• Eduardo Semerjian

Sociedade sem Arte, sociedade sem alma

Atualizado: Jan 9

Eduardo Semerjian

Ator. Locutor. Criador e apresentador do podcast Diplomacia e Arte.


Vou começar com uma afirmação: nossa Sociedade está doente. E qual é essa doença? É a falta de amor, respeito, carinho, solidariedade. Uma doença que se espalha, quanto mais esquecemos que somos uma coletividade e, que quanto mais pessoas enfraquecem mental, emocional ou corporalmente, pior a sociedade fica. Há quem queira justificar ou negar, dizendo que não existe isso, mostrando o sucesso econômico de empresas, de uma centena de indivíduos, ou mostrando índices que pegam sempre a média. A média é uma grande ilusão, na maior parte das vezes. Porque se eu tiver 10 laranjas e você não tiver nenhuma, a média de laranjas entre nós dois é 5 para cada um. Não creio que você fique feliz com essa média. Mas voltando à doença da Sociedade, eu gostaria que você pensasse: o que pode curá-la? Para isso, você precisa investigá-la e saber detalhes que te permitam conhecer como a doença age. E quem faz isso são pesquisadores, sejam da área médica, social, cultural, ou qualquer outra. Quando alguém quer que não se descubra soluções, basta não ter alguém pesquisando, ou que o pesquisador burle as próprias pesquisas, dando falsas informações que levarão a falsas conclusões. Parece lógico, não? Mais lógico ainda parece ser a falta de nexo que é alguém querer conclusões erradas para manter a doença ativa.


Mas em uma Sociedade, o que inocula os cidadãos de amor, respeito, carinho, e da solidariedade que falamos no início? De uma forma geral, o amor à vida, não é? As respostas são várias, mas eu vou lhe dar uma que é ponta de lança nessa propagação: a Cultura e a Arte.


A cultura é um conjunto de tradições, crenças e costumes dentro de um certo grupo social que pode ser uma família, uma aldeia, um bairro, uma cidade, um estado, um país, ou mesmo uma raça inteira. E ela é voltada para a preservação da vida e desenvolvimento desse grupo. Já a arte é a forma pela qual buscamos acompanhar as mudanças no espaço onde há essa cultura. A arte antecipa mudanças, prevê nós, colapsos e denuncia caminhos contrários à preservação da vida. Ao mesmo tempo, ela cria universos de soluções, de expressões pessoais que muitas vezes se mostram coletivas. Ao entrar em contato com essas expressões, seja no teatro, nas artes visuais, no cinema, música, ou qualquer outra forma artística, o apreciador da Arte se enxerga nela e conhece um pouco mais de si mesmo. Muitas vezes, funciona melhor que uma terapia, qualquer que seja ela. E afirmo isso, porque a arte integral não atinge apenas o intelecto, ou só o emocional, e não apenas o corpo - através de sensações físicas. A arte objetiva é uma centelha que atinge o Ser como um todo harmônico, possibilitando o surgimento de uma Supernova individual, uma evolução pessoal. É uma chance de investigação interna que tem desdobramentos curativos. Impossível, ao ser atingido pela centelha de uma obra artística, que libere sensações inéditas, que a pessoa se mantenha igual a antes de ser atingida. Mudamos sempre, quando atingidos. A questão é que o poder de limpeza de uma obra artística é único. Quem nunca teve acesso de choro ao ver um filme ou ouvir uma música, ou se deparar com uma certa escultura, ou mesmo ao ler uma história num livro? Contatos artísticos do 3º grau, que nada mais são que experiências míticas – e às vezes místicas também - são verdadeiros portais para o universo interno, onde estão guardadas todas as sensações necessárias para a cura de cada um de nós. Lá, no íntimo de absolutamente todos nós, encontra-se o Amor pela vida e toda a cadeia de aspectos nobres que dele derivam: o respeito, o carinho, a solidariedade, os mesmos do início do texto. Essa é a cura! A Sociedade que recheia sua Cultura com Arte inocula o indivíduo com o vírus da criatividade, da diversidade, que nada mais é que regeneração, vida, movimento. O mesmíssimo conceito da Natureza, seja em florestas, oceanos ou lugares inóspitos.


