Memória às Vítimas do Holocausto.


Muitos de nós sequer chegou a ouvir detalhes de outros Campos de Concentração nazistas espalhados por toda a Europa (tais como Dachau, Belzec, Sobibor, Chelmno, Majdanek, Treblinka, entre tantos outros), mas, certamente, a esmagadora maioria de nós conhece um pouco de Auschwitz-Birkenau ou sabemos o que significou e significa. A relevância desta data nos faz pôr uma pausa e refletir sobre a vida, a história e as ruínas deixadas no maior e mais mortífero Campo de Concentração. É sobre este tema que tratarei com vocês hoje, meus amigos e minhas amigas distantes.


A epígrafe, infame e perversa, foi retirada de um dos mais importantes livros de Primo Levi, Os Afogados e os Sobreviventes. Nele, Levi destacou que a ascensão do negacionismo do Holocausto era antecipada pelos nazistas quando, ao zombar dos milhões de prisioneiros nos Campos de Concentração, roubava-lhes o sonho da justiça. Levi aponta que muitos sobreviventes do genocídio programado, planejado e perversamente executado, conviviam com este pesadelo, mesmo depois da condenação internacionalmente assistida dos principais membros da SS.


Neste texto falo um pouco sobre as ruínas de Birkenau. São ruínas! Marcadas pelo tempo, expressam e denunciam os diversos vazios e silenciamentos evidentes na história do Holocausto. No entanto, estas mesmas ruínas escancaram um termo muito comum entre os arquitetos e urbanistas: Genius Loci. Genius Loci é, em síntese, o Espírito do Lugar. Este Espírito do Lugar era objeto de culto dos romanos pois, conectados à materialidade do lugar, capturavam sua atmosfera, sua sensibilidade e verdade irrefutável.


As ruínas de Birkenau são, assim, as provas materiais do crime e a substância de seu Genius Loci. Não há como não sentir e, em silêncio, tentar ouvir o que tal materialidade anuncia, verbaliza, grita e continua, 76 anos depois, a insistentemente repetir.


Motivação triste para uma viagem distante


Há duas imagens de Auschwitz-Birkenau que caracterizam este símbolo e causam arrepios a qualquer um que as veem. O portão de Auschwitz com os escritos "Arbeit macht frei" e o Portão Principal de acesso a Birkenau (Auschwitz II). De todos as características destes dois complexos, estes eram os elementos que faziam destaque àquela regularidade obsessiva da arquitetura dos barak, ou barracões.


Portão de Auschwitz com os escritos "Arbeit macht frei" e o Portão Principal de Birkenau.


Estas duas imagens foram fortemente popularizadas em livros, como “Isto é um homem?” de Primo Levi, “Depois de Auschwitz” de Eva Schloss e “Os fornos de Hitler” de Olga Lengyel; ou filmes, como o clássico “Playing for time” (Amarga Sinfonia de Auschwitz), dirigido por Daniel Mann e com a impecável interpretação de Vanessa Redgrave (1980); ou o vencedor de diversos Oscars, dentre eles o de Melhor Filme, “Schindler´s List” (A Lista de Schindler), de Steven Spielberg, protagonizado por Liam Neeson (1993).


No entanto, essas duas imagens não se consolidaram somente pela fantasmagoria do símbolo nazista que as estabeleceram no contexto do Holocausto. Há um conjunto de imagens de Auschwitz-Birkenau que circunscrevem os significados que se sintetizaram nos portões acima mencionados. Imagens das provas cabais, documentos históricos e, infelizmente, patrimônio histórico que revela e escancara o que, no auge da sociedade moderna, os seres humanos puderam fazer contra os iguais a si. Foi no ímpeto de conhecer de perto essas imagens, esses documentos e esse patrimônio que decidi ir a Auschwitz-Birkenau.


Quando estava cursando meu doutorado na Universidade de Brasília entrei em contato com duas obras que dilaceraram meu espírito e que foram a razão por, na próxima viagem, ir a Auschwitz-Birkenau. Peço alguns segundos do leitor para trazê-las à tona.


A primeira, Modernidade e Holocausto, de Zygmunt Bauman (um dos autores mais importantes e popularizados do mundo contemporâneo e, por isso, também muito mal lido), sacudiu minha compreensão de civilização moderna. Para Bauman, a sombra do Holocausto repousava sobre nossos ombros e o perigo de se realizar novamente, em outras formas, métodos, motivações e contra outros grupos sociais, estava iminente mesmo mais de 40 anos depois (1989). O mais chocante é que, para Bauman, isso não é uma contravenção, transgressão, desvio ou corrupção do espírito civilizatório ou moderno, mas a coroa, a outra face da moeda cuja cara conhecemos tão bem.


