• Fabio Paes

Se não sair no reboco, vai na marreta


Por Fabio Paes

Sociólogo, professor da educação básica, escritor e poeta

Entre o final do ano passado, e o início de 2021 tive uma experiência ímpar em minha vida, que recomendo a todos que pretendem sair de vez do aluguel e realizar o sonho da casa própria: construir sua casa.


Trabalhei desde o alicerce até apertar o ultimo parafuso dos móveis. Devido à falta de dinheiro, a oferta de mão de obra qualificada e o tempo estimado para o término do serviço, pelo menos três profissionais foram contratados como pedreiro. Cada qual com modo próprio de trabalhar, com exigências distintas de materiais de construção, e velocidade na execução do serviço. Uma coisa sempre foi unânime entre ambos: a famigerada frase “sai no reboco”.


Para os menos informados, reboco é a camada fina de argamassa de cimento ou gesso, que ajuda a nivelar e dar o acabamento nas paredes. Toda vez que eu percebia certas irregularidades nas paredes de minha casa, os pedreiros repetiam o velho mantra: isso aí sai no reboco.


Isso é coisa de pedreiro preguiçoso que, há tempos, perdeu o capricho e a habilidade de fazer um trabalho minimamente decente. Certamente contando com a possibilidade de tentar concertar tudo no acabamento.


Assim vejo como vem sendo conduzida a política aqui no Brasil, desde, talvez, a candidatura de Dilma Rousseff. Alimenta-se, até os dias de hoje, a ideia de colocar pessoas sem o devido conhecimento no comando de cargos importantes do executivo, nacional, estadual e municipal. Se eles não derem conta do serviço, depois “tiramos no reboco.”


Bolsonaro, Dória, Zema, Witzel, entre outros, se elegeram, em 2018, com o argumento de serem outsiders, não-políticos ou, simplesmente gestores. Muito se falou à época do pouco preparo que cada um tinha para tratar problemas tão complexos que é gerir a máquina pública. A respostas eram bem parecidas com as de meus pedreiros: “depois a gente ver”, “se errar a gente tira ele de lá”, entre outras calhordices.


Isso, infelizmente, não ficou no passado. Todos os dias somos informados de novos aventureiros almejando o posto máximo do executivo nacional, e credores a fim de correr o risco em ter um despreparado no comando. Muitos dizem querer uma terceira via para vencer a polarização odienta entre Lula e Bolsonaro. Alguns nomes citados, destacam-se figuras como o animador de auditório Luciano Huck, o ex-ministro da saúde Luís Henrique Mandetta, e o ex-juiz Sérgio Moro. Figuras que até podem estar repletas de boa vontade, porém, pouca experiência no executivo e um projeto sólido para ajudar nosso país a superar a crise.


Assim seguimos nossa obra, devagar quase parando. A casinha de paredes tortas, que é o Brasil, permanece à mercê da especulação e do culto ao personalismo. Aposta-se alto em remendos e jeitinhos. Se der certo, bem. Se os erros de construção foram visivelmente gritantes, continuaremos tentando tirar tudo isso no reboco.

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