• Thaynan Alves Oliveira

Setor aeronáutico em tempos de crise

Atualizado: Mai 16


Por Thaynan Alves Oliveira

Mestre em Cências e Tecnologias Espaciais (ITA)

Atualmente cursando doutorado em Eng. Mecânica (Université de Lille – FR)


A cidade de São José dos Campos (SJC), no estado de São Paulo, exala aviões. Se olharmos para o Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial, ainda na via Dutra, experimentamos o primeiro contato com o pequeno avião em voo reproduzido junto ao gramado próximo ao portão de entrada do centro de pesquisa. Passeando pela região central da cidade, no parque Santos Dummont, encontramos a réplica do clássico 14-BIS, projeto do gênio inventor que dá nome ao parque, bem como o saudoso Bandeirante, veículo que deu origem à todo o desenvolvimento tecnológico que temos hoje no setor. Pegando o “busão” em direção ao aeroporto, podemos parar no Memorial Aeroespacial Brasileiro (MAB) e ver as diversas carcaças de aviões e réplicas de veículos aeroespaciais, viajando pela história da nossa pesquisa e indústria em defesa, contada através dos itens lá expostos. Há alguns quilômetros dali, tem-se o parque tecnológico que abriga empresas, instituições de ensino, ciência, tecnologia e inovação, também com um braço tecnológico voltado à indústria aeronáutica. Para finalizar o passeio, logo em frente ao memorial, a joia da cidade e uma das maiores em aviação comercial no mundo Embraer.


É evidente que o setor aeronáutico representa hoje o que o nosso país tem de melhor em termos de tecnologia. Quando cheguei na França, em uma das primeiras conversas informais que tive com o meu supervisor sobre os nossos países de origem, ele fez questão de lembrar-me que o Brasil ainda fabrica aviões. Nesses tempos em que “agro é tudo” na mentalidade do mercado brasileiro, a indústria de aviação ainda é capaz de nos dar um status de inventores e desenvolvedores de tecnologia a nível internacional. Esse setor, no entanto, é um dos mais atingidos pela atual crise à nível global e a escassez de informações em relação a esse assunto na grande mídia brasileira me deixa, no mínimo, em estado de alerta.


SJC também respira aviões. Uso essa expressão para enfatizar que não se trata apenas da gigante brasileira, mas uma extensa cadeia de fornecedores que emprega brasileiros e permite que tenhamos aviões nacionais quase em sua totalidade. Estimava-se, segundo reportagem do portal G1[i] de setembro passado, que 20% a 40% do total de trabalhadores dessas empresas secundárias corriam o risco de perder seus empregos com a queda de produção ocasionada pela crise. A própria EMBRAER demitiu 2.500 trabalhadores em 2020 alegando o contexto da crise, o que ocasionou uma disputa jurídica com o sindicato dos metalúrgicos de SJC, que irá a julgamento no próximo dia 10 de fevereiro[ii]. O sindicato alega hoje que não há crise, visto que a empresa recebeu a quantia de R$ 3bi em um primeiro momento e mais R$ 450mi do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) anunciado no dia 25 de janeiro[iii].


De fato, a produção de aeronaves de menor porte, comparadas aos modelos comerciais populares da BOEING e AIRBUS, torna a Embraer melhor posicionada no mercado nesse momento de pandemia. Essa posição se dá devido a regionalização dos voos e tendência à diminuição do número de passageiros, como é explicado com detalhes no artigo publicado pela Aeromagazine[iv]. Tendo isso em conta, as ações da empresa na bolsa também tem subido[v] e o mercado já começa a reaquecer mesmo sem tréguas da crise sanitária. No entanto, o aumento da demanda também aquece a concorrência e a sua concorrente Russa Iliushyn já tem seu projeto turboélice em fase de testes[vi], visando atender a demanda desses voos menores.


Este texto não visa analisar detalhadamente a situação econômica ou impor uma posição contundente em relação as disputas judiciais da companhia brasileira, mas sim ponderar para que, dadas as condições catastróficas da nossa atual gestão pública brasileira, sigamos atentos ao setor que é exemplo tecnológico, aos seus trabalhadores e toda a sua cadeia de produção. Enquanto que, por aqui, recebo diariamente notificações sobre a difícil situação e medidas para reaquecer o complexo aeronáutico situado principalmente na cidade de Toulouse em torno da francesa Airbus, no Brasil temos um grande silêncio e notícias esporádicas à respeito do nosso complexo. Desde a quebra do polêmico acordo com a BOEING, esperamos atentos pelo projeto e futuro da indústria aeronáutica brasileira. Isso dependerá tanto da gestão da sua principal empresa como da gestão pública que conta com o poder de investimento e do veto sobre eventuais acordos.


O complexo industrial de defesa é ponto chave nos planos de soberania e desenvolvimento tecnológico brasileiro. No setor aeronáutico, esse complexo tem como base a charmosa cidade do vale do paraíba, no interior paulista. Por hora, seguimos em alerta para que os interesses nacionais sejam colocados no plano e que a nossa saudosa SJC, que exala aviões, possa permanecer viva no cenário pós-crise.

Referências [i] https://g1.globo.com/economia/noticia/2020/09/10/embraer-chega-a-acordo-com-engenheiros-sobre-demissoes.ghtml [ii] https://www.sindmetalsjc.org.br/n/5376/demissao-em-massa-na-embraer-vai-a-julgamento-no-dia-10 [iii] https://www.istoedinheiro.com.br/embraer-decola-com-o-bndes/ [iv] https://aeromagazine.uol.com.br/artigo/embraer-aposta-em-maior-necessidade-de-jatos-regionais-para-os-proximos-10-anos_6045.html [v] https://economia.uol.com.br/cotacoes/noticias/redacao/2021/01/12/ibovespa-maiores-valorizacoes-e-desvalorizacoes-do-dia.htm [vi] https://economia.uol.com.br/todos-a-bordo/2021/01/31/russia-turboelice-concorrente-embraer.htm

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