A segunda, O que resta de Auschwitz?, de Giorgio Agamben, procura identificar os mecanismos de narratividade do horror inenarrável ao analisar a obra literária de Primo Levi, um sobrevivente de Auschwitz. Assim, Agamben nos apresentou que os limites da narração de Primo Levi, o qual, como testemunha dos crimes, encontrou dificuldades de encontrar referências em um ambiente completamente despido de humanidade. Portanto, para Agamben, Auschwiz representa o fim de qualquer ética de dignidade e adequação a uma norma.


Estes dois contundentes livros me motivaram a compreender o que foi Auschwitz mais a fundo e a conhecê-lo pessoalmente.


Auschwitz: um complexo regional de escravidão e extermínio


Auschwitz-Birkenau não era um simples Campo de Concentração disposto em duas partes. Sua organização era regional e sintetizava a complexidade e hierarquia da organização nazista que se estruturava em toda a Europa.


Em Oswiecim, em função das potencialidades logísticas dada pela presença de ferrovias e proximidade com as principais cidades e capitais do centro-leste europeu (Berlim, Praga, Viena, Varsóvia, Budapeste e Bratislava), além da mais importante jazida de carvão da Europa nas vizinhanças, as ações dos nazistas estavam direcionadas à exploração do trabalho escravo dos prisioneiros pela poderosa indústria alemã.


Complexo do Campo de Concentração de Auschwitz composto por Campos de Trabalho (Auschwitz e Monowitz), Campo de Extermínio ( Birkenau) e Subcampos na Alta Silésia, nas redondezas de Oswiecim. Fonte: Pedro Henrique Máximo, 2021.


No campo principal, Auschwitz I, narrado em Os silêncios de Auschwitz, operavam fábricas importantes, como Siemens-Schuckert, DAW (Deutsche AufrüstungsWerke) e Krupp, voltadas à produção de armamentos de guerra. Este campo foi construído em 1940. Após o planejamento e início de implantação da Solução Final em meados de 1941, outros campos de grande relevância foram construídos na região em 1942.


O primeiro a ser mencionado é Monowitz, conhecido como Auschwitz III, que possuía caráter semelhante ao Auschwitz I: campo de trabalho, uma Vila Operária de exploração de trabalho escravo. A poderosa indústria IG Farben operava neste Campo e se articulava a um campo vizinho, Buna (às vezes com menção única de Monowitz-Buna por pesquisadores). Em Auschwitz I a expectativa de vida era de três meses e em Auschwitz III, Monowitz, era de quatro meses.

Monowitz (Auschwitz III). Fonte: Wikimedia Commons


O segundo, Birkenau, conhecido como Auschwitz II, era um Campo de Extermínio, destino da grande maioria dos deportados dos territórios ocupados pela Alemanha. Ali a expectativa de vida era variada, dependendo da origem, etnia e religião, podendo durar meses ou apenas algumas horas. É sobre ele que falaremos adiante.



Birkenau antes das explosões, em 14 de janeiro de 1945. Fonte: snappygoat.com


Além destas indústrias mortíferas existiam outros 45 subcampos e campos auxiliares nas redondezas de Oswiecim na Alta Silésia (em 39 localidades, mas o subcampo de Gleiwitz, por exemplo, era subdividido em I, II, III e IV; e Buna, diretamente articulado a Monowitz), a grande maioria deles dentro de um raio de 65 km. O objetivo desses subcampos era de suporte à produção de Auschwitz e Monowitz. Embora menores, suas dimensões eram variadas e comportavam de poucas dezenas a mais de mil pessoas, dependendo de sua funcionalidade na hierarquia do complexo regional: Arbeitslager (trabalho), Aussenlager (externo) e Nebenlager (de extensão).


Uma noite chuvosa de inverno em Cracóvia


Dia 08 de janeiro de 2020 chegamos a Cracóvia, um dia antes de irmos a Auschwitz-Birkenau. Era final do dia, já escuro, como é frequente no inverno polonês. Fazia frio, caiam poucos flocos de gelo do céu e o trecho da cidade próximo à Kraków Główny, a estação de trem, estava agitada. Havíamos chegado de Varsóvia, uma das mais incríveis cidades que já visitei na vida.


Após o check in no Hotel 32, com fome, decidimos sair à procura de comida no famoso Sukiennice, o belíssimo mercado renascentista do centro da cidade antiga. Estava fechado! Caminhando pela bem iluminada rua Grodska fomos interrompidos em nosso percurso por uma moça. Ela, muito gentil, simpática e persuasiva, nos ofereceu uma promoção, “pague uma cerveja e beba duas em nosso burlesque”, no segundo subsolo do edifício ao lado. Aceitamos! Queríamos conhecer Cracóvia nos poucos dias que ficaríamos por lá.