Dito isso, a questão que surge em seguida é: porque há quem odeie a Arte e a Cultura, e queira destruí-las? Quem nunca foi tocado de forma direta e profunda pela Arte, tem o hábito de viver na superficialidade de si, preservando uma dura casca de proteção, como nos ensina Reich. Esses indivíduos não se aprofundam em qualquer pensamento filosófico sobre a própria vida que tem, a do outro, ou do mundo como ele é. Um dos “efeitos colaterais” da Arte é desnudar o outro lado de cada um, qual seja, a raiva, o nojo, a falta de caráter, o egoísmo, a inveja, e outros conceitos e “virtudes” ditos menos nobres. Mas amigo, eu sinto lhe dizer: TODOS nós temos esse lado. Se existe um causador de luz, ele mostrará a sombra, pois sempre haverá um anteparo atrás de si. Todos temos as nossas sombras. Quem aprende a lidar com elas, vive normalmente muito mais livremente. E essa liberdade incomoda quem não dá vazão a ela. Assim, quem não quer enxergar as sombras, suas e alheias, é quem mais tem repugnância à Arte. Mas não apenas a sombra individual é mostrada, as sombras do ser humano como um coletivo também. A Arte nos desnuda, nos mostra como somos de verdade. Lembre-se que as representações de Adão e Eva no Paraíso são sempre em nudez. Na nudez está a pureza, mas também a malícia. Todos nós temos medo da nudez. Quando encontramos pessoas de poder que querem manter suas imagens de pureza, ou seja, que não se desnudam, a sombra delas começa a funcionar automaticamente. Perceba que religiosos, esportistas, políticos, e celebridades em geral normalmente só mostram suas faces bondosas, gentis, agradáveis, sorridentes, perfeitas. Há exceções de pessoas espontâneas, claro. Muitas e maravilhosas. Mas as que não o são, como se vivessem num paraíso, estão sempre felizes, e nos brindando com pensamentos de autoajuda ou marketing pessoal. Estas duas, aliás, existem profissionalmente para esconder as sombras. No caso específico de políticos do atual momento brasileiro – e mundial também, por que não? -, vários destes espécimes adquirem uma forma de dominar as ações e pensamentos alheios, pela força do desaparelhamento econômico da população, pela deseducação, pela criação de falsas verdades, e principalmente, a criação de um inimigo em comum que pode acabar com a pureza do “povo”. Assim, ganha a confiança das pessoas. Normalmente os escolhidos para serem combatidos são jornalistas, juristas que prezam a vida, cientistas ou artistas. Mas claro que há outros. De qualquer forma, essas pessoas que querem permitir a abertura da caixa de Pandora são combatidas como demônios, como pessoas nefastas, más e então está feita a cama para a Sociedade adoecer. São os “Inimigos do Povo”, como chamaria o dramaturgo Henrik Ibsen, em sua obra de 1893, de mesmo nome. Recomendo, aliás, a sua leitura.


A única forma de voltarmos a ser uma sociedade mais saudável, é fazer ver às pessoas que a diversidade, seja ela cultural, social, religiosa, racial, ecológica, ou qualquer outra, é a catalisadora de novas possibilidades de desenvolvimento da vida na Terra. O homem tem um papel fundamental para a manutenção da vida no nosso planeta. Caso contrário, todos terão a mesma forma de pensar – e quem não tiver será eliminado – e a próxima geração será de robôs que aprendem, mas só o que alguns querem que seja aprendido. Isso será a sentença de morte da nossa casa no espaço. Sem amor, sem respeito à vida, e sem a noção de que os recursos de que nos utilizamos para sobreviver acabam, viraremos um planeta morto.



Os textos da coluna de Opinião não representam a visão e posição do WeColetivo, que se dá somente por seus editoriais. A responsabilidade pelos textos desta coluna é inteira de seus autores.

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