No burlesque, uma belíssima moça polonesa se sentou ao meu lado e começamos a conversar e a assistir ao show – eu estava de casaco, com uma sombrinha nas mãos e com fome, mas não havia comidas por lá. Nossa curta estadia no burlesque foi suficiente para compreender um pouco a relação dos poloneses com o campo.


- “Amanhã vou a Auschwitz”. Respondi, perguntado pela moça o que fazia em Cracóvia.


- “Você, jovem, está na cidade culturalmente mais agitada da Polônia e vai a Auschwitz?” Ela, inquieta, me respondeu.


- "Sim! Você não conhece Auschwitz?” Respondi a ela com outra pergunta.

- “Óbvio que sim! Faz parte da história do meu país, portanto, da minha história. Íamos com frequência a Auschwitz e a outros campos quando era adolescente, quando ainda estudava. Faz parte do programa das escolas da Polônia”. Respondeu eufórica e expressiva.


- “Sim, amanhã sairemos às 9:00 em direção a Auschwitz”. Disse eu, surpreso com sua resposta.


- “Auschwitz é um capítulo muito triste da nossa história e lá é um local muito pesado. Uma cicatriz muito aberta. Qual seu interesse por Auschwitz?”, perguntou.


- “Do you know Brazilian’s President?” Respondi com objetividade.


- “Sim, claro que conheço! Agora compreendo sua motivação. Deus, o que aconteceu com o Brasil?” Ela, interessada pela resposta, me perguntou. Mas, esse é assunto para um outro texto.


Continuemos nossa trajetória.


De Auschwitz rumo a Birkenau


Dando sequência ao texto Os Silêncios de Auschwitz, ao entrar na van para irmos a Birkenau (Auschwitz II) por volta das 14:00 o silêncio imperava. Não me recordo de absolutamente nada do percurso até o Campo de Extermínio. Nada! Não há ainda registros fotográficos feitos do percurso em meus arquivos, o que dificulta qualquer recordação.


Depois de algum tempo, não me lembro quanto, paramos em uma conveniência anexa ao campo. “Chegamos a Birkenau!”, pensei - Birkenau foi o nome dado ao Campo em função do nome da bela floresta ao lado, Birkenwald. Ao descer da van olhei para o horizonte e vi, a uns 150 metros, o famigerado portão. Não parei para observar bem onde estávamos e o que havia no nosso derredor. Estava aterrorizado! Iniciamos, de imediato, o percurso até o Campo antes que o sol se pusesse. Parte considerável das instalações estavam fechadas, em decorrência da preparação do local para o evento comemorativo de 75 anos de libertação de Auschwitz no dia 27 próximo.


No percurso até o portão lateral atravessamos os trilhos. Foi um choque. Eram robustos e as perspectivas geradas em relação ao Portão Principal me fizeram recordar, como num flash, todas as imagens e cenas de filmes que já havia visto sobre o tema. A imagem se transformou em experiência aterradora naquele momento.


Nas laterais dos trilhos, muita lama e terra arenosa. Os pés afundavam a cada passo uns 2 centímetros no solo. Estes trilhos foram construídos em 1944 para conectar a estação Auschwitz, localizada a uns 300 metros dali, à rampa de Birkenau. O Objetivo era agilizar o processo de escoamento das pessoas às câmaras de gás inauguradas em 1943 que ficavam no extremo oposto do Portão Principal.


Birkenau: no interior do inferno só há ruínas


Ao atravessar as robustas cercas de aproximadamente 3 metros de altura outrora eletrificadas pela lateral sul do campo, próximo ao Portão Principal, avistamos à direita um horizonte devastado, marcado por pequenas chaminés a se perder de vista. À esquerda, estavam de pé os barracões que resistiram às explosões de janeiro de 1945. Entravávamos pela parte do campo destinada às mulheres, a primeira a ser construída em 1942, inicialmente planejada para ser os estábulos.


Barracões de Birkenau. Fonte: Pedro Henrique Máximo, 2020.


Caminhamos lentamente pelas Lagerstrasse, as ruas e avenidas do Campo, observando a paisagem e ouvindo a guia. As cercas elétricas não encerravam somente os limites externos do Campo, como em Auschwitz. Existiam áreas e mais áreas internas delimitadas por elas. Em seu interior havia extensas valas no solo de aproximadamente 1,5 metros de profundidade paralelas às cercas. Essas valas eram barreiras no solo para evitar que os prisioneiros e prisioneiras, enfraquecidos pela fome e feridos pelos espancamentos constantes, chegassem às diversas cercas do campo à procura da morte.


Chegamos à rampa, local onde os oficiais da SS, Fritz Klein, Josef Mengele e outros praticavam a “Seleção” quando os carregamentos chegavam pelos trilhos. Outrora esse processo era realizado na área externa ao Campo, na estação Auschwitz. Essa “Seleção” determinava quem seria enviado diretamente para as câmaras de gás, como crianças de até 12 anos, idosos, deficientes e qualquer um ao bel prazer dos nazistas, e aqueles que sobreviveriam como escravos por mais alguns meses, devidamente marcados na pele, nos braços e no peito, por números. Em Birkenau, quem não era diretamente destinado à morte tinha o nome trocado por um número cravado sobre o corpo. Em Birkenau, cerca de 8 mil pessoas eram assassinadas por dia.


Na rampa, o conato com os trilhos novamente foi intenso. Ali estava um vagão utilizado para o transporte de pessoas. Esses vagões eram utilizados originalmente para transporte de animais: porcos, gado e cavalos. Em tese caberia 8 cavalos neste tipo de vagão, mas os nazistas colocavam de 60 a 100 pessoas em cada um deles para percorrer trajetos de aproximadamente 8 dias, sem água, sem comida e sem luz. Os prisioneiros já chegavam completamente fragilizados ao Campo ou morriam no caminho.


Rampa de Birkenau. Fonte: Pedro Henrique Máximo, 2020.


O ponto onde nos encontrávamos, no centro da rampa, era o centro das coordenadas que orientavam sua organização. Ao Sul, o Campo destinado às mulheres. A leste, o Portão Principal. Ao Norte, os Campos masculino, para famílias de ciganos e novos prisioneiros do Leste da Europa. A Oeste, simbolicamente ao pôr do sol, as câmaras de gás. Dalí seguimos na direção das ruínas das antigas chaminés que cuspiam fogo 24 horas por dia e liberavam um cheiro adocicado insistentemente destacado por Olga Lengyel. Ao lado das câmaras de gás, no subsolo, estavam os fornos que queimavam ininterruptamente, chamados no interior do Campo de “Padaria”. Somente os veteranos, normalmente os alemães prisioneiros homicidas e criminosos, ou mesmo os blocova, prisioneiros responsáveis por inspecionar e, duas vezes ao dia, contabilizar os prisioneiros por barracão, sabiam exatamente o que ocorria na “Padaria”. No interior do Campo era proibido dar detalhes sobre a lógica de seu funcionamento e a finalidade de Birkenau.


Chegamos e, mais uma vez, o silêncio imperou. Ao final do percurso estava o Monumento Internacional pelas Vítimas do Fascismo, gigantesco e poderoso. O monumento repousa soberano ao final do percurso de Birkenau entre as duas câmaras de gás principais do Campo, anunciando a vitória sobre o fascismo ao mesmo tempo em que homenageava suas milhões de vítimas. Silêncio! Não me contive! Estendi as mãos e toquei no totem do memorial sob um forte sentimento de vergonha e compaixão.


Monumento Internacional pelas Vítimas do Fascismo em Birkenau. Fonte: Pedro Henrique Máximo, 2020.


De frente para o Portão Principal, do lado esquerdo, avistamos Canadá (imensa área destinada à separação dos pertences das vítimas), mas não tivemos acesso a suas ruínas. Do lado direito, ruínas! Ruínas! Ruínas! Eu já sabia dos detalhes do que aconteceu ali, mas eu não tinha ideia da dimensão física das câmaras de gás, dos fornos e das ruínas deixadas tal como ficaram quando os nazistas os explodiram em janeiro de 1945.


Ao redor das ruínas da câmara de gás ouvimos cânticos em iídiche que ecoavam como murmúrios e lamentos. Erguemos os olhos e avistamos um grupo de aproximadamente 15 judeus em lágrimas. No momento em que escrevo sobre esta memória sinto uma dor incomensurável na alma, exatamente como senti naquele momento. Meu amigo e minha amiga leitora. Está muito difícil continuar a escrevê-lo!


Ruínas da Câmara de Gás e Crematório de Birkenau. Fonte: Pedro Henrique Máximo, 2020.


Aquelas ruínas evocam a mais profunda dor humana. Ali, naquela câmara de gás que estava à minha frente em ruínas, milhares de pessoas como eu e como você foram brutalmente assassinadas e em minutos tinham seus corpos transformados em cinzas por uma lógica industrial perversa. Ao todo, não se sabe ao certo, morreram em Auschwitz-Birkenau entre 1,1 e 1,5 milhões de pessoas. Não se sabe ao certo porque, como prometido pelos soldados nazistas (ver epígrafe), milhões de provas foram aniquiladas, milhões de registros, documentos pessoais, fotografias de familiares desapareceram. Tudo! Milhões de pessoas que existiam simplesmente deixaram de existir.


No dia da libertação de Auschwitz-Birkenau havia 7 mil pessoas ainda vivas e em condições inumanas. Muitas delas morreram minutos, horas e dias depois que o Exército Vermelho chegou.


Tivemos a oportunidade de entrar num dos barracões. Eu não conseguia falar nada e já não havia saliva na minha boca. Engolia seco. Saímos das ruínas das câmaras de concentração em silêncio na direção de um dos primeiros estábulos ali criados e adaptados para receber os prisioneiros. Mal estou conseguindo escrever nesse momento.


Entramos pela lateral. Silêncio absoluto! Tudo escuro! À esquerda, corredor. À direita, corredor. Se as condições de iluminação natural dos barracões de Auschwitz eram suficientes, em Birkenau eram impossíveis de garantir habitabilidade. Ao final dos extensos corredores uma pequena abertura.


Corredores de um dos barracões de Birkenau. Fonte: Pedro Henrique Máximo, 2020.


Eram dois corredores estreitos e paralelos que configuravam 4 alinhamentos de beliches. Não! Não eram beliches. Eram koias de aproximadamente 3 metros de largura por 80 centímetros de altura. Estes estavam dispostos em sequência e em três níveis: o primeiro, no nível do chão, segundo, 80 centímetros acima, e o terceiro, a 1,6 metros do solo. Eram construídos em taboas de madeira e chegavam a abrigar 15 pessoas em cada koia. 15 pessoas amontoadas em aproximadamente 3 metros de largura. Em cada sequência de vertical de koias não era raro encontrar em Birkenau 60 pessoas. 60! Cada barracão comportava entre 700 e 1.400 pessoas.


Koias de um dos barracões de Birkenau. Fonte: Pedro Henrique Máximo, 2020.


O piso era de chão batido. O único local de acesso era próximo à lareira do barracão. No que entramos era uma lareira para aquecer entre 700 e 1.400 pessoas nos invernos rigorosos da Polônia.


Lareira e parede da lareira de um dos barracões de Birkenau. Fonte: Pedro Henrique Máximo, 2020.


As ruínas sagradas da humanidade


Ao finalizarmos o percurso em Birkenau voltamos em direção à conveniência. Ali tivemos alguns minutos para acalmarmos o espírito e, enfim, pudemos confraternizar nossas experiências pessoais com nossos companheiros de van e conhecê-los melhor.


A experiência em Auschwitz, narrada em Silêncios de Auschwitz foi aterradora, dolorosa e profundamente silenciosa. Entretanto, a experiência em Birkenau foi sufocante. Ali, não havia somente silêncio, mas faltava ar.


Auschwitz permaneceu intacto. Birkenau foi estraçalhado e implodido, restando apenas ruínas. No entanto, as ruínas de Birkenau foram banhadas com o sangue e cobertos com as cinzas de toda a humanidade. O sangue e as cinzas dos que ali descansam justificam uma investida dura e radical contra ímpetos genocidas que ainda nos assolam ou possam vir a assolar, como bem nos alertou Zygmunt Bauman e Modernidade e Holocausto. Inocentes morreram, milhões; mas suas mortes não serão em vão.


Os mais de um milhão de pessoas brutalmente assassinadas no Complexo de Auschwitz, em sua esmagadora maioria, tiveram em Birkenau e nas redondezas o local de descanso para seus corpos, mesmo marcados por intensa tortura e queimados nos fornos de Hitler e de toda a civilização, moderna e racional, que compactuou com o crime.


Suas vozes foram silenciadas. Seus corpos foram eliminados. O direito de existir, inclusive nos anais da história, lhes foi furtado. Mas restam as ruínas sagradas de Birkenau.


Certamente o que foi possível ver, sentir e experimentar em Auschwitz-Birkenau, seu Genius Loci, está imbuído de uma tarefa dolorosa, difícil e profundamente complexa, mas nobre, de ensinar os humanos a serem humanos. Estas ruínas tem desempenhado esse papel há décadas e a milhões de pessoas anualmente. Foi isso que fui buscar em Auschwitz-Birkenau. Foi isso que lá encontrei!


Rosa no interior de um dos barracões de Birkenau. Fonte: Pedro Henrique Máximo, 2021.


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